RLM 2027 · Capítulo 1 de 30 · 13 min
Descobrir onde o modelo encontra cada informação que usa
Classificar cada erro de um assistente em informação, contexto, raciocínio ou execução, antes de escolher a arquitetura que vai corrigi-lo.
Este capítulo faz parte do curso gratuito RLM 2027.
Catorze anos de licenciamento ambiental cabem num servidor de arquivos, mas não cabem na cabeça de ninguém. A Veredas Ambiental, consultoria de Belo Horizonte, guarda os processos de 38 empreendimentos: minas, barragens de rejeito, loteamentos e uma pequena central hidrelétrica. São 6.400 documentos, cerca de 52 milhões de tokens. Token é o pedaço de palavra que o modelo lê e pelo qual a API cobra.
Helena, coordenadora técnica, responde aos clientes e assina os pareceres. Caio, engenheiro de dados, montou dois anos atrás um assistente de busca vetorial sobre esse acervo. Ele acertava perguntas do tipo “onde está o laudo de março da PCH” e errava perguntas do tipo “quantas condicionantes vencidas temos em todos os empreendimentos”. O erro de contagem é o mais caro, porque chega ao cliente com cara de certeza.
Onde o modelo encontra a informação: o diagnóstico antes da ferramenta
O capítulo 1 em vídeo: os três lugares de onde sai a resposta de um modelo, os quatro gestos de uma resposta, o limite do RAG na pergunta de contagem, o que é um RLM e as siglas que se confundem com ele, e o diagnóstico da Veredas Ambiental, caso fictício do curso, com 56 erros classificados em informação, contexto, raciocínio e execução.
Onde o modelo encontra a informação, em conversa
Dois apresentadores percorrem o capítulo 1 cobrando a prova de cada afirmação: parâmetros, contexto e ferramentas, o RAG de 2020, a definição de RLM, a armadilha do modelo maior e o diagnóstico da Veredas Ambiental, caso fictício, com 31 erros de contexto em 56 e o teto de 95 acertos em 120.

Trocar de ferramenta antes de saber por que a atual erra é gastar duas vezes. Ao terminar, o leitor separa o que um modelo sabe do que ele recebe e do que ele busca. Também classifica cada falha num de quatro tipos e reconhece o vocabulário que o resto do curso usa. A sigla RLM, em especial, tem três vizinhas com nomes parecidos e sentidos diferentes.
Três lugares de onde sai a resposta de um modelo de linguagem
Todo modelo de linguagem responde com o que encontra em três lugares. O primeiro são os parâmetros: os bilhões de números ajustados no treino, que guardam o que o modelo aprendeu antes de você chegar. É uma memória parecida com a de quem estudou para uma prova anos atrás: vasta, sem índice e sem data. O modelo não sabe dizer de qual livro tirou cada frase.
Em segundo lugar vem o contexto: o texto que chega na chamada, com a pergunta, as instruções e os documentos colados. Janela de contexto é o limite de tokens que cabem numa chamada, como o tamanho da mesa em que alguém espalha os papéis para ler. Em setembro de 2026, os modelos mais recentes da Anthropic, da OpenAI e do Google anunciam janelas de cerca de 1 milhão de tokens.
Se a figura ultrapassar a área visível, deslize para os lados. Pelo teclado, foque a figura e use as setas.
Ferramentas formam o terceiro lugar. São funções que o modelo chama para buscar ou calcular fora de si: uma busca num índice, uma consulta a banco, um trecho de código executado. O resultado volta para o contexto e só então entra na resposta. Uma calculadora sobre a mesa ajuda quem sabe o que digitar nela; o modelo precisa decidir o que perguntar à ferramenta.
Cada lugar tem um preço diferente. O que está nos parâmetros sai de graça a cada chamada, mas não se atualiza nem cita a origem. O que está no contexto é cobrado por token, toda vez que entra na janela. O que vem de ferramenta acrescenta tempo de espera e depende de a busca acertar o alvo. Escolher onde pôr uma informação é escolher entre custo, frescor e rastreabilidade.
Os três lugares da informação e a falha típica de cada um
| Lugar | Como a informação chega | Falha típica | Exemplo na Veredas |
|---|---|---|---|
| Parâmetros | Aprendida no treino, antes da pergunta | Resposta plausível e desatualizada, sem origem | O modelo “lembra” uma norma genérica de outorga que não vale para Minas Gerais |
| Contexto | Colada na chamada, junto com a pergunta | O trecho certo ficou fora da janela ou se perdeu no meio dela | O laudo que contradiz o anterior não estava entre os trechos enviados |
| Ferramentas | Buscada ou calculada durante a execução | A ferramenta devolve pouco, demais ou a coisa errada | A busca vetorial traz 8 trechos parecidos com a pergunta e nenhum com a data de vencimento |
Exemplos do cenário composto da Veredas Ambiental, usado em todo o curso.
