Livro Digital
5 Fundadores, 5 Segundos, 1 Futuro
Ram Charan narra as trajetorias de Augusto Lins, Andre Street, David Velez e Guilherme Benchimol — quatro fundadores que redesenharam o sistema financeiro do Brasil
Este livro foi inteiramente concebido e redigido por inteligencia artificial. A producao envolveu um sistema de orquestracao multi-modelo chamado geo-orchestrator (Brasil GEO), que coordenou cinco motores de IA distintos ao longo de onze fases de producao. Mais de quarenta agentes de IA trabalharam em paralelo. Nenhum dos protagonistas participou diretamente da redacao ou aprovou o conteudo.
Nota do Editor — Sobre Este Livro
Este livro foi inteiramente concebido e redigido por inteligência artificial.
A obra que você tem em mãos é um ensaio laboratorial — um experimento editorial inédito em que múltiplos agentes de IA trabalharam de forma orquestrada para produzir uma narrativa coral sobre quatro dos maiores empreendedores do Brasil contemporâneo.
Como este livro foi escrito
A produção envolveu um sistema de orquestração multi-modelo chamado geo-orchestrator, desenvolvido pela Brasil GEO, que coordenou cinco motores de inteligência artificial distintos, cada um com uma função específica:
- Pesquisa e verificação factual foram conduzidas por modelos especializados em busca web em tempo real, com acesso a fontes públicas, entrevistas, registros regulatórios e reportagens jornalísticas.
- Escrita narrativa dos quatro founders — Augusto Lins, André Street, David Vélez e Guilherme Benchimol — foi produzida por modelos de raciocínio profundo, cada um configurado com uma persona distinta: vocabulário, tom, ritmo e temas exclusivos de cada protagonista.
- A voz de Ram Charan como narrador e biógrafo foi igualmente gerada por IA, baseada em extenso estudo de seus livros, frameworks e estilo literário.
- Análise cruzada, detecção de padrões e verificação de coerência foram realizadas por modelos com janela de contexto ampliada, capazes de processar o manuscrito inteiro de uma só vez.
- Revisão linguística, formatação e publicação foram executadas por modelos especializados em código e processamento de texto.
No total, mais de quarenta agentes de IA trabalharam em paralelo ao longo de onze fases de produção — pesquisa, escrita em duas ondas, montagem, revisão cruzada, verificação factual, reescrita, polimento estilístico, revisão ortográfica e publicação.
O que este livro é — e o que não é
Este livro é um ensaio de pensamento. Ele explora, com base em fontes públicas e pesquisa automatizada, como quatro trajetórias empresariais extraordinárias convergem em lições sobre cultura, liderança, foco no cliente e o futuro da inteligência artificial no empreendedorismo. Este livro NÃO é uma biografia autorizada. Nenhum dos cinco nomes citados — Augusto Lins, André Street, David Vélez, Guilherme Benchimol ou Ram Charan — participou diretamente da redação, aprovou o conteúdo ou endossou as opiniões aqui expressas. As falas em primeira pessoa são reconstruções baseadas em entrevistas públicas, livros publicados e reportagens, não transcrições literais. Cenas narrativas que contextualizam essas falas são reconstruções editoriais, não relatos factuais. Este livro NÃO garante precisão absoluta. Embora todos os dados determinísticos (datas, valores, IPOs, número de clientes) tenham sido verificados em pelo menos duas fontes independentes, modelos de IA podem gerar informações imprecisas ou desatualizadas. Citações atribuídas aos protagonistas foram extraídas de fontes públicas, mas a contextualização narrativa ao redor delas é obra de inteligência artificial. Dados financeiros e operacionais citados neste livro refletem informações públicas disponíveis até março de 2026. Números posteriores a essa data podem diferir significativamente. Este livro é um experimento. Ele demonstra que a orquestração de múltiplos agentes de IA, cada um com especialidade e persona distintas, pode produzir uma obra editorial coesa, com vozes diferenciadas e rigor factual — abrindo um caminho novo para a produção de conhecimento na era da inteligência artificial.Nota sobre nomes e trajetórias
O uso de nomes e trajetórias nesta obra é amparado pelo direito de informação e crítica, com base exclusiva em fontes públicas. Este livro apresenta quatro fundadores narrados em primeira pessoa e um quinto nome — Ram Charan — como narrador e analista. O título "5 Fundadores" refere-se a esses cinco autores.
Créditos técnicos
- Concepção e direção editorial: Alexandre Caramaschi — CEO da Brasil GEO, ex-CMO da Semantix (Nasdaq), cofundador da AI Brasil
- Orquestração: geo-orchestrator (Brasil GEO) — sistema multi-modelo com 5 APIs de IA
- Modelos utilizados: Claude Opus (Anthropic), GPT-4o (OpenAI), Gemini 2.5 Pro (Google), Sonar Pro (Perplexity), Llama 3.3 70B (Groq)
- Data de produção: Março–Abril de 2026
- Idioma: Português do Brasil
Se você é um dos protagonistas citados nesta obra e deseja fazer correções, complementos ou ressalvas, entre em contato: caramaschiai@caramaschiai.io
Sumário
Nota do Editor — Sobre Este Livro Prefácio — "Por Que Estes Quatro" (Ram Charan) Prólogo Coral — "Quatro Manhãs Que Mudaram o Brasil" Capítulo 1 — "A Faísca" — O momento da decisão irreversível- Nota de Charan #1: "O Ponto de Não-Retorno"
Capítulo 2 — "Dia Zero" — Do nada ao primeiro cliente- Nota de Charan #2: "A Ciência do Primeiro Sim"
Capítulo 3 — "Cultura é o Que Acontece Quando Ninguém Está Olhando" — Como cada um construiu organizações que funcionam mesmo sem o fundador na sala- Nota de Charan #3: "Cultura Como Sistema Operacional"
Capítulo 4 — "De 10 para 10.000" — Escalar sem perder a alma- Nota de Charan #4: "O Paradoxo da Escala"
Capítulo 5 — "O Cliente Não É Rei — É Razão de Existir" — Obsessão pelo cliente como vantagem competitiva- Nota de Charan #5: "Customer Obsession Dissecada"
Capítulo 6 — "Crises Que Forjaram" — Os momentos em que quase acabou- Nota de Charan #6: "Liderança sob Fogo"
Capítulo 7 — "A Segunda Revolução" — IA e o novo jogo- Nota de Charan #7: "The Attacker's Advantage"
Capítulo 8 — "Carta ao Founder de 2026" — O que diriam a quem está começando agora Epílogo — "Os 7 Princípios que os 4 Não Sabiam que Compartilhavam" (Ram Charan) Sobre os AutoresPrefacio — "Por Que Estes Quatro"
Passei mais de quatro décadas sentado à mesa com CEOs de empresas que movem o mundo. Vi de perto como Jack Welch redesenhou a GE, como a Toyota transformou eficiência em filosofia e como o Bank of America navegou crises que pareciam terminais. Em cada uma dessas experiências, aprendi algo que nenhum livro de estratégia ensina com clareza suficiente: a distância entre uma empresa mediana e uma empresa extraordinária não é talento, não é capital, não é sorte. É a qualidade das decisões tomadas nos momentos em que ninguém está preparado para decidir.
Cresci atrás do balcão de uma sapataria em Uttar Pradesh, na Índia. Meu pai consertava sapatos. Meus irmãos consertavam sapatos. O futuro previsível era consertar sapatos. Não digo isso por modéstia — digo porque a distância entre aquela loja e as salas de reunião onde passei minha vida adulta me ensinou que origens não determinam destinos. Decisões, sim.
Este livro não é sobre mim. É sobre quatro homens que tomaram decisões assim — decisões que, no instante em que foram tomadas, não pareciam históricas. Pareciam, no máximo, inevitáveis. Ou insensatas. Ou ambas.
Quando aceitei a tarefa de narrar estas quatro histórias, a primeira pergunta que me fiz foi a mais óbvia: por que estes quatro? O Brasil tem milhares de empreendedores competentes. A América Latina produz fundadores brilhantes com frequência que o resto do mundo ainda subestima. Entre centenas de candidatos possíveis, por que Augusto Lins, André Street, David Vélez e Guilherme Benchimol merecem ser lidos juntos?
A resposta não está no dinheiro. Se o critério fosse patrimônio, haveria outros nomes. Se fosse tamanho de empresa, haveria alternativas. Se fosse fama, a lista seria diferente.
O critério é outro: padrão.
Estes quatro compartilham um padrão que, ao longo de décadas estudando liderança, vi se repetir em menos de um punhado de líderes por geração. O padrão tem três componentes.
Primeiro: todos redefiniram categorias inteiras. A Stone não entrou no mercado de pagamentos para competir com Cielo e Rede — entrou para tornar a competição irrelevante, mudando o eixo do jogo de preço para atendimento. O Nubank não quis ser mais um banco — quis tornar desnecessário ir a um banco. A XP não ofereceu mais uma opção de investimento — desafiou a premissa de que o brasileiro precisava de um banco para investir. E André Street, antes mesmo da Stone, já havia redesenhado a infraestrutura de pagamentos digitais no Brasil com a Braspag. A empresa processava oitenta por cento das transações online do país antes que a maioria dos brasileiros soubesse o que era e-commerce.Nenhum deles jogou o jogo que existia. Todos criaram jogos novos.
Segundo: todos abriram capital em bolsas americanas. Stone na Nasdaq em outubro de 2018. XP na Nasdaq em dezembro de 2019. Nubank na NYSE em dezembro de 2021. Abrir capital nos Estados Unidos não é apenas uma operação financeira — é uma declaração. É dizer ao mercado mais exigente do planeta: examinem-nos. Submetam-nos às regras mais rigorosas. Estamos prontos. Para empresas nascidas num país onde o sistema financeiro era controlado por meia dúzia de incumbentes, essa declaração carrega um peso que só quem enfrentou o sistema entende. Terceiro: todos enfrentaram incumbentes que pareciam invencíveis. O duopólio Cielo-Rede no mercado de pagamentos. Os cinco maiores bancos controlando mais de oitenta por cento dos ativos. O modelo de assessoria financeira fechado e verticalizado. Cada um desses founders olhou para uma estrutura que o mercado considerava permanente e decidiu que não era.Em The Attacker's Advantage, argumentei que a vantagem do atacante reside na capacidade de ver além da curva antes que o incumbente perceba que a curva existe. Estes quatro viram. E agiram antes que o sistema pudesse reagir.
Mas este livro não é sobre IPOs, nem sobre valuations, nem sobre listas de bilionários. Se fosse, seria obsoleto antes de chegar às livrarias — os números mudam a cada trimestre.
Este livro é sobre decisões. Decisões específicas, tomadas em momentos específicos, por pessoas que não tinham garantia alguma de que estavam certas.
A tese é simples: as decisões que definem uma vida — e, por extensão, uma empresa, uma indústria, um país — raramente se parecem com decisões. Parecem impulsos. Parecem cafés frios numa manhã de segunda-feira. Parecem telefonemas feitos sem pensar. Parecem cinco segundos de silêncio antes de dizer "sim" ou "não" a algo que mudará tudo.
Augusto deixou uma carreira de mais de vinte anos no mundo corporativo — Rothschild, Unibanco, Itaú, Redecard — para cofundar uma startup quando a maioria dos seus pares pensava em aposentadoria. André embarcou o primeiro contêiner de exportação antes de poder dirigir. David deixou a Sequoia Capital, uma das firmas de venture capital mais cobiçadas do mundo, porque concluiu que a maior oportunidade da América Latina não era investir em empresas — era criar uma. Guilherme, demitido aos vinte e quatro anos, dirigiu quase vinte horas até Porto Alegre com pouco mais que um punhado de dinheiro e uma convicção que ninguém ao redor compartilhava.
Nenhuma dessas decisões fazia sentido completo no momento em que foi tomada. Todas fazem sentido perfeito em retrospecto. É essa assimetria — a irracionalidade aparente no instante, a lógica cristalina décadas depois — que torna estas histórias dignas de serem contadas.
Há uma dimensão adicional que torna este livro urgente em 2026: o Brasil como laboratório de inovação financeira é um dos segredos mais mal guardados do mundo — e, paradoxalmente, um dos mais subestimados.
Considere os números. O Brasil concentra quase sessenta por cento de todas as fintechs da América Latina. O Pix, sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central, alcançou mais de cento e sessenta milhões de usuários e processa quase quatro bilhões de transações por mês — uma escala que faz o Venmo parecer um experimento local. As cinco maiores fintechs brasileiras com listagem nos Estados Unidos lucraram, juntas, mais de vinte e sete bilhões de reais em 2025. O Nubank, sozinho, atende cento e trinta e um milhões de clientes — mais do que a população inteira de qualquer país europeu, exceto a Rússia.
Esses não são números de um mercado emergente tateando no escuro. São números de um ecossistema maduro que produz empresas globais. E os quatro fundadores deste livro estão no centro dessa transformação.
Mais revelador ainda: três dos quatro — Street, Vélez e Benchimol — uniram-se para criar o Instituto B55, anunciado em fevereiro de 2026 e com o primeiro programa lançado em março de 2026, com a missão de apoiar a próxima geração de empreendedores brasileiros a escalar. Quando os atacantes que venceram decidem construir a infraestrutura para que outros ataquem, algo estrutural está mudando. Não é filantropia — é visão de sistema.
Uma última palavra antes de entregarmos a narrativa aos protagonistas.
Este livro é uma conversa, não um manual. Não há dez passos para o sucesso, nem fórmulas replicáveis, nem promessas de que seguir estas histórias levará ao mesmo resultado. A vida real, como Guilherme Benchimol gosta de lembrar, é muito diferente daquela que a gente coloca no Excel.
O que há é honestidade. Quatro pessoas que construíram coisas extraordinárias e estão dispostas a contar como realmente foi — incluindo os erros, as crises, os momentos em que quase desistiram e as decisões que, vistas de dentro, pareciam tudo menos heroicas.
Meu papel aqui é o de tradutor. Traduzo a experiência deles em princípios que possam ser úteis a quem está começando — ou a quem, como Augusto, decide recomeçar quando o mundo diz que é tarde demais. Traduzo padrões que conectam histórias que, na superfície, parecem diferentes. E, sobretudo, faço as perguntas que eles talvez não façam a si mesmos — porque estão ocupados demais construindo.
Comecemos.
Prologo Coral — "Quatro Manhãs Que Mudaram o Brasil"
I.
Nova York, outubro de 2018. O ar tem aquele frio seco de outono que entra pela fresta da janela do hotel como um aviso. O sol ainda não nasceu. O quarto está escuro, mas Augusto Lins já está acordado — se é que dormiu.
O terno está pendurado na porta do banheiro. Cinza-escuro, sóbrio, o tipo de terno que um homem usa quando precisa projetar solidez sem precisar dizer nada. Ao lado, na mesa de cabeceira, o celular mostra 5h47. Em poucas horas, quase duzentas pessoas estarão reunidas na Nasdaq para assistir à Stone abrir capital. A faixa de preço foi definida entre vinte e um e vinte e três dólares. Ontem à noite, veio a notícia: a precificação saiu a vinte e quatro. Acima do teto. A demanda superou todas as projeções.
Augusto levanta e vai até o espelho do banheiro. A luz fluorescente não perdoa. Ele olha para o próprio rosto — as linhas que vinte anos de mundo corporativo imprimiram, as olheiras que a maratona do roadshow aprofundou. Há algo naquele reflexo que o faz parar.
Vinte e poucos anos antes, estava na Redecard. Antes disso, no Itaú. Antes disso, na Rothschild, no ING, no Unibanco. Uma carreira que qualquer profissional do mercado financeiro invejaria. E então, num momento que a maioria dos colegas considerou insensato, largou tudo para cofundar uma empresa que vendia maquininhas de cartão — num país onde duas empresas controlavam o mercado inteiro.
A água fria na cara. O barulho do ar-condicionado. O silêncio do quarto. Naquele hotel em Nova York, na manhã antes do IPO, Augusto não pensa nos bilhões de dólares que o mercado está prestes a atribuir à Stone. Pensa em Mineiro — Geraldo Mazela Rodrigues, o vendedor de queijos que fez a primeira transação na maquininha verde, digitando setenta e oito reais em abril de 2014. Mineiro estará lá hoje. E será ele, não Augusto, não André Street, não Eduardo Pontes, quem tocará o sino na Nasdaq.
Augusto ajusta a gravata no espelho. Respira. Há um peso naquela manhã que não é ansiedade — é a consciência silenciosa de que tudo o que construiu nos últimos anos está prestes a ser julgado pelo mercado mais impiedoso do planeta. E uma certeza estranha, quase serena: se a Stone existe, é porque milhares de pequenos empreendedores brasileiros precisavam que alguém os enxergasse. Mineiro tocando o sino é a prova.