Os três lugares aparecem juntos num mesmo pedido, em três gestos: receber, recuperar e usar. O modelo recebe a pergunta e o que veio com ela. Recupera o que falta, pela memória dos parâmetros ou por uma ferramenta. Usa o material ao raciocinar e escrever a resposta. Cada gesto falha de um jeito próprio, e o conserto de um não conserta o outro.
- Etapa 1 de 4: Receber
Pergunta, instruções e documentos entram na janela de contexto
- Etapa 2 de 4: Recuperar
O que falta vem dos parâmetros ou de uma ferramenta de busca
- Etapa 3 de 4: Usar
O modelo raciocina sobre o material e escreve a resposta
- Etapa 4 de 4: Entregar
A resposta sai no formato pedido, dentro do limite de saída
A primeira arquitetura famosa para o gesto de recuperar é o RAG, sigla de geração aumentada por recuperação. Patrick Lewis e mais onze autores do Facebook AI Research, da UCL e da NYU publicaram a proposta em maio de 2020. O modelo consulta passagens da Wikipédia indexadas por significado e escreve a resposta com elas à vista. Na época, atingiu o melhor resultado em três testes de perguntas abertas.
Os autores chamavam os parâmetros de memória paramétrica e o índice de memória não paramétrica. A ideia pegou porque resolve bem um tipo de pergunta: aquela cuja resposta mora em poucos trechos, fáceis de achar por semelhança de texto. “Onde está o laudo de março” é uma pergunta assim. “Quantas condicionantes venceram” não é, porque a resposta está espalhada em centenas de documentos que não se parecem com a pergunta.
Justamente nessa fronteira mexem os RLMs. Em vez de buscar trechos por semelhança e colá-los na janela, o RLM guarda o material inteiro fora da janela e dá ao modelo uma ferramenta de programação para lê-lo. O acervo deixa de ser contexto e passa a ser um objeto que o modelo manipula por código, pedaço por pedaço, chamando outras instâncias de modelo para ler cada parte.
Onde o acervo fica em cada desenho
RAG: trechos colados na janela
Recuperar por semelhança
- Busca os trechos mais parecidos com a pergunta
- O modelo lê só o que a busca escolheu
- Acerta perguntas de poucos trechos, como localização
- Erra contagens que dependem de centenas de documentos
RLM: acervo como objeto fora da janela
Ler por programa
- Guarda o material inteiro numa variável
- O modelo escreve código para ler pedaço por pedaço
- Chama outras instâncias do modelo sobre cada parte
- Combina os resultados parciais numa resposta
O vocabulário do curso e as siglas que parecem iguais
RLM quer dizer Recursive Language Model, modelo de linguagem recursivo. Alex L. Zhang e Omar Khattab apresentaram a ideia num post de blog em 15 de outubro de 2025. O artigo, assinado por Zhang, Tim Kraska e Khattab, os três do MIT CSAIL, saiu no arXiv em 31 de dezembro de 2025. A versão atual, a terceira, é de 11 de maio de 2026.
Pela definição do artigo, o RLM é uma estrutura de inferência montada em volta de um modelo comum. Estrutura de inferência é o programa que organiza as chamadas ao modelo na hora de responder, sem mudar os pesos dele. Por fora, a interface continua a de sempre: entra texto, sai texto. Por dentro, o prompt vira uma variável num ambiente de programação, e o modelo escreve código para ler essa variável aos pedaços.
Recursivo, aqui, significa que o código escrito pelo modelo pode chamar o próprio modelo, ou uma cópia menor dele, sobre um pedaço do material. Cada chamada devolve um resultado que o código guarda e combina. A resposta final nasce dessa árvore de chamadas, e nenhuma delas precisa ler o acervo inteiro. A versão atual do artigo afirma que isso processa entradas mais de uma ordem de grandeza acima da janela do modelo.