O elevador desce. O lobby do hotel começa a encher de ternos. A manhã avança.
II.
Rio de Janeiro, meados dos anos 1990. O sol ainda não secou o asfalto, mas o cheiro já está no ar — aquele misto de diesel, sal e fruta madura que impregna a zona portuária. André Street tem catorze anos. Está de bermuda e camiseta, os tênis ainda novos demais para quem deveria parecer confiável num porto.
O contêiner está ali. Grande. Silencioso. Impassível. Dentro dele, caixas de produtos brasileiros — cachaça entre eles — embaladas segundo especificações que André aprendeu num curso de exportação do Sebrae. Um curso que frequentou porque nenhuma escola conseguia prender sua atenção, mas o Sebrae, sim. Os professores ensinavam coisas reais: como embalar, como documentar, como precificar para o mercado internacional. Coisas que serviam na segunda-feira de manhã.
O operador do porto olha para o garoto com uma mistura de curiosidade e ceticismo. Meninos de catorze anos não embarcam contêineres. Mas este tem papelada. Tem número de lote. Tem destino.
O guindaste ergue a caixa metálica com uma lentidão que parece proposital, como se o universo quisesse dar a André tempo suficiente para desistir. Ele não desiste. Fica parado, as mãos nos bolsos da bermuda, os olhos seguindo o contêiner até que ele desapareça na pilha de outros contêineres idênticos. Naquele instante, algo se solidifica. Não é uma ideia — é uma sensação. A sensação de que é possível fazer coisas que ninguém espera que você faça, simplesmente porque ninguém avisou que era impossível.
André não sabe, naquela manhã no porto, que em menos de uma década fundará o Paga Fácil. Não sabe que a Braspag processará oitenta por cento das transações online do Brasil. Não sabe que conhecerá Eduardo Pontes, seu "sócio siamês", e que juntos fundarão a Stone. Não sabe que, numa manhã de outubro de 2018, quase duzentas pessoas se reunirão numa bolsa de valores em Nova York para celebrar o que começou aqui — neste porto, nesta manhã, com este contêiner.
O vento muda. Traz o cheiro de sal mais forte. André vira as costas e caminha de volta para a rua. Não há celebração. Não há fotografia. Há um garoto de catorze anos voltando para casa com a euforia silenciosa de quem acabou de provar a si mesmo que a vida pode ser maior do que a escola lhe disse.
O contêiner já está no navio. O navio já se move. E André Street, sem saber, também.
III.
Medellín, Colômbia, início dos anos 1990. A luz da manhã entra pela janela do quarto de David Vélez com aquela qualidade específica dos trópicos andinos — clara, afiada, sem piedade. Ele tem nove anos.
O carro está estacionado na frente da casa. Não é um carro de passeio — é um carro carregado. Malas no porta-malas. Caixas no banco traseiro. Espaço calculado com a precisão de quem sabe que não voltará para buscar o que ficou.
A mãe está em silêncio. Não é o silêncio de quem não tem nada a dizer — é o silêncio de quem tem demais e decidiu que nenhuma palavra é suficiente. O pai checa o retrovisor uma vez, duas vezes, três vezes. Um hábito que, em Medellín nos anos noventa, não é paranoia. É sobrevivência.
Dias antes, um tio foi sequestrado. O sequestro não foi notícia — em Medellín, sequestros não eram notícia. Eram rotina. Antes disso, David e a família haviam saído de um shopping center minutos antes de uma bomba explodir no local. Também não foi notícia, não da forma que seria em qualquer outro lugar do mundo. Era Medellín. Era a era dos cartéis. A violência não era exceção — era o clima.
Mas o sequestro do tio foi o ponto de não-retorno. A família decidiu: Costa Rica.
David olha pela janela do carro. A rua que conheceu a vida inteira — os vizinhos, as árvores, a fábrica de botões de jeans do pai onde, aos três anos, organizava botões por cor e tamanho como se fosse o trabalho mais importante do mundo. Tudo aquilo ficaria para trás. Não temporariamente. Definitivamente.
O motor liga. O carro se move. A mãe continua em silêncio. David não chora — ou, se chora, não é isso que a memória guarda. O que a memória guarda é o branco. O futuro em branco. Nenhum plano, nenhuma certeza, nenhuma rede de segurança. Apenas uma família num carro carregado, deixando para trás tudo o que conhece, indo para um país onde não conhece ninguém, porque ficar se tornou mais perigoso do que partir.
Décadas depois, quando David Vélez fundar o Nubank e um entrevistador lhe perguntar por que deixou a Sequoia Capital — um dos endereços mais prestigiosos do venture capital global — para criar um banco numa casa alugada em São Paulo, a resposta será curta: "Não pensei duas vezes. Foi libertador."
Libertador. A mesma palavra que talvez descrevesse aquela manhã em Medellín, se um garoto de nove anos tivesse vocabulário para nomeá-la. A liberdade de quem perde tudo e descobre que, quando não há nada a perder, a coragem não é virtude — é consequência.
O carro atravessa a cidade. Medellín fica para trás. O futuro continua em branco. E naquele branco — naquele espaço imenso onde nada está escrito — já mora a semente de tudo o que virá.
IV.
Rio de Janeiro, março de 2001. O apartamento está mais vazio do que deveria. Não por falta de móveis — por falta de propósito. Guilherme Benchimol tem vinte e quatro anos e foi demitido.
A palavra — demitido — ainda ecoa. Não como som, mas como peso. Algo entre humilhação e incredulidade. Na Investshop, dentro do grupo Bozano Simonsen, Guilherme havia encontrado a coisa que mais se aproximava de uma vocação: viajar o Brasil, atrair investidores, montar uma plataforma aberta de investimentos. Fazia bem. Gostava do que fazia. Acreditava que profissionais competentes não são demitidos.
E então a bolha das pontocom estourou. O Bozano foi vendido ao Santander. A Investshop ficou fora do acordo. Sem receita, sem perspectiva, sem Guilherme.
O café na mesa da cozinha está frio. Não porque Guilherme esqueceu — porque preparar café e não bebê-lo é o que acontece quando a mente está ocupada demais com o vazio que se abre à frente. Ele olha para a xícara. A superfície do café mostra seu reflexo distorcido. Formado em Economia pela UFRJ. Ex-Bozano. Ex-promessa do mercado financeiro carioca. E agora: desempregado.
A vergonha é física. Sente-a no estômago, nos ombros. É o tipo de vergonha que faz um homem de vinte e quatro anos evitar os amigos, evitar os colegas, evitar qualquer lugar onde alguém possa perguntar "e aí, como vai o trabalho?" — porque a resposta verdadeira é insuportável.
É nessa manhã — ou numa manhã muito parecida com essa, porque a memória comprime os dias difíceis em cenas únicas — que Guilherme pega o telefone. Disca o número de Marcelo Maisonnave, um amigo de Porto Alegre. A conversa é curta. Direta. O tipo de conversa que dois homens jovens têm quando um deles precisa de uma razão para sair da cama e o outro tem uma ideia que precisa de um sócio.
Marcelo fala de investimentos. De educação financeira. De um mercado brasileiro onde cento e tantos milhões de pessoas não fazem ideia de que podem investir fora do banco onde recebem o salário. Guilherme ouve. Não é um momento de iluminação — é um momento de direção. O vazio à frente, que minutos antes era paralisia, transforma-se em estrada. Uma estrada longa, indefinida, sem pavimentação. Mas uma estrada.
Nos dias seguintes, Guilherme pegará o carro e dirigirá quase vinte horas até Porto Alegre. Levará consigo algo em torno de quinze mil reais — dinheiro emprestado, economizado, raspado de onde foi possível. Em Porto Alegre, alugará uma sala de vinte e cinco metros quadrados. Comprará dez computadores usados de uma lan house. Contratará dois estagiários. E dará uma aula sobre investimentos para vinte amigos de Marcelo. No dia seguinte, dezoito dos vinte se tornarão clientes.
Mas tudo isso ainda não aconteceu. Por enquanto, há apenas o café frio, o apartamento vazio e um telefonema. Um telefonema que dura menos de dez minutos e muda duas vidas — e, por extensão, o mercado financeiro de um país inteiro.
Guilherme desliga o telefone. Olha para o café. Não bebe.
Levanta.
V.
Quatro manhãs. Quatro cidades. Quatro pessoas que, naquele instante, não sabiam que estavam começando algo que mudaria o Brasil.
Augusto, no hotel em Nova York, com o peso de décadas de carreira no reflexo do espelho. André, no porto do Rio, com um contêiner e a ousadia de quem não conhece os próprios limites. David, no carro em Medellín, com o futuro em branco e uma família em silêncio. Guilherme, no apartamento no Rio, com o café frio e a vergonha de quem foi descartado.
Nenhum deles teria descrito aquele momento como o início de algo grandioso. Augusto teria dito que estava nervoso. André teria dito que estava empolgado. David teria dito que estava assustado. Guilherme teria dito que estava perdido.
E é exatamente aí que reside a verdade que este livro pretende capturar: os momentos que mudam tudo não vêm acompanhados de trilha sonora. Não há letreiro luminoso anunciando "aqui começa sua história." Há apenas uma pessoa, uma manhã e uma decisão — ou, mais precisamente, a ausência de alternativa que força a decisão.
Estas quatro manhãs aconteceram em décadas diferentes, em contextos radicalmente distintos, com protagonistas que não se conheciam. Mas convergem num ponto que atravessa todas as diferenças: o instante em que o conforto do conhecido se tornou mais insuportável do que o medo do desconhecido.
É a partir desse instante que tudo começa. E é a partir desse instante que este livro avança.
Capitulo 1 — "A Faísca"
O momento da decisão irreversível
A faísca nunca se anuncia. Chega disfarçada de irritação, de insônia, de uma pergunta que não cala. Para Augusto Lins, veio mascarada de relatório de reclamações numa mesa da Redecard.
Augusto Lins
Existe um tipo de medo que só quem já construiu uma carreira inteira conhece. Não é o medo de quem não tem nada a perder. É o medo de quem tem tudo a perder. Eu tinha mais de vinte anos de mercado financeiro nas costas — Rothschild, ING, Barings, Unibanco, Itaú, Redecard. Tinha um salário que pagava as contas com folga, um título no cartão de visitas que abria portas e um futuro previsível. Era confortável. E era exatamente isso que me sufocava.
Preciso voltar um pouco para explicar de onde veio essa inquietação. Quando eu era menino, no Rio de Janeiro, aos sete anos eu já engraxava sapatos no banco onde meu pai trabalhava. Depois fui office-boy, entregando documentos pelas ruas da cidade. Não era por necessidade extrema — era porque meu pai acreditava que trabalho forma caráter. Eu cresci com as mãos ocupadas e com uma noção muito clara de que servir alguém não diminui ninguém. Essa lição ficou gravada em mim de um jeito que eu só fui entender plenamente décadas depois, quando a Stone já existia.
Me formei em Engenharia Eletrônica pela UFRJ. Fiz MBA na Boston University. Na metade dos anos oitenta, antes de tudo isso, eu e um grupo de amigos fundamos uma empresa de software. Ficamos nela por cinco anos. A experiência foi formadora, mas a verdade é que eu não estava pronto para empreender de verdade naquela época. Eu não tinha repertório suficiente. Faltava a cicatriz de ter visto por dentro como as grandes máquinas funcionam — e onde elas falham.
Fui buscar esse repertório no mercado financeiro. E encontrei. Nos bancos de investimento europeus aprendi rigor analítico. No Unibanco vi a escala de um banco de varejo e as disfunções que ela carrega. Na Hipercard entendi que um produto financeiro pode ter alma regional e lealdade emocional — aquele cartão era quase um membro da família nordestina. No Itaú vi a engrenagem do maior banco privado da América Latina funcionando com precisão e, ao mesmo tempo, com uma frieza no atendimento que me incomodava profundamente.
Mas foi na Redecard que a faísca acendeu. Eu era chefe de vendas. Via o mercado de adquirência por dentro, com todas as suas veias e artérias expostas. Cielo e Rede dividiam o bolo — algo como sessenta e quarenta por cento do mercado, respectivamente. E o pequeno comerciante? O dono da padaria, o dono da loja de bairro? Esse pagava caro, recebia um serviço medíocre e, quando tinha um problema, entrava numa fila de espera que parecia não ter fim. Ninguém ligava para ele. Ninguém atendia o telefone em cinco segundos. Ninguém ia até a porta dele.
Eu sabia que aquilo estava errado. Mas saber e agir são coisas separadas por um abismo. O abismo, no meu caso, se chamava segurança. Estabilidade. Status. Eu estava na casa dos cinquenta quando o André Street me apresentou a ideia que viria a ser a Stone. André tinha a visão e a energia de um vulcão em erupção permanente. Ele enxergava o mercado de pagamentos com olhos de insurgente. Eu enxergava com olhos de quem tinha sido parte da máquina. Essa complementaridade foi o que nos uniu.
Harvard acelerou tudo. O programa OPM — Owner/President Management — da Harvard Business School foi o catalisador que faltava. Não por causa do conteúdo das aulas, embora fosse excelente. Foi por causa da convivência com donos de empresas do mundo inteiro, pessoas que tinham dado o salto, que tinham jogado a carreira corporativa pela janela e construído algo com as próprias mãos. Olhei para aqueles homens e mulheres e pensei: eles não são mais inteligentes do que eu, não são mais corajosos, não têm um dom especial. Eles apenas decidiram. E essa decisão, uma vez tomada, reorganizou tudo ao redor.
Em Harvard eu comecei a formular algo que depois se tornaria o alicerce da Stone: a ideia de que servir bem não é uma tática — é uma estratégia. Eu observava as empresas dos meus colegas de turma e via um padrão: as que duravam não eram necessariamente as mais inovadoras. Eram as que tinham construído relações de confiança com seus clientes ao longo de décadas. Era um moat invisível, um fosso de lealdade que nenhum concorrente conseguia cruzar. E eu pensei: se isso funciona no mundo inteiro, por que não funciona no mercado de pagamentos brasileiro? A resposta era simples — porque ninguém tinha tentado.
O momento irreversível para mim não foi um evento dramático. Não houve uma reunião épica nem uma revelação mística. Foi algo muito mais silencioso. Eu estava na Redecard, olhando um relatório de reclamações de clientes, e percebi que eu não queria mais resolver aqueles problemas de dentro da máquina. Eu queria construir uma máquina nova. Uma que tratasse o comerciante como gente, não como número de cadastro.
Quando contei para as pessoas mais próximas que ia sair para cofundar uma fintech, a reação foi quase unânime: você está louco. Eu entendia o espanto. Do ponto de vista racional, era uma decisão difícil de justificar. Mas eu já tinha passado da fase da justificativa racional. Eu estava na fase da convicção. E convicção não se explica num spreadsheet.
O medo não sumiu. Ele ficou ali, constante, como um zumbido no ouvido. Mas aprendi uma coisa sobre medo naquele período: ele não é o oposto da coragem. Ele é o combustível dela. Toda vez que eu acordava às três da manhã com o coração acelerado pensando no que poderia dar errado, eu me lembrava dos comerciantes que eu tinha visitado na Redecard — gente trabalhadora, honesta, que merecia ser tratada com dignidade. Eles eram a razão.
Não posso falar da minha faísca sem falar do André Street. Nós somos diferentes em quase tudo. Ele é veloz, provocador, pensa em camadas simultâneas. Eu sou mais pausado, gosto de mastigar um problema antes de engolir. Onde ele é intuição, eu sou processo. Onde eu sou cautela, ele é audácia. Mas tínhamos uma convergência fundamental: acreditávamos que o pequeno empreendedor brasileiro merecia mais. Não um atendimento "razoável". O melhor atendimento que alguém poderia oferecer. Quando nos sentamos pela primeira vez para desenhar o que viria a ser a Stone, não começamos pela tecnologia. Não começamos pelas taxas. Começamos pelo cliente. Quem é ele? O que ele sente quando liga para a operadora e ninguém atende? O que acontece com o caixa dele quando a maquininha para de funcionar numa sexta-feira à noite? Começar pelo ser humano parece óbvio. Mas no mercado financeiro brasileiro da época, era quase revolucionário.
A Stone nasceu em 2012. Eu tinha mais de duas décadas de experiência corporativa, cabelos grisalhos e uma certeza que não cabia dentro de mim: a de que o diferencial nunca seria a máquina de cartão. Seria o ser humano do outro lado. Naquela altura, isso era apenas uma intuição. Os dados viriam depois. E quando vieram, confirmaram tudo.
Olhando para trás, percebo que a faísca não foi um instante. Foi um incêndio lento que começou naquele banco onde eu engraxava sapatos aos sete anos. Cresceu cada vez que vi um cliente sendo maltratado. Cada vez que vi um sistema ser desenhado sem pensar na pessoa que ia usá-lo. Cada vez que participei de uma reunião de diretoria onde "o cliente" era uma linha numa planilha. O momento em que decidi cofundar a Stone não foi uma ruptura — foi a conclusão de uma vida inteira de observação e de uma irritação que finalmente encontrou onde se transformar em ação.
Enquanto Augusto acumulava décadas de experiência corporativa antes de saltar, outro fundador fez o caminho inverso — saltou antes de ter idade para ser levado a sério.
André Street
Eu nunca fui um bom aluno. Preciso dizer isso logo, porque se eu começar de outro jeito, a história fica bonita demais. E bonita demais não é verdade.
Fui expulso de escola. Mais de uma. No Rio de Janeiro, nos anos noventa, quando um moleque era expulso de colégio particular, a família inteira sentia. Meu pai era médico ortopedista, minha mãe psicóloga. Gente que acreditava em educação formal. E eu ali, quebrando todas as expectativas. Não por rebeldia vazia — eu simplesmente não conseguia ficar sentado ouvindo coisas que me pareciam abstratas e enfadonhas. O mundo lá fora estava acontecendo, e a sala de aula parecia uma câmara de isolamento.
Mas eu não era burro. Era impaciente.
Existe uma diferença brutal entre um mau aluno e uma pessoa sem curiosidade. Eu tinha curiosidade de sobra. Só não tinha paciência para o formato. As aulas não me ensinavam a fazer nada. Eu queria fazer. Construir. Negociar. Resolver. E nenhuma prova de múltipla escolha me dava isso.
A virada aconteceu por causa de um padrasto. Não o meu — o do meu melhor amigo. Ele era empreendedor do ramo imobiliário. Um sujeito que falava sobre negócios com uma naturalidade que eu nunca tinha visto em casa. Não era palestra, não era teoria. Era a vida dele. Ele me deu livros. Me mostrou que existia um caminho que não passava necessariamente por diploma, por concurso, por carreira corporativa. Eu tinha doze anos.
Aos treze, eu já tinha decidido. Ia ser empresário. Não sabia de quê, não sabia como, mas a decisão estava tomada. Comecei a frequentar feiras de negócios e cursos do Sebrae. Imaginem a cena: um adolescente no meio de adultos engravatados, anotando tudo, perguntando tudo, sendo ignorado por metade da sala. Eu não me importava. Quem não conhece as impossibilidades acha que pode fazer tudo e vai em frente.
Aos catorze, montei minha primeira empresa. Exportação de produtos típicos brasileiros — incluindo cachaça. Um moleque de catorze anos exportando cachaça. Parece piada, mas era sério. Fiz um curso de exportação e importação no Sebrae, aprendi sobre documentação, logística, câmbio. Aprendi sobre risco antes de poder votar.
O primeiro contêiner foi uma aula que nenhuma faculdade substituiria. Não porque deu certo — mas porque me ensinou que negócio é isso: você coloca algo num navio, torce para que chegue do outro lado, e descobre se tem um negócio ou uma lição. Das duas formas, você aprendeu.
E aí veio a Paga Fácil. Eu tinha quinze anos, era 1999. A internet estava explodindo, os leilões online eram a novidade, e eu enxerguei uma coisa simples: as pessoas compravam e vendiam coisas na internet, mas não tinham como pagar com segurança. Criei um sistema para intermediar transferências entre compradores e vendedores. Levantei cento e vinte mil reais com cinco investidores. Um deles virou meu mentor e um dos meus melhores amigos.
Ao mesmo tempo, passei no vestibular para Direito na Cândido Mendes. Nunca terminei. Dividia o tempo entre a faculdade e o negócio, e o negócio sempre ganhava. Não por desprezo à educação — por urgência. O mundo não ia esperar eu me formar.
A Paga Fácil me ensinou uma coisa que carrego até hoje: mercado de pagamentos é guerra de trincheira, não de blitzkrieg. Você não entra e conquista. Você entra e sobrevive. Resiste. Insiste. E um dia, se tiver feito tudo certo e tiver um pouco de sorte, começa a avançar.
Em 2003, a Visanet bloqueou todos os nossos pagamentos por suspeita de fraude. Eu não tinha dinheiro para passagem aérea. Peguei um ônibus do Rio para São Paulo. Cheguei lá, encontrei o Antonio Castilho, um executivo que podia destravar a situação. Expliquei, argumentei, insisti. Ele resolveu o problema. Virou meu mentor. Outro mentor. Considero fundamental ter mentores. Ajuda a tomar decisões mais inteligentes, que é o que realmente importa.
A Paga Fácil foi vendida. Devolvi o dinheiro aos investidores. E segui em frente.
Mas tem uma coisa que eu ainda não disse e que importa mais do que qualquer empresa que já criei.
Eu sou bisneto de Jorge Street. O nome talvez não diga nada para quem não conhece a história industrial de São Paulo. Jorge Street fundou a Vila Operária Maria Zélia no começo do século vinte — quase duzentas casas para operários, com escola, hospital, creche, farmácia, teatro, campo de futebol. Tudo isso numa época em que patrão era patrão e operário era operário, e ninguém misturava as coisas. Jorge Street misturou. Chamavam ele de "industrial socialista". Ele dialogava com sindicatos quando isso era impensável. Foi membro fundador do CIESP.
Essa herança não é enfeite. Não é sobrenome bonito para colocar em cartão de visita. É um lembrete. Todo dia. De que empreender não é só sobre ganhar dinheiro. É sobre transformar a realidade de quem está ao redor. Se for pelo objetivo financeiro, a coisa esmorece. Tem que ter impacto social.
Eu não romantizo meu começo. Os catorze anos não foram bonitos — foram difíceis. A expulsão de escolas não foi engraçada — foi humilhante. A viagem de ônibus para São Paulo não foi aventura — foi desespero. Mas cada uma dessas coisas me ensinou algo que nenhum MBA ensinaria.
A faísca não é um momento. É uma combustão lenta que começa com inquietude, ganha oxigênio com um mentor que acredita em você, e pega fogo quando você percebe que não existe outro caminho. Eu percebi isso aos doze. Confirmei aos catorze. E nunca mais parei.
A faísca de André pegou fogo num porto, aos catorze anos. A de David Vélez acendeu do outro lado do continente — não num ímpeto, mas numa planilha.
David Vélez
Na Sequoia Capital, meu trabalho era dizer não. Dizer não com elegância, com dados, com uma explicação que fizesse o fundador sair da sala achando que tinha aprendido algo. Eu analisava centenas de pitches por ano — startups de todos os tamanhos, de todos os setores, de todos os continentes. E o que a maioria não percebia é que o trabalho do venture capitalist não é encontrar boas empresas. É encontrar mercados onde boas empresas ainda não existem.
Doug Leone, que liderava a Sequoia, tinha uma frase que repetia em quase todas as reuniões de parceiros: "Posicione-se na escassez, não na oferta excessiva." Eu ouvia isso toda segunda-feira. E toda segunda-feira eu olhava para o mapa da América Latina e via a mesma coisa: um continente inteiro onde a escassez era gritante.
Deixem-me ser preciso. Quando cheguei à Sequoia, no início de 2011, o Brasil tinha cinco bancos controlando aproximadamente 80% de todo o mercado de crédito. Cinco. Em um país com mais de 200 milhões de habitantes. Os juros do cartão de crédito chegavam a 450% ao ano — os mais altos do planeta. As taxas bancárias eram absurdas. E a experiência do cliente era, para usar um termo técnico, desastrosa. Milhões de brasileiros passavam horas em filas para resolver problemas que um aplicativo poderia solucionar em trinta segundos.
Na Sequoia, eu tinha acesso aos melhores dados do mundo. Podia comparar a concentração bancária do Brasil com a dos Estados Unidos, da Europa, da Índia. E o que os números mostravam era inequívoco: o Brasil era um dos mercados financeiros mais concentrados e mais lucrativos do planeta — e, ao mesmo tempo, um dos que pior atendiam seus clientes. Quando um mercado combina lucros altíssimos com satisfação baixíssima, há uma palavra para isso em venture capital: oportunidade.
Mas havia algo que os dados não capturavam e que eu só conseguia ver porque era de fora. Os brasileiros tinham naturalizado a situação. "Banco é assim mesmo" era uma frase que eu ouvia com frequência alarmante. Quando você cresce dentro de um sistema quebrado, deixa de perceber que ele está quebrado. Essa é a vantagem do outsider — você vê o que quem está dentro não vê, justamente porque nunca se acostumou.
Eu cresci na Colômbia, num país onde aprendi cedo que sistemas podem ser desafiados. Minha família inteira era de empreendedores — meu pai tinha uma fábrica de botões de jeans, e todos os onze irmãos dele tinham construído negócios próprios. Empreender não era uma escolha na minha família; era quase um traço genético. Mas a Colômbia também me ensinou algo mais duro: que risco tem muitas faces, e a maioria delas não aparece em planilhas. Quando você cresce num lugar onde um tio é sequestrado, onde sua família precisa abandonar tudo e emigrar para a Costa Rica porque a violência se tornou insuportável, a ideia de "risco de mercado" ganha uma perspectiva diferente. Investidores no Vale do Silício falavam de risco como se fosse um conceito abstrato. Para mim, risco era concreto.
Essa calibração de risco se tornou, sem que eu soubesse na época, uma vantagem competitiva. Porque quando comecei a considerar seriamente a ideia de deixar a Sequoia para fundar uma empresa no Brasil, o que as pessoas ao meu redor viam como loucura, eu via como cálculo. O risco de fracassar numa startup de serviços financeiros no Brasil era real. Mas comparado com o quê?
A decisão amadureceu ao longo de 2012. Eu estava no MBA em Stanford, dividindo o tempo entre as aulas e o trabalho na Sequoia. E quanto mais eu analisava o mercado latino-americano, mais ficava claro que a maior oportunidade não estava em investir em startups existentes — estava em criar uma do zero. No setor financeiro. No Brasil.
Lembro com clareza do momento em que decidi. Não foi uma epifania dramática. Foi uma conclusão analítica que, em algum ponto, deixou de ser análise e virou convicção. Eu sabia que a Sequoia me daria uma carreira extraordinária. Sabia que o Vale do Silício era o centro do mundo em tecnologia. Mas também sabia que centenas de pessoas podiam fazer o meu trabalho na Sequoia. E que muito poucas estavam dispostas a ir para São Paulo construir o que eu queria construir.
Posicione-se na escassez.
Quando comuniquei minha decisão, as reações foram divididas. Na Sequoia, houve respeito. Doug Leone entendeu — ele mesmo tinha feito apostas contraintuitivas na carreira. Mas entre investidores brasileiros, a recepção foi diferente. O primeiro "não" veio rápido. E o segundo. E o terceiro. O argumento era sempre uma variação do mesmo tema: "Você é colombiano, não conhece o mercado brasileiro, os bancos aqui são poderosos demais, o regulador não vai permitir, isso não funciona no Brasil."
Cada "não" confirmava minha tese. Se os investidores locais achavam impossível desafiar os incumbentes, significava que ninguém estava tentando. E se ninguém estava tentando, significava que o mercado estava livre. A resistência dos investidores não era um obstáculo — era evidência de que a oportunidade existia.
Não pensei duas vezes. Foi libertador.
Cheguei a São Paulo em 2013 com uma tese, um plano e a convicção de que 200 milhões de brasileiros estavam esperando por algo que ainda não existia. Eu não sabia se seria eu a construir. Mas sabia que alguém precisava. E que esse alguém precisava ser alguém de fora o suficiente para ver o problema, mas comprometido o suficiente para ficar e resolvê-lo.
Três faíscas, três calibrações diferentes de risco. A quarta foi acesa não por visão, nem por impulso, nem por cálculo — mas por uma demissão que arrancou o chão.
Guilherme Benchimol
Existe um tipo de silêncio que só acontece quando você perde tudo de uma vez. Não é o silêncio tranquilo de quem medita. É o silêncio barulhento de quem acabou de levar um soco no estômago e ainda não recuperou o ar. Foi esse silêncio que me acompanhou na manhã seguinte à demissão do Bozano Simonsen.
Eu tinha vinte e poucos anos. Formado em Economia pela UFRJ. Estava trabalhando na Investshop, uma operação dentro do grupo Bozano que era, para mim, o futuro do mercado financeiro brasileiro — uma plataforma aberta de investimentos, num país de prateleiras fechadas. Eu viajava o Brasil inteiro atraindo investidores, convencendo corretoras a se conectarem ao nosso sistema. Estava convicto de que aquele era o meu lugar no mundo. Até que o Bozano foi vendido ao Santander, a bolha das pontocom estourou, a Investshop ficou sem resultado, e eu fui dispensado.
Na hora, a palavra que veio foi "fracasso". Profissionais bons não são demitidos — era isso que eu acreditava. Se fui demitido, era porque não era bom o suficiente. Simples assim. Essa equação estava errada, mas eu levaria meses para entender por quê.
Na manhã seguinte, acordei no meu apartamento no Rio e fui fazer café. A água ferveu e eu esqueci. Fiquei parado na cozinha, olhando para a parede, pensando no que fazer com o resto da vida. O café ficou frio. Eu nem percebi. Minha cabeça estava em outro lugar — tentando encontrar um ângulo que transformasse aquela derrota em alguma coisa que prestasse. Não era otimismo. Era desespero produtivo. A mesma coisa que me levou, aos dez anos, a pedir dinheiro para a avó quando meu pai se recusou a pagar a inscrição num campeonato de tênis. Eu não aceitava o "não" como resposta final. Nunca aceitei.
Liguei para o Marcelo Maisonnave. Ele atendeu no segundo toque. Marcelo era meu amigo, morava em Porto Alegre, e tinha uma cabeça que funcionava de forma complementar à minha. Onde eu era intensidade, ele era análise. Onde eu via oportunidade, ele via risco — e isso era bom, porque me obrigava a defender minhas ideias com mais rigor.
Eu disse algo como: "E se a gente ensinasse o brasileiro a investir? Não vender nada — ensinar. E depois, quando ele soubesse o que está fazendo, oferecer o melhor produto do mercado, não o nosso produto." Silêncio do outro lado. Cinco segundos. Depois: "Você tem dinheiro para isso?" Eu respondi: "Tenho quinze mil reais." Outro silêncio. "Vamos."
Não houve plano de negócios. Não houve pitch deck. Não houve rodada seed. Houve um café frio, uma ligação e dois sujeitos que não sabiam que estavam começando algo que mudaria a forma como milhões de brasileiros lidam com dinheiro.
Mas antes de Porto Alegre, preciso falar sobre o que vi no Bozano — porque foi lá que a faísca acendeu, mesmo que eu não tenha percebido na hora. Na Investshop, eu tinha uma visão privilegiada do mercado financeiro brasileiro. Viajava o país, conversava com investidores de todos os portes, visitava corretoras regionais. E o que eu via, em todos os lugares, era a mesma coisa: o brasileiro era brutalmente mal atendido quando se tratava de investimentos.
Os grandes bancos vendiam o que queriam, não o que o cliente precisava. O gerente empurrava o fundo da casa, o CDB com taxa ridícula, a previdência com taxa de administração criminosa. O cliente não sabia que existiam opções melhores porque ninguém nunca explicou. O sistema era construído para manter a ignorância financeira do brasileiro, porque a ignorância era lucrativa.
Isso me revoltava. Não de uma forma abstrata, filosófica. Era uma revolta visceral, do tipo que te faz perder o sono. Eu olhava para aquele cenário e pensava: alguém precisa mudar isso. E quando fui demitido, a pergunta virou outra: por que não eu?
A ida para Porto Alegre foi, em certa medida, uma fuga. Eu sentia vergonha da demissão. No mercado financeiro carioca, todo mundo se conhece. Eu não queria cruzar com ex-colegas, não queria responder perguntas, não queria ver a compaixão nos olhos dos outros. Peguei o carro e dirigi quase vinte horas até o sul. Vinte horas de estrada, sozinho, com a janela aberta e a cabeça fervendo. Cada quilômetro era uma tentativa de colocar distância entre quem eu era e quem eu tinha acabado de deixar de ser. Foi a melhor fuga da minha vida, porque me levou exatamente para onde eu precisava estar.