Quatro termos que circulam juntos e querem dizer coisas diferentes
| Termo | O que é | O que muda | Relação com o RLM |
|---|---|---|---|
| RLM (modelo de linguagem recursivo) | Estrutura de inferência em que o modelo lê o prompt por código e chama a si mesmo sobre pedaços | Como a pergunta é respondida, sem mexer nos pesos | É o assunto do curso |
| RL (aprendizado por reforço) | Método de treino que ajusta os pesos por recompensa a cada tentativa | O próprio modelo, depois do treino | Pode treinar um modelo para operar como RLM, mas é outra coisa |
| Memória persistente | Registro que sobrevive entre conversas, como notas ou banco de fatos do usuário | O que o assistente lembra na sessão seguinte | O REPL de um RLM guarda variáveis durante uma execução, e não entre sessões |
| Auto-melhoria recursiva | Sistema que reescreve as próprias regras ou ferramentas a partir do que fez | O agente muda de uma execução para outra | Um agente pode usar RLM e se automelhorar, como o Prime Agent de agosto de 2026 |
Os quatro termos aparecem juntos em anúncios e posts, e a mistura produz expectativa errada. Quem lê “modelo recursivo” e entende “modelo que melhora sozinho” espera que o sistema aprenda com cada pergunta da Veredas. Nada disso acontece num RLM puro. Ele responde melhor a perguntas difíceis porque organiza a leitura, e esquece tudo quando a execução termina.
Um pesquisador que lê a sigla com atenção evita outra confusão, a de que RLM seja um produto. Existe uma biblioteca oficial, publicada no PyPI como rlms, e existe um módulo dspy.RLM no DSPy desde a versão 3.1.1, de 19 de janeiro de 2026. Até 23 de setembro de 2026, nenhum modelo comercial de fronteira foi anunciado como treinado para operar como RLM.
De onde vem o vocabulário, em datas
- 22 de maio de 2020Concluído
RAG de Lewis et al.
Buscar passagens num índice e gerar a resposta com elas; aceito no NeurIPS 2020.
- 12 de outubro de 2023Concluído
MemGPT
Gerencia o contexto como a memória virtual de um sistema operacional, trocando páginas entre a janela e um armazenamento externo.
- 27 de maio de 2024Concluído
THREAD
O modelo abre linhas de execução filhas sobre subtarefas; supera outros frameworks em 10 a 50 pontos absolutos com modelos menores.
- 14 de julho de 2025Concluído
Context Rot, da Chroma
Dezoito modelos pioram à medida que a entrada cresce, mesmo em testes simples.
- 15 de outubro de 2025Concluído
Post de Alex L. Zhang
Primeira apresentação dos RLMs, com experimentos preliminares no OOLONG e no BrowseComp-Plus.
- 31 de dezembro de 2025Concluído
Artigo no arXiv, versão 1
Zhang, Kraska e Khattab, do MIT CSAIL, formalizam o método.
- 19 de janeiro de 2026Concluído
dspy.RLM no DSPy 3.1.1
Primeira implementação num framework amplo, marcada como experimental.
- 11 de maio de 2026Agora
Versão 3 do artigo
Profundidades de 0 a 3, comparação com o Claude Code e a formulação “mais de uma ordem de grandeza”.
Com as palavras no lugar, a pergunta útil deixa de ser “qual tecnologia é melhor” e passa a ser “em qual dos três gestos o meu sistema falha”. Uma falha de recuperação pede busca melhor. Uma falha de leitura pede outra forma de expor o material ao modelo. Armadilha comum: trocar o modelo por um maior quando o defeito está no que chega até ele. Um modelo mais caro lendo os mesmos oito trechos errados erra com mais eloquência.
Como a Veredas descobriu por que o assistente contava errado
Helena levou a Caio uma pergunta de negócio que o assistente nunca acertava: “quais condicionantes de monitoramento hídrico estão vencidas ou com laudos contraditórios, em quais empreendimentos, e com que evidência?”. Condicionante é a obrigação que o órgão ambiental impõe na licença, como medir a turbidez de um córrego a cada trimestre e entregar o laudo. Vencida quer dizer prazo passado sem laudo entregue.
Antes de trocar qualquer peça, os dois montaram um conjunto de avaliação. Helena escreveu 120 perguntas com a resposta de referência de cada uma: 40 de localização, 50 de agregação ou contagem e 30 de cruzamento entre pares de documentos. Cruzamento é comparar um documento com outro, como o laudo de 2023 com o de 2024 do mesmo poço, para achar contradição.
Se a figura ultrapassar a área visível, deslize para os lados. Pelo teclado, foque a figura e use as setas.
Rodado sobre as 120 perguntas, o assistente de busca vetorial acertou 64. O retrato por tipo de pergunta mostrou o padrão que Helena já sentia no dia a dia: 36 de 40 em localização, 21 de 50 em agregação e 7 de 30 em cruzamento. O sistema era bom em achar e ruim em juntar.
Caio então abriu cada um dos 56 erros e perguntou em qual gesto a resposta tinha quebrado. Criou quatro rótulos. Informação: o dado não existia no índice, como laudos escaneados sem texto legível. Contexto: o dado existia, mas não chegou ao modelo. Raciocínio: o dado chegou e o modelo concluiu errado, como comparar datas em formatos diferentes. Execução: a resposta quebrou no caminho, cortada ou fora do formato.