Existe uma coisa que acontece quando você está na estrada por muitas horas seguidas. A mente desacelera depois de um tempo. O barulho interno diminui. E foi ali, em algum ponto entre São Paulo e Curitiba, que comecei a montar as peças. Tudo o que eu tinha aprendido na Investshop — a plataforma aberta, a atração de investidores, a integração de corretoras — não era conhecimento perdido. Era o projeto da empresa que eu ainda não sabia que ia criar. A Investshop morreu, mas a ideia que a sustentava estava viva. E estava comigo.
Porto Alegre era menor, mais acessível, mais barata. Eu poderia errar em escala menor. Poderia testar ideias sem o peso de estar no epicentro do mercado financeiro nacional. Lá, encontrei uma oportunidade na corretora Diferencial que me ajudou a dar os primeiros passos. E foi naquele ambiente, longe da pressão do Rio, que percebi algo que mudou tudo: a educação financeira não era apenas uma causa nobre — era um modelo de negócio devastadoramente eficiente.
Meu pai, que era cardiologista, sempre repetia que o melhor tratamento é a prevenção. O mesmo vale para finanças. O melhor investidor não é o que tem mais dinheiro — é o que tem mais informação. E o Brasil inteiro estava doente de desinformação financeira. Os sintomas eram claros: poupança como único destino, CDB do gerente como "investimento sofisticado", previdência com taxas abusivas que ninguém questionava porque ninguém sabia que podia questionar.
"Educar antes de vender" nasceu como intuição, não como estratégia. Eu genuinamente acreditava que, se você ensinasse uma pessoa a entender investimentos, ela tomaria decisões melhores. E se ela tomasse decisões melhores, naturalmente buscaria uma plataforma que oferecesse as melhores opções do mercado — não apenas os produtos de um banco. Se você ensinasse com qualidade, o cliente vinha até você. Não por propaganda. Por confiança.
Parece óbvio agora. Não era óbvio em 2001. Na época, nenhuma instituição financeira brasileira investia em educação do cliente. Pelo contrário — o modelo era manter o cliente no escuro e vender o que desse mais comissão. A ideia de que transparência poderia ser vantagem competitiva soava absurda.
Eu não sabia que estava criando a maior plataforma de investimentos do Brasil. Eu sabia que estava com raiva de um sistema que tratava o investidor como idiota, que tinha quinze mil reais no bolso e um sócio que acreditava na mesma coisa que eu. Em ultramaratona, a gente aprende que os primeiros quilômetros são os mais perigosos — não porque são os mais duros, mas porque você ainda não sabe o tamanho da dor que vem pela frente. Se soubesse, talvez não começasse. E talvez seja por isso que empreender funciona: porque, no momento da faísca, você é ignorante o suficiente para começar e teimoso o suficiente para não parar.
A demissão do Bozano Simonsen foi o maior presente que eu recebi na vida. Não porque foi agradável — não foi. Foi humilhante, dolorosa, solitária. Mas ela eliminou a possibilidade de uma carreira confortável. Ela me tirou o plano B. E quando você não tem plano B, o plano A ganha uma urgência que nada mais no mundo consegue produzir.
Nota de Charan #1 — "O Ponto de Não-Retorno"
Quatro pessoas. Quatro faíscas. Nenhum plano de contingência.
O que conecta Augusto saindo de um cargo sênior na Redecard para cofundar uma empresa de maquininhas, André embarcando um contêiner aos catorze anos, David analisando o Brasil desde a Sequoia Capital e decidindo que a oportunidade era grande demais para apenas investir, e Guilherme discando o número de Marcelo na manhã seguinte à demissão? Não é coragem. Coragem é o rótulo que se aplica depois, quando o resultado já é conhecido. No momento, nenhum dos quatro chamaria aquilo de coragem. Augusto chamaria de convicção. André chamaria de curiosidade. David chamaria de cálculo. Guilherme chamaria de desespero produtivo.
A convergência aqui não é biográfica — é estrutural. Os quatro encontraram a faísca não na inspiração, mas na frustração. Augusto frustrou-se ao ver, de dentro da Redecard, milhões de pequenos empreendedores tratados como cidadãos de segunda classe no sistema de pagamentos. André frustrou-se com um sistema educacional que não o preparava para nada que importasse. David frustrou-se com um sistema bancário brasileiro que levava cinco meses para abrir uma conta e cobrava juros de quatrocentos e cinquenta por cento ao ano. Guilherme frustrou-se com um mercado financeiro que vendia produtos em vez de educar clientes.
Em Execution, Larry Bossidy e eu argumentamos que a diferença entre estratégia e resultado é disciplina. Mas antes da disciplina, há algo mais primitivo: a recusa. A recusa de aceitar que as coisas são assim porque sempre foram assim. Cada um desses quatro, a seu modo, recusou. E ao recusar, criou para si a obrigação de construir algo diferente.
O princípio é este: a decisão irreversível raramente se parece com uma decisão irreversível no momento em que é tomada. Parece um café frio. Parece um contêiner no porto. Parece um carro carregado numa manhã em Medellín. Parece cinco segundos de silêncio antes de discar um número. E depois — só depois — não há volta.
A divergência é igualmente reveladora. Augusto precisou de vinte anos dentro da máquina para acumular a irritação necessária; André não precisou de dois. David chegou à decisão pela análise fria de dados; Guilherme chegou pelo golpe quente de uma demissão. E cada caminho carrega uma lição distinta sobre como a frustração se transforma em ação — por acúmulo lento ou por ruptura súbita, por cálculo ou por instinto.
A pergunta que fica — e que transcende estes quatro — é a mesma que qualquer fundador deveria se fazer toda manhã: em que momento da sua vida você recusou o suficiente para ser obrigado a construir?
Capitulo 2 — "Dia Zero"
Do nada ao primeiro cliente
Há um abismo entre decidir e começar. A faísca acende o fogo; o Dia Zero exige que o fundador alimente a chama com as mãos, sem luvas, sem manual. Guilherme Benchimol conhece esse abismo melhor do que a maioria — porque no seu caso, o abismo cheirava a plástico quente e computadores de lan house.
Guilherme Benchimol
Porto Alegre, maio de 2001. Uma sala comercial de vinte e cinco metros quadrados. Dez computadores comprados usados de uma lan house. Dois estagiários que ganhavam quase nada. Marcelo Maisonnave sentado na mesa ao lado. Quinze mil reais de capital — dinheiro que daria para manter a operação por três, talvez quatro meses. Depois disso, ou a coisa funcionava ou acabava.
Eu nunca tinha empreendido. Sabia fazer três coisas: estudar economia, conversar com investidores e não desistir. As duas primeiras eram habilidades. A terceira era defeito de personalidade que, por sorte, funciona bem nos negócios.
O escritório cheirava a plástico quente — os computadores da lan house esquentavam demais e não tinham ventilação adequada. A sala era tão pequena que, quando alguém levantava da cadeira, a pessoa de trás precisava se encolher para deixar passar. Não tinha copa, não tinha sala de reunião, não tinha recepção. Tinha uma porta, uma janela e uma vontade absurda de provar que aquela ideia funcionava.
Nos primeiros meses, eu e Marcelo fizemos tudo. Abríamos a corretora de manhã, atendíamos os clientes que apareciam — quando apareciam —, organizávamos a papelada, rodávamos as ordens no mercado, fechávamos à noite. Eu cuidava do comercial. Marcelo cuidava do operacional. Os estagiários faziam o que sobrasse. A divisão de tarefas era simples: quem estava livre fazia o que precisava ser feito.
A receita não vinha. No primeiro ano, a XP abria uma conta por mês. Uma conta. Eu olhava para o extrato bancário e via o dinheiro diminuir, semana após semana. Num certo ponto, vendi o carro para manter a empresa funcionando. Não é metáfora — vendi literalmente o carro. Não tinha outro recurso. Ou vendia o carro ou fechava a porta.
Foi nesse período que aconteceu algo que mudou a trajetória da XP para sempre. Amigos de faculdade do Marcelo pediram que a gente desse uma aula sobre como investir em ações. Nada formal — uma conversa numa sala emprestada, para vinte pessoas que queriam entender o mercado. Eu e Marcelo preparamos o material, ensaiamos uma apresentação simples e fomos.
Vinte pessoas apareceram. Eu falei sobre como funcionava a bolsa, o que era uma ação, por que a poupança era uma armadilha, quais eram as opções que os bancos escondiam dos clientes. Falei com a intensidade de quem acreditava profundamente naquilo — porque eu acreditava. Não era pitch de vendas. Era indignação transformada em aula.
No dia seguinte, dezoito das vinte pessoas voltaram. Não para outra aula. Para abrir conta na XP. Dezoito de vinte. A taxa de conversão era de noventa por cento, e a gente nem estava tentando vender.
Marcelo e eu nos olhamos e entendemos na hora: tínhamos tropeçado no modelo. A educação financeira era a máquina de aquisição de clientes mais poderosa que o mercado financeiro brasileiro já tinha visto. Não porque era sofisticada — era simples. Mas funcionava porque atacava o problema real: o brasileiro não investia mal por burrice, investia mal por falta de informação. Resolva a informação e o cliente vem.
Na semana seguinte, anunciamos um curso de fim de semana sobre investimentos na bolsa. Preço: trezentos reais. Fechamos trinta alunos em poucos dias. Trezentos reais vezes trinta alunos: nove mil reais. Mais do que a metade do nosso capital inicial. Num fim de semana.
A partir dali, os workshops viraram a espinha dorsal da XP. Eu ia pessoalmente a universidades gaúchas, centros comunitários, associações comerciais — qualquer lugar que tivesse dez ou mais pessoas dispostas a aprender sobre investimentos. Cada plateia era um campo de batalha. Eu subia no palco com a energia de quem disputa uma final. Não porque eu queria vender — queria convencer. Convencer aquelas pessoas de que existia um mundo além da poupança, além do CDB do gerente, além do que o banco de varejo queria que elas soubessem.
A plateia era quase sempre a mesma: gente de classe média, formada, trabalhadora, que guardava dinheiro na poupança porque ninguém nunca explicou que havia opções melhores. Gente que não era ignorante — era desinformada. E a diferença entre ignorância e desinformação é crucial, porque a desinformação tem cura.
A cada workshop, o padrão se repetia. Dez, quinze, vinte pessoas. No dia seguinte, a maioria abria conta na XP. Não por pressão comercial — por confiança. Elas confiavam porque a gente tinha ensinado sem pedir nada em troca. Tinha explicado o jogo antes de convidar para jogar.
Mas o verdadeiro teste veio quando o primeiro cliente confiou dinheiro de verdade. Não estou falando de abrir conta e deixar duzentos reais para ver o que acontecia. Estou falando de um sujeito que sacou as economias de anos do banco e transferiu para a XP. Para nós — dois caras numa sala de vinte e cinco metros quadrados, com computadores de lan house. Quando vi aquela transferência entrar, senti o peso do que estávamos fazendo. Aquele dinheiro representava anos de trabalho de alguém. A responsabilidade era real e imediata.
Foi nesse momento que entendi que a XP não era uma corretora. Era uma promessa. A promessa de que o dinheiro daquela pessoa seria tratado com mais respeito do que o banco tratava. Que teríamos para ela os melhores produtos do mercado, não os nossos produtos. Que a plataforma seria aberta — fundos de qualquer gestora, ações de qualquer empresa, opções que nenhum banco de varejo oferecia.
A decisão de ser plataforma aberta foi a mais importante da história da XP. Num mercado onde cada banco vendia exclusivamente seus próprios fundos, seus próprios CDBs, seus próprios produtos — a chamada prateleira fechada —, a gente abriu a porta e disse: o melhor produto é o melhor produto, não importa quem criou. Se o fundo da gestora concorrente é melhor que o nosso, a gente oferece o fundo da gestora concorrente.
Parece simples. Não era. Ninguém fazia isso porque o incentivo econômico era inverso: vender o produto da casa dá mais margem. Vender o produto de outro gestor é abrir mão de receita. Mas nós entendemos algo que os grandes bancos não entendiam — ou não queriam entender: no longo prazo, a confiança do cliente vale mais que a margem de um produto. Se o cliente confia que você sempre vai oferecer o melhor para ele, ele não vai embora. E se ele não vai embora, a receita vem — diferente, distribuída, sustentável.
O Dia Zero da XP não foi um dia. Foi um semestre inteiro de abrir uma conta por mês, vender o carro, dar aula para vinte pessoas e descobrir, por acidente, que a educação financeira era a chave. Empreender é zigue-zague, não linha reta. O plano original não sobreviveu ao primeiro mês. Mas a tese — o brasileiro é mal atendido em investimentos e nós vamos mudar isso — essa sobreviveu a tudo.
Às vezes, me perguntam como é o momento em que você sabe que a empresa vai dar certo. A verdade é que esse momento não existe. O que existe são sinais. O primeiro sinal foi a aula para vinte amigos que virou dezoito clientes. O segundo foi o sujeito que transferiu as economias da vida para uma sala de vinte e cinco metros quadrados. O terceiro foi o dia em que percebemos que não estávamos mais correndo para sobreviver — estávamos correndo para crescer. E em corrida de longa distância, existe uma diferença enorme entre correr para não morrer e correr para chegar primeiro.
Guilherme descobriu o modelo por acidente — uma aula que virou dezoito clientes. David Vélez, por sua vez, desenhou o primeiro sim com a precisão de quem aprendeu, na Sequoia, que escassez se transforma em demanda.
David Vélez
O primeiro escritório do Nubank foi uma casa que eu aluguei no Brooklin, em São Paulo. Não era um escritório no sentido convencional — era uma casa mesmo, com sala, cozinha e um espaço que transformamos em área de trabalho. Os bancos tradicionais brasileiros operavam em torres de vidro na Faria Lima, com andares inteiros de escritórios climatizados. Nós tínhamos uma casa no Brooklin e uma convicção.
Maio de 2013. Éramos três: eu, Cristina Junqueira e Edward Wible. A escolha dos cofundadores foi, possivelmente, a decisão mais importante que tomei na vida — e não estou exagerando. Na Sequoia, aprendi que a composição do time fundador determina quase tudo. Produto pode pivotar. Mercado pode mudar. Mas a dinâmica entre cofundadores é o alicerce sobre o qual tudo o mais é construído.
Cristina veio do Itaú, um dos cinco grandes bancos que dominavam o mercado. Ela conhecia o sistema financeiro brasileiro por dentro — suas regras, suas falhas, seus jogos de poder. Mais do que isso, Cristina tinha uma empatia rara com o cliente brasileiro. Ela entendia a raiva, a frustração, o sentimento de impotência que as pessoas sentiam diante dos bancos. Quando ela falava sobre o problema que queríamos resolver, não era com a distância de um analista — era com a indignação de alguém que também era cliente.
Edward trouxe a engenharia. Americano, formado em Princeton, com a disciplina técnica necessária para construir um produto que funcionasse desde o primeiro dia. Em serviços financeiros, a margem para erro técnico é zero. O dinheiro das pessoas está em jogo. Edward entendeu isso imediatamente.
Eu trouxe a visão estratégica e o acesso ao capital internacional. Meus anos na Sequoia me deram uma rede de investidores que confiavam no meu julgamento — e que estavam dispostos a apostar numa ideia antes de ela ter um produto. A Sequoia Capital e a Kaszek Ventures lideraram nosso investimento semente. Sem esse capital inicial, o Nubank não teria sobrevivido os primeiros seis meses.
O primeiro produto foi decidido com uma lógica simples. Precisávamos de algo que demonstrasse, de forma imediata e tangível, que serviços financeiros podiam ser diferentes. Um cartão de crédito sem anuidade, controlado inteiramente por aplicativo, era a resposta perfeita. Num mercado onde as anuidades eram uma das principais fontes de receita dos bancos — e uma das principais fontes de raiva dos clientes —, eliminar a anuidade era uma declaração de guerra.
O cartão roxo foi uma escolha deliberada. Num mercado dominado por cartões cinzas e prateados, o roxo era uma provocação visual. Queríamos ser, nas minhas próprias palavras, "o mais anti-banco possível". Algumas pessoas absolutamente odiaram. Outras absolutamente amaram. Mas ninguém ignorou. E quando ninguém ignora, você tem algo.
A primeira transação com um cartão Nubank aconteceu em 1 de abril de 2014. Não escolhemos a data — a ironia é que parecia mentira, e não era. Os primeiros 100 clientes foram selecionados com cuidado cirúrgico. Cada um recebeu um convite pessoal. Cada interação foi monitorada. Cada feedback foi tratado como ouro.
E então aconteceu algo que não planejamos, mas que mudou tudo: a fila de espera.
As pessoas que receberam o cartão começaram a falar. Em redes sociais, em conversas com amigos, em grupos de WhatsApp. O boca a boca foi tão intenso que, em poucas semanas, tínhamos uma lista de espera com centenas de milhares de pessoas pedindo um convite. Não gastamos um centavo em marketing. A fila de espera virou, por si só, um fenômeno viral. Ter um convite para o Nubank se tornou uma moeda social — as pessoas compartilhavam nas redes quando conseguiam, como se fosse uma conquista.
Eu vinha do venture capital, onde a métrica mais importante de um produto é o que chamamos de product-market fit — aquele momento em que o mercado puxa o produto com uma força que o fundador não consegue controlar. Vi esse fenômeno acontecer em empresas nas quais a Sequoia investiu. Mas nunca tinha sentido na própria pele. Quando a lista de espera ultrapassou um milhão de pessoas, eu soube. Não era mais uma hipótese. Não era mais uma tese de investimento. Era real.
Lembro de uma noite no escritório do Brooklin — que a essa altura já tinha sido expandido, porque a casa original não cabia mais o time. Cristina, Edward e eu estávamos olhando os números da fila de espera. A realidade era mais poderosa do que qualquer projeção que tínhamos feito. E naquele momento entendi que o Nubank não era sobre tecnologia, não era sobre fintech, não era sobre disrupção. Era sobre dignidade.
Os primeiros meses foram uma escola de humildade operacional. Cada detalhe importava. O tempo de resposta do aplicativo. A linguagem das notificações — sem juridiquês, sem letras miúdas, sem aquele tom condescendente que os bancos usavam. Cada frase que o cliente lia era pensada para ser clara, respeitosa e honesta. Se havia um problema, dizíamos que havia um problema. Se não sabíamos a resposta, dizíamos que não sabíamos.
Parece trivial. Não era. No setor bancário brasileiro, transparência era quase um ato revolucionário.
Os primeiros funcionários que contratamos — além dos três cofundadores — definiram o tom de tudo que veio depois. Na Sequoia, aprendi que a cultura de uma empresa é determinada nos primeiros seis meses pelos primeiros dez a quinze funcionários. Quando essas pessoas entram, trazem consigo valores, hábitos e expectativas que se cristalizam e se tornam o DNA da organização. Por isso, cada contratação inicial foi tratada como se fosse a mais importante da empresa — porque era.
O dia zero do Nubank não foi uma data no calendário. Foi um período. Um período em que três pessoas numa casa no Brooklin decidiram que 200 milhões de brasileiros mereciam algo melhor. E quando o primeiro milhão de pessoas concordou conosco sem que precisássemos convencê-las, soubemos que a faísca tinha virado fogo.
Se o Dia Zero de Vélez foi moldado pela disciplina do venture capital, o de André Street foi moldado por algo mais antigo — a obstinação de quem aprendeu a construir pontes antes de saber que precisaria atravessá-las.
André Street
A Braspag nasceu em 2004, e nasceu do jeito que tudo que presta nasce: de uma necessidade que ninguém estava resolvendo direito.
O e-commerce brasileiro estava crescendo, mas tinha um problema absurdo: não existia uma infraestrutura decente para processar pagamentos online. Os lojistas queriam vender, os consumidores queriam comprar, e no meio do caminho tinha um buraco. Eu olhei para aquele buraco e pensei: se eu construir a ponte, todo mundo vai precisar passar por ela.
Foi aí que conheci Eduardo Pontes. Ele era mais velho, tinha experiência em bancos estrangeiros, e tinha um pragmatismo descomunal. Eu sou rápido. Ele me obrigava a pensar duas vezes. Para cada decisão que eu queria tomar de impulso, o Eduardo exigia argumentação inteligente. Tenho o privilégio de dividir tudo o que faço até hoje. Mais de duas décadas de parceria, seis empresas juntos. Ele é meu sócio siamês.
A Braspag conectava meios de pagamento a lojistas de e-commerce. Parece simples quando você resume em uma frase. Na prática, era uma guerra técnica. Cada bandeira de cartão tinha seu protocolo. Cada banco tinha suas regras. Cada lojista tinha suas necessidades específicas. E nós, no meio de tudo isso, tentando fazer a coisa funcionar.
As madrugadas eram constantes. Não porque fôssemos desorganizados — porque o problema era grande e nós éramos pequenos. Cada integração nova era uma batalha. Cada vez que uma transação falhava, um lojista perdia uma venda. E um lojista perdendo venda era inaceitável. Era a vida dele que estávamos ali para facilitar.
A diferença entre ter uma ideia e ter um produto é abismal. Ideia é conversa. Produto é algo que alguém paga para usar. E entre a conversa e o pagamento existe um deserto de execução que a maioria das pessoas não atravessa. Não porque sejam incapazes — porque subestimam o tamanho do deserto.
Nos primeiros meses, erramos muito. Erramos na arquitetura técnica. Erramos na precificação. Erramos no atendimento. Mas — e isso é o que separa quem sobrevive de quem morre — corrigimos rápido. Velocidade de correção é mais importante que velocidade de lançamento. Você pode lançar devagar, desde que corrija na velocidade da luz.
Em 2009, a Braspag processava aproximadamente oitenta por cento de todas as transações online do Brasil. Oitenta por cento. Ajudamos empresas como Google, PayPal, Dell e Apple a processar pagamentos em reais para entrar no mercado brasileiro. Gigantes que precisavam de nós para operar aqui. Aquela ponte que eu imaginei em 2004 virou uma rodovia.
A Braspag foi especialmente marcante. Foi ali que aprendi o que viraria os seis pilares da cultura que carrego em tudo que faço: servir ao cliente em primeiro lugar, usar tecnologia para transformar, crescer gradualmente, desenvolver talentos, pensar diferente dos concorrentes, e ter propósito social. Não inventei esses pilares num workshop de planejamento estratégico. Eles nasceram da dor. Das madrugadas. Dos erros corrigidos às três da manhã.
Vendemos a Braspag em 2009 ao Grupo Silvio Santos por vinte e cinco milhões de reais. Depois ela foi revendida à Cielo. Mas o valor real da Braspag não está no cheque — está no que ela me ensinou.
E enquanto a Braspag crescia, eu fiz algo que muita gente achava loucura: comecei a construir em paralelo.
Antes mesmo da Braspag, em 2005, criei a Netcredit — uma empresa que financiava compras no varejo com análise de crédito inteiramente digital. Em 2005, quando a maioria dos bancos ainda dependia de papel e carimbos. Vendida em 2007 ao banco BGN, que depois foi comprado pelo Cetelem.
E teve a Sieve. Inteligência de preços para e-commerce. Enquanto todo mundo no mercado de pagamentos olhava só para a transação, eu estava olhando para o ecossistema inteiro ao redor do comerciante. Pagamento é uma camada. Precificação é outra. Segurança é outra. Logística é outra. Cada empresa que eu criava era uma camada nova.
A Sieve virou o Sieve Group — uma fusão de Site Blindado, Sieve, TrustSign, Admatic, Skyhub e InfoPrice. Vendido à B2W Digital em 2015 por aproximadamente cento e trinta milhões de reais.
As pessoas perguntam como eu conseguia tocar vários negócios ao mesmo tempo. A resposta é incômoda: eu não conseguia sozinho. É por isso que Eduardo Pontes é tão fundamental. É por isso que mentores são tão fundamentais. É por isso que a obsessão por contratar gente melhor do que eu é tão fundamental. Grandes mudanças se constroem em coletivo. Não existe um salvador da pátria.
Cada empresa era uma peça. Eu não sabia na época, mas estava montando um quebra-cabeça. A Paga Fácil me ensinou sobre pagamentos. A Braspag me ensinou sobre infraestrutura. A Netcredit me ensinou sobre crédito. A Sieve me ensinou sobre inteligência de dados. Quando olho para trás, parece planejado. Não era. Era obsessão por resolver problemas combinada com a incapacidade de ficar parado.
O Dia Zero de cada empresa foi diferente. Mas todos tinham uma coisa em comum: o momento em que o primeiro estranho confia em você. Na Braspag, foi o primeiro lojista que integrou nosso gateway. Na Sieve, foi o primeiro varejista que assinou o serviço de monitoramento de preços. Aquele momento em que alguém que não é seu amigo, não é seu parente, não te deve nenhum favor, olha para o que você construiu e decide pagar por aquilo. É o momento mais honesto do empreendedorismo. Não tem pitch deck que substitua. Não tem investidor que valide. É o mercado dizendo: sim, isso resolve meu problema.
E entre Harvard — onde fui o mais jovem a cursar o programa OPM entre 2007 e 2009 — e as empresas que montava em paralelo, aprendi uma última coisa que o Dia Zero ensina: comece antes de estar pronto. Se esperar o momento perfeito, o momento passou. O mundo gira em dois minutos.
André construiu pontes antes de precisar cruzá-las. Augusto, veterano de duas décadas em salas corporativas, precisou reaprender algo que nenhum MBA ensina: como bater na porta de uma padaria e pedir confiança.
Augusto Lins
O primeiro dia da Stone não pareceu o primeiro dia de nada. Não havia escritório imponente, não havia placa na porta, não havia recepcionista. Havia um grupo de pessoas com uma convicção desproporcional ao tamanho da operação e uma lista de comerciantes para visitar. Começava ali o que eu chamaria, anos depois, de a parte mais bonita da nossa história: o corpo a corpo.
Eu sou engenheiro. Passei a vida pensando em sistemas, em circuitos, em pontos de falha. Quando olhava para o mercado de pagamentos brasileiro, via um sistema com pontos de falha em todos os lugares — mas o maior deles não era tecnológico. Era humano. Ninguém atendia o comerciante. Ninguém olhava no olho dele. Ninguém perguntava como estava o negócio. A máquina de cartão chegava pelo correio, e quando dava problema, o lojista entrava num labirinto telefônico que consumia horas de um dia que ele não tinha.
Nosso Dia Zero foi sair às ruas. E quando digo ruas, digo literalmente calçadas, vielas, galerias comerciais. Eu, que vinha de salas de reunião com ar-condicionado e apresentações em PowerPoint, estava batendo na porta de padarias, restaurantes, salões de beleza. E descobri algo que nenhum MBA ensina: vender é escutar. Antes de oferecer qualquer coisa, você precisa calar a boca e ouvir o que o comerciante tem para dizer.
Uma padaria em Copacabana ficou marcada na minha memória. Era um estabelecimento pequeno, daqueles que existem em cada esquina do Rio de Janeiro, com o pão quente saindo do forno às cinco da manhã e um dono que trabalhava dezesseis horas por dia. Eu entrei, me apresentei, e ele me olhou com aquela desconfiança que eu aprenderia a reconhecer em milhares de outros rostos. "Mais um vendedor de maquininha", o olhar dizia. Disse a ele algo como: me dá trinta dias para mostrar o que a Stone faz de diferente. Se em trinta dias não estiver satisfeito, eu mesmo venho buscar a máquina. Ele aceitou. Não por causa da oferta — ofertas todo mundo fazia. Ele aceitou porque eu estava ali, na frente dele, olhando nos olhos, colocando minha reputação em jogo.
Trinta dias depois, voltei. Ele não queria devolver a máquina. Queria saber se eu tinha mais alguma coisa para oferecer. Aquela visita de retorno me ensinou mais sobre negócios do que qualquer disciplina que eu cursei em Harvard.
Os "Anjos" nasceram dessa necessidade de estar presente. O nome não foi escolhido por acaso. Queríamos que cada profissional de atendimento da Stone se sentisse como alguém que chega para salvar o dia do comerciante. Não era um técnico. Não era um vendedor. Era alguém que resolvia problemas. Que aparecia quando ninguém mais aparecia. Que viajava cinquenta quilômetros de noite para entregar uma maquininha de substituição a um dono de bar em Maresias porque ele precisava para o movimento do fim de semana.
Como um engenheiro aprendeu a vender? Essa pergunta me fizeram centenas de vezes. A resposta é que eu não aprendi a vender no sentido clássico. Eu nunca fui o cara do pitch agressivo, do fechamento de contrato com pressão. O que eu aprendi foi a ouvir com atenção genuína e a responder com velocidade. Se o comerciante dizia que tinha um problema, eu resolvia. Se dizia que estava insatisfeito com alguma coisa, eu corrigia. Se dizia que o concorrente oferecia uma taxa menor, eu não entrava em guerra de preço — eu mostrava o valor do atendimento. E o valor do atendimento, num mercado onde todos vendem essencialmente a mesma máquina, é o que separa quem cresce de quem desaparece.
O conceito dos Anjos foi se formalizando à medida que crescíamos. No começo, eram poucos — cada um cobrindo um bairro, uma região. Eles iam de loja em loja, estabeleciam relações, voltavam para acompanhar. Não era eficiente no sentido que um consultor de gestão aprovaria. Era artesanal. E era exatamente isso que funcionava. O comerciante não queria eficiência. Queria alguém que se importasse.
A Stone foi a primeira empresa do setor a colocar agentes próprios vendendo nas ruas. Não revendedores. Não terceirizados. Gente nossa, com crachá da Stone, treinada por nós, que respondia por nós. Esse detalhe parece pequeno, mas muda tudo. Quando o agente é seu, a experiência do cliente é sua. Não existe desculpa. Não existe "isso é com o parceiro". A responsabilidade é integral. E responsabilidade integral gera confiança integral.
A primeira vez que olhamos o NPS de verdade — quero dizer, não como um número num relatório, mas como um espelho da experiência do cliente — foi um divisor de águas. O Net Promoter Score nos mostrou algo que eu suspeitava mas não conseguia provar com dados: os clientes atendidos pessoalmente pelos Anjos tinham satisfação dramaticamente superior aos atendidos por canais remotos. Não era uma diferença marginal. Era um abismo.
Naquele momento, a tese que eu carregava desde a Redecard se confirmou empiricamente. O diferencial não era a tecnologia. Não era a taxa. Não era o software. Era o ser humano. Era o aperto de mão. Era o "como vai o negócio?" feito com sinceridade. Era o retorno em trinta dias para ver se estava tudo bem. A história da Stone, como escrevi depois no livro que leva esse número como título, foi construída a partir de um princípio básico que nos diferenciava radicalmente das outras instituições financeiras: ouvir sempre o cliente. E ouvir, descobri, exige presença. Exige ir até o balcão. Exige estar na rua quando está chovendo, quando está fazendo quarenta graus, quando o comerciante está de mau humor porque as vendas caíram.
Os primeiros meses foram caóticos. Tínhamos mais problemas do que soluções, mais perguntas do que respostas, mais dúvidas do que certezas. Mas tínhamos uma coisa que nenhum incumbente tinha: a disposição de errar rápido e corrigir mais rápido ainda. Quando algo não funcionava, mudávamos no dia seguinte. Quando um comerciante reclamava, alguém ia até ele no mesmo dia. Essa velocidade de resposta não era planejada — era instintiva. Vinha de uma urgência genuína de provar que era possível fazer diferente.
Eu me lembro de uma reunião nos primeiros meses em que alguém sugeriu que terceirizássemos parte do atendimento para reduzir custos. A sala ficou em silêncio. Eu olhei para o André e o André olhou para mim, e sem trocar uma palavra a resposta era a mesma: não. O atendimento era a única coisa que nos diferenciava. Terceirizar o atendimento seria como um restaurante terceirizar a comida.
O Dia Zero da Stone não terminou quando conquistamos o primeiro cliente. Na verdade, acho que ele nunca terminou. Cada novo comerciante que entra na base é um novo Dia Zero. Cada Anjo que bate na porta de uma loja pela primeira vez está revivendo aquele momento na padaria de Copacabana. E cada vez que o telefone é atendido em cinco segundos, estamos provando de novo que a premissa original estava certa.
O que eu mais valorizo daquele período é a humildade que ele nos ensinou. Não importava quantos anos de experiência eu tinha, quantos bancos internacionais constavam no meu currículo. Na frente do comerciante, eu era apenas mais uma pessoa pedindo confiança. E confiança, aprendi, se conquista do mesmo jeito que se engraxa um sapato: com as mãos, de joelhos, prestando atenção ao detalhe que ninguém mais vê.
Nota de Charan #2 — "A Ciência do Primeiro Sim"
Nenhum dos quatro começou com vantagem estrutural. Nenhum.