- Etapa 1 de 4: O dado existe no índice?
Se não existe, o erro é de informação
- Etapa 2 de 4: O dado chegou ao modelo?
Se não chegou, o erro é de contexto
- Etapa 3 de 4: A conclusão bate com o material?
Se não bate, o erro é de raciocínio
- Etapa 4 de 4: A resposta saiu inteira e no formato?
Se não saiu, o erro é de execução
Com a regra escrita, o rótulo deixou de depender do palpite de quem lia o erro. Para conferir, Helena sorteou 15 dos 56 rótulos para revisar e discordou de 2. Os dois eram laudos que chegaram ao modelo pela metade, e ambos ficaram como erro de contexto.
Os 56 erros do assistente anterior, por tipo de pergunta e origem da falha
| Tipo de pergunta | Erros | Informação | Contexto | Raciocínio | Execução |
|---|---|---|---|---|---|
| Localização (40) | 4 | 2 | 1 | 0 | 1 |
| Agregação e contagem (50) | 29 | 3 | 19 | 4 | 3 |
| Cruzamento entre pares (30) | 23 | 1 | 11 | 8 | 3 |
| Total (120) | 56 | 6 | 31 | 12 | 7 |
Cenário composto da Veredas Ambiental. Erros = perguntas menos acertos (40 − 36, 50 − 21, 30 − 7).
Trinta e um dos 56 erros, mais da metade, eram de contexto. O dado estava no acervo e no índice, e o modelo nunca o viu. A causa ficou clara quando Caio contou os documentos que cada resposta exigia. Uma pergunta de contagem sobre condicionantes hídricas em todos os empreendimentos precisava de cerca de 300 documentos. O assistente mandava ao modelo os 8 trechos mais parecidos com a pergunta.
A conta explica o resto. Oito trechos para uma resposta que depende de 300 documentos cobrem, no máximo, 8 dividido por 300, perto de 2,7 por cento do material. Nenhum modelo conta o que não leu. E a busca por semelhança escolhe os trechos que mais se parecem com a pergunta, geralmente os mais genéricos, e não os que trazem a data de vencimento.
Os 12 erros de raciocínio pesavam mais no cruzamento. Mesmo quando os dois laudos chegavam, o modelo misturava unidades, confundia o ponto de coleta ou aceitava a data de emissão como data de amostragem. Esses erros não somem com mais contexto e voltam ao longo do curso, na trilha de confiabilidade. Os 6 erros de informação pediam outra coisa: extrair texto dos PDFs escaneados.
Daí sai também um teto. Se uma nova arquitetura consertasse todos os 31 erros de contexto e nenhum outro, o placar subiria de 64 para 95 acertos em 120. Esse número não promete nada; ele diz até onde vale investir na forma de expor o acervo antes de atacar raciocínio e extração. Proposta que prometa mais precisa explicar qual dos outros três tipos de erro também resolve.
O diagnóstico da Veredas, antes e depois da classificação
Leitura inicial
Antes
- “O modelo é fraco em contas”
- Plano: trocar por um modelo maior
- Nenhuma medida por tipo de pergunta
- Erros discutidos caso a caso, de memória
Leitura depois dos 56 rótulos
Depois
- 31 erros vêm de material que nunca chegou ao modelo
- Plano: mudar a forma de expor o acervo ao modelo
- Placar de 36, 21 e 7 por tipo, guardado como linha de base
- 6 erros encaminhados à extração de texto, fora do modelo
Helena tirou da tabela uma decisão de gestão: manter o assistente atual nas perguntas de localização, em que acerta 90 por cento, e procurar outra arquitetura para agregação e cruzamento. Caio tirou uma pergunta técnica. Se o acervo tem 52 milhões de tokens e a maior janela disponível tem cerca de 1 milhão, como fazer o modelo ler tudo o que uma contagem exige?
O caso ganhou uma linha de base de 64 acertos em 120 e uma causa principal com número: 31 erros de contexto. Liste agora as perguntas de agregação que falharam por contexto e anote, ao lado de cada uma, quantos documentos a resposta de referência exige. A lista está completa quando cada pergunta tiver esse número, e toda pergunta acima de 50 documentos já não cabe no desenho de busca por trechos.
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- 01Descobrir onde o modelo encontra cada informação que usa
- 02Medir o limite real do contexto e dividir o problema
- 03Guardar o acervo numa variável e deixar o modelo programar a leitura
- 04Desenhar a árvore de chamadas e decidir a profundidade
- 05Explorar o acervo antes de decidir onde cortar