Augusto tinha experiência, mas a experiência era no sistema que ele pretendia desafiar — e o sistema não costuma aplaudir quem o abandona. André tinha energia e seis empresas na bagagem, mas quando a Visanet bloqueou os pagamentos da Paga Fácil por suspeita de fraude, ele não tinha sequer dinheiro para uma passagem aérea — pegou um ônibus do Rio para São Paulo para resolver pessoalmente. David tinha Stanford e Sequoia no currículo, mas era colombiano tentando construir um banco num país onde os investidores locais lhe diziam, com variações de polidez, que aquilo não funcionaria. Guilherme tinha quinze mil reais, dez computadores de lan house e a humilhação recente de uma demissão que o fez vender o carro para manter as portas abertas.
O Dia Zero — aquele primeiro dia em que o fundador acorda e percebe que a empresa existe apenas porque ele decidiu que existe — é o teste mais implacável de know-how. Não é o teste da grande visão. É o teste da execução sem recursos. É o teste de convencer o primeiro estranho a confiar.
E como cada um fez isso?
Augusto colocou gente na rua. Os "Anjos" da Stone não nasceram de uma teoria de distribuição — nasceram da constatação pragmática de que pequenos comerciantes não iriam até a Stone; a Stone precisava ir até eles. André aprendeu, entre a Paga Fácil, a Braspag, a Netcredit e a Sieve, que a diferença entre uma ideia e um negócio é a existência de alguém disposto a pagar. David fez diferente. O primeiro sim do Nubank veio por convite — o cartão roxo, distribuído inicialmente a cem pessoas selecionadas com cuidado cirúrgico, criou uma fila de espera que ultrapassou um milhão de nomes sem um centavo gasto em marketing. A escassez deliberada virou desejo viral. Guilherme não vendeu nada no primeiro dia. Deu uma aula. Vinte pessoas apareceram numa sala emprestada em Porto Alegre. Dezoito tornaram-se clientes no dia seguinte. A taxa de conversão de noventa por cento não veio de nenhuma técnica de vendas — veio da indignação sincera de alguém que explicava, com a energia de quem disputa uma final, que o brasileiro estava sendo roubado pelo próprio banco.
Quatro caminhos diferentes para o mesmo destino: o momento em que um desconhecido decide confiar. Esse momento não pode ser comprado, não pode ser herdado, não pode ser fingido. Só pode ser conquistado.
Em Know-How, descrevi oito competências que separam líderes que entregam de líderes que apenas planejam. A primeira é posicionamento — encontrar a ideia central do negócio que atende uma demanda real. No Dia Zero, posicionamento não é um slide numa apresentação. É a resposta à pergunta mais crua que existe: por que alguém pagaria por isso? Augusto respondeu com presença física. André respondeu com utilidade bruta. David respondeu com dignidade empacotada num cartão roxo. Guilherme respondeu com conhecimento que libertava.
O princípio: o Dia Zero não testa a grandeza da visão. Testa a capacidade de executar sem nada — sem marca, sem capital, sem time, sem história. Testa o know-how puro.
A pergunta que fica: se amanhã você perdesse tudo — a marca, o capital, a equipe, a reputação — e tivesse apenas a sua capacidade de resolver o problema de um único cliente, que problema resolveria?
Capitulo 3 — "Cultura é o Que Acontece Quando Ninguém Está Olhando"
Como cada um construiu organizações que funcionam mesmo sem o fundador na sala
Construir uma empresa é difícil. Construir uma cultura é mais difícil ainda — porque cultura não obedece a memorandos. David Vélez descobriu isso cedo, numa tarde em que o Nubank ainda não tinha produto, não tinha cliente e não tinha receita, mas já tinha algo que a maioria das startups ignora: um documento de valores escrito a seis mãos.
David Vélez
Quando o Nubank tinha três funcionários — eu, Cristina e Edward —, fizemos algo que a maioria das startups consideraria absurdo: paramos uma tarde inteira para escrever um documento de cultura. Três pessoas criando um culture deck com cinco valores fundamentais. Não tínhamos produto lançado, não tínhamos clientes, não tínhamos receita. Mas tínhamos clareza sobre uma coisa: cultura é a força motriz de tudo. Não existe nada mais importante. Porque cultura permite contratar pessoas, pessoas constroem produtos, produtos trazem clientes. Se a cultura está errada no início, tudo o que vem depois está comprometido.
Aprendi isso na Sequoia. Doug Leone costumava dizer que as empresas que fracassam raramente fracassam por problemas técnicos ou de mercado. Fracassam porque a cultura apodrece por dentro. E a cultura apodrece quando os fundadores deixam para defini-la depois. "Depois" nunca chega. O que chega é um conjunto de hábitos que ninguém escolheu conscientemente, mas que se enraízam com a força de um costume.
Os cinco valores que escrevemos naquela tarde no Brooklin incluíam obsessão pelo consumidor como princípio central. Não era retórica. Era uma decisão de design organizacional. Cada processo que criamos a partir daquele dia tinha o cliente como ponto de partida. Não o acionista, não o regulador, não o mercado. O cliente.
Quando começamos a contratar além dos três cofundadores, eu dizia a cada candidato a mesma coisa: "Você não está vindo aqui para vender cartões de crédito. Você está vindo aqui para empoderar 500 milhões de consumidores, para realmente mudar a sociedade, para trazer mais competição a essas indústrias." Parece grandioso demais para uma empresa de quinze pessoas? Talvez. Mas a grandiosidade da missão era deliberada. Pessoas excepcionais não saem de empregos confortáveis para vender cartões de crédito. Saem para mudar algo que acreditam estar quebrado.
Os primeiros quinze funcionários do Nubank definiram a cultura que hoje serve 131 milhões de clientes. Isso não é uma figura de linguagem. É literalmente verdade. Cada um desses quinze trouxe algo — um padrão de exigência, uma forma de resolver conflitos, um nível de transparência, uma velocidade de decisão — que se multiplicou exponencialmente à medida que a empresa cresceu. A estrutura organizacional foi desenhada como horizontal desde o primeiro dia. Sem hierarquias rígidas, sem aprovações em cascata, sem a burocracia que torna os grandes bancos lentos. Queríamos que cada funcionário sentisse que podia resolver o problema do cliente sem pedir permissão a três camadas de gestão.
Cristina Junqueira foi absolutamente central nesse processo. Se eu trouxe o framework analítico de como pensar cultura — aprendido na Sequoia —, Cristina trouxe a execução. Ela traduzia valores abstratos em comportamentos concretos. Quando dizíamos "obsessão pelo consumidor", Cristina definia o que isso significava na prática: como responder a uma reclamação, em quantos minutos, com que tom de voz, com que nível de autonomia para resolver. Ela transformou princípios em processos sem burocratizá-los. É uma habilidade raríssima.
Diversidade foi uma decisão estratégica, não uma concessão ao discurso da época. Quando fundamos o Nubank, eu era colombiano, Cristina era brasileira, Edward era americano. Três nacionalidades, três perspectivas, três formas de ver o mesmo problema. Essa diversidade fundacional não foi acidental — e seus resultados foram tão evidentes que se tornou princípio de contratação.
Conforme o Nubank cresceu — de 15 para 150, de 150 para 1.500, de 1.500 para milhares —, o desafio cultural mudou de natureza. Nos primeiros meses, cultura era transmitida por osmose. Quando a empresa passou de 500 pessoas, a osmose deixou de funcionar. Precisamos criar mecanismos intencionais de transmissão cultural: rituais, documentos, treinamentos, processos de avaliação que medissem não apenas o que as pessoas entregavam, mas como entregavam.
Há uma tensão que poucos fundadores discutem abertamente, mas que é real: manter cultura de startup numa empresa de escala continental é, em muitos aspectos, uma contradição. O desafio não é preservar a cultura original intacta — isso é impossível e, honestamente, nem desejável. O desafio é preservar a essência enquanto adapta a forma.
No Nubank, a essência é: o cliente vem primeiro, dados guiam decisões, e cada pessoa tem autonomia para agir. A forma mudou dezenas de vezes. Mas quando um funcionário do Nubank em São Paulo, ou na Cidade do México, ou em Bogotá, toma uma decisão que beneficia o cliente mesmo quando ninguém está olhando — quando não há gerente supervisionando, quando não há métrica sendo cobrada naquele exato momento —, isso é cultura funcionando.
Há um teste que uso mentalmente: se eu desaparecesse amanhã, a empresa continuaria tomando as mesmas decisões que eu tomaria? Se a resposta for sim, a cultura está viva. Se a resposta for não, o que existe não é cultura — é a sombra de um fundador, e sombras desaparecem quando a fonte de luz se move.
Vélez escreveu a cultura antes de ter um produto. Augusto Lins a descobriu num lugar mais antigo — no banco onde engraxava sapatos aos sete anos.
Augusto Lins
Eu costumo dizer que a cultura de uma empresa é como um manual de instruções para guiar escolhas diárias. Mas essa frase, embora verdadeira, é limpa demais. A realidade de construir cultura é suja. É feita de decisões difíceis, de demissões que doem, de contratações que desafiam a lógica do currículo e de rituais que parecem bobos até que você percebe que são a argamassa que mantém tudo de pé.
Na Stone, o atendimento nunca foi um departamento. Nunca houve uma "diretoria de atendimento" separada do resto da empresa. Atendimento era — e precisava ser — a empresa inteira. Do estagiário ao presidente. Da pessoa que desenvolve o software à pessoa que entrega a maquininha. Todo mundo atendia. Todo mundo era responsável pela experiência do cliente. Essa não era uma frase bonita no mural do escritório. Era uma regra operacional com consequências reais.
Eu buscava que cada funcionário se perguntasse: se esse comerciante fosse seu pai, se essa loja fosse do seu pai, como você resolveria esse problema? A pergunta funcionava porque não era abstrata. Todo mundo tem um pai. Todo mundo consegue imaginar o pai tendo um problema com a maquininha de cartão e ficando nervoso, perdendo venda, sem saber o que fazer. Quando você coloca o rosto do seu pai no lugar do cliente, o atendimento muda. A urgência muda. A empatia deixa de ser técnica e se torna visceral.
Contratar para cultura foi uma das decisões mais contraintuitivas que tomamos. O mercado de pagamentos é técnico. Seria natural priorizar competência técnica nas contratações. Mas eu aprendi, às vezes da pior maneira, que uma pessoa tecnicamente brilhante com valores desalinhados faz mais estrago do que uma pessoa mediana com os valores certos. A pessoa mediana você treina. A pessoa com valores errados você não conserta.
As demissões por falta de cultura eram ainda mais reveladoras. Houve casos em que profissionais com resultados comerciais excelentes foram desligados porque tratavam o cliente com descaso ou porque minavam o espírito de equipe. Essas decisões eram difíceis. Mas cada dia que uma pessoa tóxica permanece na organização, ela contamina três ao redor. E cultura contaminada é exponencialmente mais difícil de consertar do que meta de vendas.
O treinamento dos Anjos era intenso e permanente. Não era um curso de duas semanas seguido de trabalho autônomo. Era um ciclo contínuo de capacitação, acompanhamento, feedback e recalibração. Os Anjos novos saíam a campo com Anjos experientes. Aprendiam pelo exemplo, não pelo manual.
E os rituais. Nós olhávamos o NPS toda semana. Não mensalmente, não trimestralmente. Toda semana. Era como um exame de sangue semanal da empresa. Se o número caía, a investigação começava imediatamente. Não era uma investigação fria, de dashboard. Era uma investigação humana: que cliente deu nota baixa, por quê, quem atendeu, o que aconteceu, como evitar que se repita.
O NPS não é uma métrica. É um espelho. Ele mostra quem você realmente é, não quem você acha que é. Na Stone, o NPS era consistentemente elevado — num setor financeiro onde a média gira em torno de trinta e poucos, manter satisfação naquele patamar era quase uma anomalia estatística. E nós ritualizamos o NPS ao ponto de torná-lo parte da remuneração variável. As metas de atendimento pesavam tanto quanto metas de vendas. Isso mandava uma mensagem clara para toda a organização: aqui, vender sem encantar o cliente não é sucesso. É fracasso travestido de resultado.
Houve um episódio que me marcou profundamente. Em determinado momento, decidimos terceirizar o processo de cobrança de clientes inadimplentes. O resultado foi um desastre. Os clientes começaram a receber e-mails com tom ameaçador, completamente fora do padrão da Stone. Nós nos desculpamos publicamente e retomamos o controle da comunicação.
Aquele episódio me ensinou que cultura não sobrevive à delegação indiscriminada. Cada ponto de contato com o cliente é uma expressão da sua cultura. Se você entrega qualquer um desses pontos a alguém que não compartilha seus valores, a cultura se rompe. E o cliente percebe. O cliente sempre percebe.
Eu me definia, com uma dose de ironia, como o Chief Problem Officer — o cara que está sempre procurando e resolvendo problemas. Eu dedicava pelo menos trinta por cento do meu dia conversando com clientes. Ligava para comerciantes. Visitava lojas sem aviso prévio. Não para fiscalizar os Anjos, mas para sentir o pulso da operação. Para medir, com os sentidos de engenheiro que nunca abandonei, cada ponto de falha no circuito entre a Stone e o comerciante.
Cultura não escala por decreto. Ela escala por contágio. Cada Anjo que atende um comerciante como se fosse a loja do pai está transmitindo a cultura para o próximo Anjo que assiste àquela interação. É lento. É artesanal. E é a única coisa que funciona.
Se a cultura de Augusto se transmite pelo contágio do exemplo, a de André Street se transmite por uma disciplina mais dura — a paranoia de quem sabe que o sucesso é o prelúdio mais comum do fracasso.
André Street
Paranoia é essencial.
Não estou falando de doença. Estou falando de disciplina. Da capacidade de acordar todo dia e imaginar o que pode dar errado. De ficar o tempo inteiro se questionando se a empresa está ameaçada por alguma fraqueza. De olhar para o sucesso e, em vez de celebrar, perguntar: por quanto tempo?
A maioria das pessoas acha que paranoia é o oposto de confiança. Não é. Paranoia produtiva é a forma mais sofisticada de confiança. Porque você confia na sua capacidade de antecipar problemas. Confia na sua disciplina de nunca relaxar. Confia que, se algo der errado, você vai perceber antes de todo mundo.
Achar-se o máximo é um perigo mortal. É a frase que eu repito mais do que qualquer outra. Porque no momento em que você acredita que chegou, começou a descer. O mercado não espera. O concorrente não espera. O mundo gira em dois minutos, e se você estiver olhando para o próprio troféu, já perdeu o próximo movimento.
Na Stone, na Arpex, na Teya — em tudo que construí — a cultura começa nesse ponto: ninguém é maior que o projeto. Ninguém. Nem eu.
Precisamos demitir o ego todo dia de manhã. Essa é a prática mais difícil e mais necessária que conheço. Ego é a doença silenciosa do empreendedor de sucesso. Quando as coisas dão certo, quando a imprensa liga, quando o investidor elogia, quando o IPO acontece, o ego cresce. E ego grande toma decisões burras. Ego grande não ouve. Ego grande acha que sabe. Ego grande é o começo do fim.
Demitir o ego não é falsa modéstia. É uma prática brutal de honestidade consigo mesmo. Toda manhã, antes de qualquer reunião, eu me pergunto: o que eu não estou enxergando? Onde estou errado? Quem está discordando de mim e eu não estou ouvindo? Se a resposta for "ninguém discorda", o problema é grave.
A horizontalidade nasceu dessa convicção. Quando a empresa cresce, a tentação natural é verticalizar. Criar camadas. Hierarquias. Caixinhas. As melhores decisões que já tomei vieram de conversas com gente que estava cinco níveis abaixo no suposto organograma. Gente que via o problema de perto, que sentia a dor do cliente no dia a dia.
Contratação. Se tem uma coisa que define cultura mais do que qualquer manifesto colado na parede, é quem você contrata. Eu sempre busquei três coisas nas pessoas: inteligência, integridade e energia. Currículo é contexto, não é critério.
Nossa empatia com as pessoas jovens é porque a gente pensa que elas podem ser melhores que a geração anterior. Quando você contrata jovens com fome, com energia, com vontade de provar que podem, e dá a eles autonomia real — não autonomia de fachada, autonomia de verdade — coisas extraordinárias acontecem.
Tem uma história que resume tudo isso. Em algum momento, alguém me pediu fotos individuais para material promocional. Eu recusei. Enviei fotos com toda a equipe. Somos a soma de muitas cabeças. Quando o fundador posa sozinho, a mensagem é: eu sou o herói. Quando posa com a equipe, a mensagem é: nós somos o herói. E a segunda mensagem é a verdadeira.
Uma empresa precisa servir primeiro ao cliente, depois à sua equipe e, consequentemente, o acionista vai ser beneficiado. Essa ordem não é acidental. É arquitetural. Quando você inverte — quando coloca o acionista primeiro, ou quando coloca a equipe antes do cliente — a cultura desmorona.
A cultura que construímos não está num documento. Está nas decisões que as pessoas tomam quando ninguém está olhando. Você tem que mudar o mercado para que isso seja bom para a sociedade. E quando a cultura funciona de verdade, acontece algo que sobrevive ao fundador. Esse é o teste final.
A paranoia produtiva de André demite o ego toda manhã. A meritocracia radical de Guilherme Benchimol faz algo complementar — e igualmente doloroso: transforma cada pessoa dentro da empresa num dono.
Guilherme Benchimol
Tem uma coisa que ninguém te conta quando você funda uma empresa: cultura não se cria. Cultura acontece. Ela emerge das decisões que você toma quando está cansado demais para pensar em cultura. Das pessoas que você contrata nos primeiros meses, quando não tem processo seletivo, não tem RH, não tem nada — só tem alguém que precisa de alguém para ajudar a tocar o negócio. A cultura da XP não nasceu numa sala de reunião com um consultor desenhando valores no quadro branco. Nasceu numa sala de vinte e cinco metros quadrados em Porto Alegre, onde todo mundo fazia de tudo e ninguém esperava ser mandado.
O que eu chamo de "sentimento de dono" não é uma frase bonita para colocar no mural. É uma filosofia operacional. Significa que cada pessoa dentro da XP — de estagiário a diretor — se comporta como se a empresa fosse dela. Não "como se" no sentido figurado. No sentido literal. Muitos deles são sócios de verdade, via o modelo de partnership. Quando você tem participação real no resultado, a relação com o trabalho muda. Você não está prestando serviço — está construindo patrimônio.
Essa ideia nasceu cedo. Lá no começo, quando a Ana Clara — que depois se tornaria minha esposa — era estagiária e um colaborador importante ameaçou sair, eu ofereci dez por cento de participação societária para manter a equipe unida. Eu não tinha dinheiro para dar aumento. Tinha sociedade. Parecia loucura, mas funcionou. E funcionou não porque era generoso — funcionou porque alinhava incentivos. Quando todo mundo ganha junto, todo mundo rema junto.
A meritocracia da XP é radical. Não é meritocracia decorativa, do tipo que aparece nos valores da empresa mas ninguém leva a sério. Funciona assim: desempenho mais cultura. Desempenho é a capacidade de bater metas que parecem impossíveis. Cultura é o termômetro de como você bate essas metas. Não basta entregar resultado — é preciso entregar do jeito certo. Se você entrega resultado mas atropela pessoas, não fica. Se você é uma pessoa extraordinária mas não entrega resultado, também não fica. A equação exige os dois lados.
Essa lógica é dura. Eu sei disso. Nem todo mundo sobrevive num ambiente de alta performance. E eu carrego cada decisão difícil que tomei — cada demissão, cada reestruturação. Mas aprendi uma coisa ao longo dos anos: a pior crueldade num ambiente de trabalho não é demitir alguém que não está entregando — é manter essa pessoa numa posição onde ela não cresce, não contribui e não é feliz.
A rede de assessores é a extensão da XP no território brasileiro. São milhares de profissionais espalhados por mais de oitocentos escritórios em todo o país. Cada assessor é um microempreendedor. Ele não é funcionário da XP — é um profissional autônomo conectado à nossa plataforma. O "sentimento de dono" aqui não é metáfora: o assessor é dono do seu escritório, do seu relacionamento com o cliente, do seu resultado.
Houve um momento — não consigo precisar o ano, porque não foi um evento, foi uma percepção gradual — em que eu entendi que a cultura da XP estava escalando mais devagar que a receita. A empresa crescia rápido. Muito rápido. Os números eram espetaculares. Mas quando eu visitava alguns escritórios, percebia que nem todos tinham absorvido o que a XP significava. Para alguns, a XP era apenas uma plataforma de produtos. Faltava o "por quê".
Isso me assustou. Em ultramaratona, existe um conceito chamado "a parede" — o momento em que seu corpo diz que não aguenta mais e sua mente precisa assumir o comando. A parede cultural da XP foi esse momento. O corpo da empresa — a operação, os números, o crescimento — estava funcionando perfeitamente. Mas a mente — o propósito, os valores, a razão de existir — estava ficando para trás.
A resposta foi investir em cultura com a mesma intensidade com que investíamos em tecnologia e produtos. Criamos programas de formação para assessores que iam muito além do técnico. Reforçamos os rituais internos. E, acima de tudo, eu passei a dedicar mais tempo pessoalmente à rede de assessores. Visitar escritórios, conversar com equipes, contar e recontar a história da origem.
Cultura escala. Mas escala de forma diferente da receita. Receita escala com produto, tecnologia, mercado. Cultura escala com gente — com as pessoas certas, nos lugares certos, repetindo as mesmas coisas até que elas virem hábito. É mais lento, mais trabalhoso, mais frustrante. Mas é o que faz a diferença entre uma empresa que cresce e uma empresa que dura.
A frase que uso internamente é: "A principal alavanca de crescimento é gente boa na posição certa." Não é tecnologia. Não é capital. Não é mercado. É gente.
Cultura é o que acontece quando ninguém está olhando. Na XP, eu queria que o que acontecesse fosse o seguinte: um assessor sentado num escritório em Manaus, atendendo um cliente que acabou de receber a herança da avó, oferecendo a melhor opção do mercado — não a que dá mais comissão, a melhor para aquele cliente. Se isso acontece sem que eu saiba, sem que ninguém fiscalize, sem câmera e sem relatório — então a cultura funciona.
Nota de Charan #3 — "Cultura Como Sistema Operacional"
Quatro empresas. Quatro culturas. Nenhum manual que funcione.
O que acabo de ouvir destes quatro fundadores confirma algo que observei em mais de quatro décadas aconselhando organizações ao redor do mundo: cultura não é o que está escrito no mural da recepção. É o sistema operacional invisível que determina como milhares de pessoas tomam milhões de decisões por dia, sem pedir permissão a ninguém.
Mas cada um deles construiu esse sistema operacional de forma radicalmente diferente.
Vélez começou pela arquitetura: três pessoas, uma tarde, um documento de cinco valores. É uma abordagem intencional, analítica, quase de engenharia — coerente com alguém que aprendeu na Sequoia Capital que cultura é a variável que explica o fracasso de empresas onde todas as outras variáveis estavam certas.
Augusto começou pelo ritual: o NPS semanal como exame de sangue da empresa, o treinamento dos Anjos como ciclo contínuo, a bússola de tratar cada comerciante como se fosse família. A cultura da Stone não foi escrita num documento; foi inscrita nos hábitos de milhares de Anjos que a replicam em cada porta batida.
André começou pela subtração: dispensar a vaidade toda manhã, recusar a foto individual, manter a horizontalidade mesmo sob pressão de investidores e reguladores. A cultura de André não é o que se adiciona à empresa; é o que se retira dela — hierarquia desnecessária, vaidade do fundador, a ilusão de que alguém é maior que o projeto.
Guilherme começou pela propriedade: o modelo de partnership que transforma funcionários em sócios, a rede de assessores que são microempreendedores autônomos, o "sentimento de dono" como filosofia operacional — não como metáfora.
As quatro abordagens divergem na forma. Convergem num princípio que, em Execution, Larry Bossidy e eu chamamos de o elo entre estratégia e resultado: a disciplina de fazer. Documento, ritual, subtração ou propriedade — não importa o veículo. O que importa é que a cultura se torne comportamento repetível.
Há, porém, uma revelação mais sutil neste capítulo. Guilherme a articulou com uma honestidade que poucos fundadores conseguem: "a cultura da XP estava escalando mais devagar que a receita." É uma confissão que qualquer empresa em crescimento acelerado deveria ouvir com atenção. A parede cultural que Guilherme descreve, usando a metáfora da ultramaratona, é o momento em que a empresa descobre que crescer e preservar a essência são forças que nem sempre apontam na mesma direção.
A pergunta que fica: na sua organização, o que acontece quando ninguém está olhando — e quando foi a última vez que você verificou?
Capitulo 4 — "De 10 para 10.000"
Escalar sem perder a alma
Escalar é a palavra que o mundo dos negócios pronuncia com mais frequência e entende com menos profundidade. Para André Street, escalar não é fazer mais — é montar um tabuleiro onde cada peça se encaixa antes mesmo de o jogo revelar seu desenho final.
André Street
Aquisição é lego.
Cada empresa que comprei, que construí, que fundi — cada uma era uma peça num projeto maior. Na hora, nem sempre eu enxergava o desenho final. Mas sabia que as peças se encaixariam. Instinto? Talvez. Obsessão por entender o ecossistema completo? Com certeza.
Vou montar o mapa. A Paga Fácil foi o primeiro contato com pagamentos. Braspag foi a infraestrutura que processou oitenta por cento do e-commerce brasileiro. Netcredit foi a camada de crédito. Sieve e o Sieve Group foram a inteligência de dados e preços. Mundipagg foi a orquestração. Cada peça era necessária para a seguinte. Cada empresa que morreu me ensinou o que a próxima precisava ter. Cada empresa que vendi financiou a próxima aposta.
Quando chegou a hora de construir a Stone, eu não estava começando do zero. Estava convergindo quinze anos de peças num único tabuleiro.
Em 2010, o Banco Central tomou uma decisão que mudou tudo: acabou com a exclusividade entre bandeiras e adquirentes. O duopólio Cielo-Rede foi rachado. Eduardo Pontes e eu olhamos para aquela janela regulatória e enxergamos uma oportunidade sem precedentes. Em 2012, criamos a adquirente que viria a ser a Stone.
A primeira transação aconteceu em 14 de abril de 2014. O Mineiro — Geraldo Mazela Rodrigues, vendedor de queijos que frequentava o prédio da empresa — digitou setenta e oito reais na maquininha verde. Quando o comprovante começou a ser impresso, nós soubemos: a máquina estava pronta para o mundo.
Mas escalar é diferente de crescer. E essa diferença é o que mata a maioria das empresas.
Crescer é fazer mais do mesmo. Escalar é fazer diferente para fazer mais. Crescer é contratar mais gente. Escalar é construir sistemas que multiplicam o impacto de cada pessoa. Crescer é linear. Escalar é exponencial. E o salto de um para o outro exige uma transformação que começa no fundador.
Em abril de 2016, fizemos algo que todo mundo achou loucura: compramos a operação brasileira da Elavon. A Elavon era a quarta maior adquirente do país. Tinha o dobro do nosso tamanho. Uma empresa menor comprando uma maior. A audácia era proposital. Pensar grande e executar antes que concorrentes reajam. Com um movimento, dobramos nossa base de clientes.
Depois veio o IPO. Vinte e quatro de outubro de 2018. Nasdaq. Preço por ação de vinte e quatro dólares — acima da faixa estimada. Na abertura, a ação foi a trinta e dois dólares. Trinta por cento de valorização no primeiro dia. Valor de mercado precificado a US$ 6,8 bilhões, atingindo cerca de US$ 9 bilhões no fechamento do primeiro dia. Warren Buffett investiu trezentos e quarenta milhões. A 3G Capital estava junto. Ant Financial. Madrone Capital.
Mas o momento que importou de verdade não foi o preço da ação. Foi a cerimônia do dia seguinte, vinte e cinco de outubro. Quase duzentas pessoas na Nasdaq. E quem tocou o sino? Não fui eu. Não foi o Eduardo. Foi o Mineiro. O vendedor de queijos. O primeiro cliente. Aquele gesto disse mais sobre quem somos do que qualquer relatório de investor relations.
A questão é: como você escala sem perder a alma? A resposta que encontrei foi: mude o seu papel. Pare de fazer. Comece a orquestrar.
A transição de executor para orquestrador é a mais difícil que um fundador enfrenta. Porque o fundador é viciado em fazer. E de repente, a empresa precisa que ele pare de fazer tudo isso. Precisa que ele pense. Que monte o tabuleiro. Que escolha as pessoas certas e confie nelas.
Foi esse processo que me levou à Teya. A internacionalização não foi uma expansão — foi uma reimaginação. Eduardo Pontes foi para Londres. Olhamos para a Europa e vimos a mesma coisa que tínhamos visto no Brasil: comerciantes mal atendidos, incumbentes lentos, mercados recém-desregulamentados.
A Teya — que nasceu como SaltPay e foi rebatizada em abril de 2023 — opera hoje em nove países: Reino Unido, Croácia, República Tcheca, Hungria, Islândia, Itália, Portugal, Eslováquia e Espanha. Atende dezenas de milhares de negócios locais. Levantou mais de um bilhão de dólares em funding. Em fevereiro de 2026, lançou operações na Espanha e na Itália.
Em março de 2024, anunciei que não buscaria reeleição como chairman do conselho da Stone. Não foi uma saída — foi uma transição. Mantive-me como Acionista de Referência, com trinta e sete por cento do capital votante.
E em março de 2026, junto com David Vélez e Guilherme Benchimol, lançamos o Instituto B55. A ambição é criar o maior hub de empreendedorismo da América Latina. Focado nas PMEs que sobreviveram à fase de morte de startup mas não conseguem escalar.
Porque de dez para dez mil, ninguém faz sozinho. E quem finge que faz, ou está mentindo, ou vai descobrir da pior forma que estava errado.
André escalou montando peças de lego em dois continentes. Guilherme Benchimol escalou de outra forma — com a paciência de quem aprendeu, nas ultramaratonas, que o ritmo certo importa mais do que a velocidade.
Guilherme Benchimol
Escalar é uma palavra que o mundo dos negócios adora usar como se fosse simples. Na prática, escalar é o processo mais violento que uma empresa atravessa. É se transformar enquanto corre. É trocar o motor do avião em pleno voo. É, na linguagem de corrida, aumentar o ritmo no quilômetro sessenta de uma ultramaratona, quando todo o seu corpo implora para desacelerar.
A XP começou como agente autônomo de investimentos. Duas pessoas, uma sala, computadores de lan house. O crescimento era orgânico, alimentado pelos workshops e pelo boca a boca dos clientes satisfeitos. Cada cliente novo era uma conquista pessoal. Eu conhecia cada um pelo nome.
O primeiro salto aconteceu quando a rede de assessores começou a ganhar corpo. De repente, não éramos mais dois caras numa sala — éramos dezenas de profissionais em várias cidades. A receita começou a crescer de forma que eu nunca tinha visto. Mas com a receita, vieram os problemas que receita traz: sistemas que não aguentavam o volume, processos que não existiam, conflitos que surgiam quando pessoas com egos diferentes precisavam trabalhar juntas.
A decisão de virar plataforma financeira completa não foi um momento épico. Foi uma sequência de percepções. Cada necessidade não atendida era uma porta por onde o cliente poderia ir embora. A lógica era simples: se o cliente confia em nós para cuidar dos investimentos dele, por que não confiar para cuidar de toda a vida financeira?
As aquisições foram parte central dessa transformação. A Clear, em 2014, nos deu uma plataforma de trading ágil. A Rico, em 2016, trouxe uma base de clientes complementar. O portal InfoMoney, adquirido em 2011, nos deu credibilidade editorial e alcance de audiência.
E então veio o IPO.
Onze de dezembro de 2019. Nasdaq. Nova York. A demanda pelos papéis da XP tinha sido catorze vezes maior que a oferta. O preço da ação foi fixado em vinte e sete dólares — acima da faixa indicativa. A avaliação da empresa: aproximadamente quatorze vírgula nove bilhões de dólares.
Quando o sino tocou na Nasdaq e eu vi "XP" no telão, senti uma coisa difícil de descrever. Não era felicidade exatamente. Era mais como alívio misturado com vertigem. Alívio porque todo o zigue-zague — a demissão, a sala de vinte e cinco metros quadrados, os computadores de lan house, o carro vendido, as noites sem dormir — tudo aquilo tinha resultado em algo real. E vertigem porque eu sabia que o IPO não era o final da corrida. Era o começo de outra.
De dez para dez mil, a XP mudou tudo menos uma coisa: a tese fundacional. O brasileiro é mal atendido em investimentos, e nós vamos mudar isso. Essa frase cabe numa sala de vinte e cinco metros quadrados e cabe numa empresa que está na Nasdaq com bilhões sob custódia. Quando a tese é verdadeira, ela escala.
A vida real é muito diferente daquela que a gente coloca no Excel. As planilhas dizem uma coisa, o mercado diz outra, as pessoas dizem outra ainda. Escalar é a arte de navegar essas contradições sem perder o rumo. É aceitar que o zigue-zague é o caminho, não o desvio. E é lembrar, todo dia, por que você começou — porque nos dias difíceis, e eles vêm, a única coisa que te mantém correndo é saber para onde está indo.
O zigue-zague de Benchimol e a paciência de ultramaratonista contrastam com a disciplina de expansão metódica de Vélez — produto a produto, país a país, como quem empilha camadas sabendo que cada uma precisa suportar o peso da seguinte.
David Vélez
O Nubank nasceu como um cartão de crédito. Se tivéssemos ficado nisso, seríamos uma fintech interessante. Mas não seria o que nos propusemos a construir. Desde o primeiro dia, a visão era ser uma plataforma financeira que resolvesse, de ponta a ponta, a vida financeira das pessoas.
A sequência de produtos seguiu uma lógica que exigiu disciplina feroz para executar. Primeiro o cartão, que resolveu o problema mais visível. Depois a conta digital. Depois empréstimos pessoais, seguros, investimentos, conta para pessoa jurídica. Cada produto era uma camada adicional de relacionamento com o cliente — e cada camada tornava mais difícil para o cliente voltar para o banco tradicional.
A tentação de lançar tudo ao mesmo tempo era constante. Mas resistimos. Cada produto só era lançado quando atendia ao nosso padrão de qualidade — que era, essencialmente, o padrão de Cristina. Se algo não funcionava perfeitamente no aplicativo, não ia ao ar.
A expansão internacional começou pelo México. A Colômbia veio em seguida — e para mim, voltar ao meu país de origem com uma empresa que tinha transformado o Brasil foi um momento carregado de significado.
O IPO na NYSE aconteceu em 9 de dezembro de 2021. A avaliação no dia da oferta foi de aproximadamente US$ 41,5 bilhões. Levantamos US$ 2,6 bilhões.
O ano de 2022 foi o teste. Após o IPO, o mercado de tecnologia global entrou em correção severa. A pressão era intensa. Mantivemos o curso. O mercado de ações opera em trimestres; nós operamos em décadas. No encerramento de 2025, o Nubank tinha 131 milhões de clientes. A receita anual chegou a aproximadamente US$ 16,3 bilhões. O lucro líquido anual foi de US$ 2,9 bilhões. O retorno sobre patrimônio atingiu 33%.
Esses números não são troféus. São responsabilidade. Milhões dos nossos clientes nunca tinham tido conta bancária antes do Nubank. Para essas pessoas, o cartão roxo não foi uma alternativa — foi a primeira porta. A primeira vez que alguém do sistema financeiro olhou para elas e disse: "Você também merece ser atendido."
Escalar de 10 para 10.000 — de uma casa no Brooklin para operações em quatro países — não é uma história de crescimento linear. O único fio condutor é a teimosia de acreditar que, se fizermos o que é melhor para o cliente, o resto se resolve. Não sempre. Não imediatamente. Mas no longo prazo, no jogo infinito, sempre.
Vélez joga o jogo infinito — sem linha de chegada. Augusto enfrentou a versão mais dolorosa dessa verdade: escalar o humano sem substituí-lo pela máquina.
Augusto Lins
Escalar é o teste que separa uma boa ideia de uma grande empresa. Você pode ter a cultura mais linda do mundo, o atendimento mais humanizado, o NPS mais alto do setor — mas se não conseguir multiplicar isso por mil, por dez mil, por cem mil, fica sendo apenas uma boutique simpática.
A tensão era real e permanente: como manter o atendimento artesanal quando se tem centenas de milhares de clientes? Essa é a pergunta que me tirou o sono por anos. E a resposta honesta é que a tensão nunca desaparece. Você não a resolve. Você a administra.
O que fizemos foi construir sistemas — sim, o engenheiro fala aqui — que permitissem escalar o humano sem substituí-lo pelo automatizado. Padronizamos processos de treinamento sem padronizar o atendimento em si. Criamos indicadores que mediam qualidade sem burocratizar a relação. Desenvolvemos tecnologia que dava aos Anjos ferramentas para serem mais eficientes, liberando tempo para o que realmente importava: a conversa, o olhar, o aperto de mão.
Mas não vou romantizar. Na escala, coisas se perdem. A proximidade que eu tinha com os primeiros cinquenta comerciantes não se repete com quinhentos mil. O nome do dono da padaria de Copacabana eu lembro. O nome do comerciante número quatrocentos e trinta e sete mil, não. Isso dói em quem construiu a empresa sobre a promessa de personalização. A saída foi descentralizar a responsabilidade da relação. Cada Anjo era o "dono" da sua carteira de clientes. A escala da Stone não foi feita de cima para baixo. Foi feita de baixo para cima, replicando milhares de pequenas relações pessoais.
O caminho até o IPO foi uma história de crescimento acelerado sem perder a essência. Quando abrimos capital na Nasdaq, em 25 de outubro de 2018, a Stone foi precificada a US$ 6,8 bilhões. No primeiro dia de negociação, as ações subiram aproximadamente trinta e dois por cento, e o valor de mercado chegou a cerca de nove bilhões de dólares. Tínhamos, naquela altura, algo em torno de duzentos e trinta mil clientes ativos.
E então veio Buffett. Quatro dias depois da estreia na Nasdaq, a Berkshire Hathaway formalizou um investimento de trezentos e quarenta milhões de dólares na Stone, adquirindo 14,2 milhões de ações ao preço de IPO. Uma participação de 11,3 por cento da companhia.
Para a equipe, o efeito foi galvanizante. Buffett não investiu na nossa tecnologia. Investiu no nosso modelo. E o nosso modelo era gente.
Quando deixei a presidência em 2023, a Stone estava sólida. Os resultados recentes — receita de 3,7 bilhões de reais no quarto trimestre de 2025, 4,7 milhões de clientes ativos em pagamentos — mostram que o modelo não dependia de um indivíduo. Dependia de uma cultura.
Escalar sem perder a alma é possível. Mas não é garantido. É uma escolha diária, tomada por milhares de pessoas que você nunca vai conhecer, em interações que você nunca vai presenciar. Escala é o teste definitivo de tudo o que você acredita. Porque quando a empresa era pequena, eu podia garantir pessoalmente que cada cliente seria bem tratado. Quando se torna grande, a única garantia é a cultura.
Nota de Charan #4 — "O Paradoxo da Escala"
Noventa por cento das empresas que encontram product-market fit morrem ao tentar escalar. Não morrem por falta de mercado. Não morrem por falta de capital. Morrem porque escalar exige uma transformação que a maioria dos fundadores não consegue ou não quer fazer: deixar de ser o protagonista da execução e se tornar o arquiteto de um sistema que executa sem ele.
O que revela este capítulo não são métricas de crescimento — é o custo da transformação. André articulou a distinção mais limpa entre crescer e escalar: fazer diferente para fazer mais, não mais do mesmo. Augusto enfrentou o paradoxo mais agudo: como escalar o humano sem perder o que o torna humano. David empilhou camadas com a disciplina de quem sabe que cada uma precisa suportar o peso da seguinte. Guilherme descobriu que a receita escala com tecnologia, mas a cultura escala com gente — e gente é lenta, imprevisível, resistente a atalhos.
A convergência entre os quatro é reveladora: todos mencionaram a necessidade de soltar. André deixou o conselho da Stone. Augusto virou Senior Advisor. David reconhece que se desaparecesse, a empresa deveria continuar tomando as mesmas decisões. Guilherme fala do pace partner, do sócio que segura os freios. Escalar, no fundo, é aprender a não ser mais necessário — e poucos testes de caráter são mais duros do que esse.
Em The Attacker's Advantage, argumentei que a vantagem do atacante é temporária se a cultura não escalar junto. Estes quatro mantiveram a vantagem não porque escalaram rápido, mas porque encontraram formas de escalar os princípios que os tornaram especiais quando eram pequenos. Anjos na rua. Paranoia produtiva. Obsessão com dados. Sentimento de dono. Nenhum desses princípios escala automaticamente. Todos exigem investimento intencional e a vigilância constante de quem sabe que a cultura morre mais depressa do que a receita cresce.
A pergunta que fica: o que na sua empresa só funciona porque você está presente — e o que aconteceria se você saísse amanhã?
Capitulo 5 — "O Cliente Não É Rei — É Razão de Existir"
Obsessão pelo cliente como vantagem competitiva
A palavra "obsessão" é usada com leveza no mundo dos negócios. Mas obsessão de verdade — a que não dorme, a que não aceita "bom o suficiente", a que reorganiza a empresa inteira ao redor de uma única premissa — é rara. É desconfortável. E é o que separa estes quatro fundadores de centenas de outros que também diziam que o cliente vinha primeiro. O que este capítulo revela não é a tese — já conhecida — mas as tensões e os limites dessa obsessão quando ela encontra a realidade da escala.
Augusto Lins
Eu tenho uma implicância antiga com a frase "o cliente é rei". Ela carrega uma submissão que distorce a relação. Rei é alguém que ordena e a quem se obedece por hierarquia, não por convicção. O cliente não é rei. O cliente é a razão pela qual a empresa existe. É diferente. Quando você trata o cliente como rei, você faz reverências. Quando você trata o cliente como razão de existir, você muda a estrutura inteira da organização para servi-lo. A reverência é gesto. A reestruturação é compromisso.
Na Stone, esse compromisso tinha um número: cinco segundos.
Cinco segundos é o tempo que leva para o telefone ser atendido. Parece pouco. É tudo. Porque nesses cinco segundos, o comerciante decide se confia em você ou se começa a procurar alternativa. A decisão não é racional — é visceral.
Eu escrevi um livro inteiro sobre esse conceito — 5 Segundos — e ainda assim sinto que não esgotei o tema. Porque cinco segundos não é apenas uma meta de atendimento telefônico. É uma filosofia sobre velocidade de resposta como expressão de respeito. Quando a Cielo ou a Rede deixavam o comerciante esperando quinze, vinte minutos numa fila eletrônica, a mensagem implícita era: o seu tempo não vale tanto quanto o nosso. Quando a Stone atendia em cinco segundos, a mensagem era outra: você importa. Agora. Não daqui a pouco.
O moat de lealdade — esse fosso competitivo que se constrói ao redor da empresa e que nenhum concorrente consegue cruzar facilmente — não se cava com tecnologia. Cava-se com atendimento. Cliente a cliente. Ligação a ligação. Visita a visita. É um trabalho artesanal feito em escala industrial.
A história do Anjo de Maresias ficou gravada na minha memória. Paulinho, dono de um bar na praia, ligou numa sexta-feira à noite. A maquininha tinha parado de funcionar e ele precisava dela para o movimento do fim de semana. Nosso Anjo da região estava a cinquenta quilômetros dali. Poderia ter agendado a visita para segunda-feira. Ninguém teria reclamado. Mas ele não agendou para segunda. Pegou o carro, fez os cinquenta quilômetros na estrada de noite e entregou uma maquininha nova na porta do bar antes que o primeiro cliente do fim de semana chegasse. Paulinho não ficou surpreso pela eficiência. Ficou surpreso por ter sido tratado como gente.
Nenhum algoritmo teria feito isso. Nenhum chatbot teria percebido que ali o problema não era a maquininha — era a sobrevivência do fim de semana de um pequeno empreendedor. O ser humano percebeu porque seres humanos são construídos para perceber a urgência alheia. Essa capacidade é o que eu chamo de inteligência empática. E ela é, até hoje, o último diferencial que a tecnologia não consegue replicar.
Ou será que consegue? Essa pergunta me assombra desde que a inteligência artificial entrou no vocabulário cotidiano dos negócios. A IA pode analisar o tom de voz do cliente, detectar frustração, ajustar a resposta em tempo real. Tudo verdade. Mas pode fazer o que aquele Anjo fez em Maresias — pegar o carro às dez da noite e dirigir cinquenta quilômetros porque Paulinho precisava?
O cliente não é rei. O cliente é a razão de existir. E a razão de existir não se terceiriza. Não se automatiza. Não se delega a um algoritmo. Ela se honra, todos os dias, em cada interação, com a mesma disposição daquele menino que engraxava sapatos aos sete anos: de joelhos, com as mãos ocupadas, prestando atenção ao detalhe que ninguém mais vê.
A obsessão de Augusto se mede em cinco segundos. A de David Vélez se mede em cento e trinta e um milhões de pessoas que estavam esperando que alguém as tratasse com dignidade.
David Vélez
Existe uma diferença fundamental entre dizer "o cliente é importante" e construir uma empresa inteira ao redor dessa premissa. A primeira é uma frase de relatório anual. A segunda é uma decisão de arquitetura organizacional que afeta cada processo, cada contratação, cada linha de código e cada palavra que o cliente lê na tela do celular. O Nubank foi construído pela segunda via. E a razão pela qual escolhemos esse caminho tem um nome que poucos no mundo corporativo gostam de pronunciar: raiva.
Quando cheguei ao Brasil em 2013, a raiva do brasileiro com o sistema bancário era quase palpável. Não era uma insatisfação elegante, daquelas que aparecem em pesquisas de NPS como um número frio. Era visceral. Pessoas que perdiam manhãs inteiras em filas para resolver problemas que não deveriam existir. Pessoas que pagavam taxas absurdas sem entender por quê.
Essa raiva era, para mim, combustível. O Nubank não convenceu 131 milhões de pessoas a trocar de banco. O Nubank simplesmente existiu — e 131 milhões de pessoas estavam esperando que algo assim existisse.
O cartão roxo, por exemplo. Num setor onde todos os cartões eram cinzas, prateados ou dourados — cores que comunicavam status e exclusividade —, escolhemos roxo. Era uma declaração visual. Dizia: somos diferentes.
A linguagem foi talvez a mudança mais revolucionária. Eliminamos o juridiquês. Cada mensagem que o Nubank envia ao cliente é escrita em português claro, direto, humano. Sem letras miúdas escondendo armadilhas. Cristina Junqueira foi a arquiteta dessa transformação. Quando Cristina revisava uma notificação ou uma mensagem de erro, não perguntava "isso está tecnicamente correto?". Perguntava: "se eu recebesse isso no meu celular, como me sentiria?"
Inclusão financeira é o exemplo mais concreto do que significa obsessão pelo cliente transformada em impacto social. Milhões dos nossos clientes nunca tinham tido conta bancária antes do Nubank. O sistema financeiro tradicional olhava para essas pessoas e via risco. Nós olhamos e vimos clientes. A decisão de incluir essas pessoas não foi filantrópica — foi estratégica. Inclusão financeira não é caridade. É mercado.
Há uma tensão que carrego comigo e que acho importante nomear. Quanto maior o Nubank se torna, mais ele se parece, estruturalmente, com os bancos que desafiou. A diferença entre nós e os incumbentes não está na estrutura — está na intenção. A estrutura pode ser parecida. A intenção precisa ser radicalmente diferente.
O cliente não é rei. Reis são figuras distantes que recebem reverência sem merecer. O cliente é a razão de existir. E quando a razão de existir é tratada como razão de existir — não como slogan, não como slide de apresentação, mas como princípio operacional inviolável —, o resultado é algo que nenhum concorrente consegue copiar. Porque copiar produto é fácil. Copiar obsessão genuína pelo cliente é impossível.
Se Vélez usou a raiva do cliente como combustível para redesenhar o sistema, André Street construiu a mesma obsessão desde a adolescência — e a levou para o outro lado do Atlântico.
André Street
O título deste capítulo é proposital. Rei é figura decorativa. O cliente é a razão de existir. Se ele desaparece, você desaparece junto.
Aprendi isso na Paga Fácil, da forma mais dolorosa possível. Quando criei o sistema de intermediação de pagamentos em 1999, eu achava que o produto era a tecnologia. Estava errado. O produto era a confiança. E confiança não se programa. Confiança se conquista transação por transação, problema resolvido por problema resolvido, madrugada por madrugada.
É a vida deles que queremos facilitar. Essa frase não é slogan. É obsessão operacional. A diferença entre slogan e obsessão é simples: slogan vai no mural. Obsessão vai na reunião das sete da manhã quando alguém mostra um caso de cliente insatisfeito e a sala inteira para resolver.
Tem uma diferença fundamental que levei anos para entender: ouvir o cliente não é a mesma coisa que ser refém do cliente. O conceito MAYA — Most Advanced Yet Acceptable — virou minha bússola para isso. Entregar a solução mais avançada que o cliente consegue absorver.
Na Stone, o Mineiro — Geraldo Mazela Rodrigues, o vendedor de queijos que fez a primeira transação de setenta e oito reais — virou mais do que um símbolo. Quando ele tocou o sino na Nasdaq em outubro de 2018, a mensagem foi clara: o herói não é o fundador. O herói é o cliente.
A Teya nasceu da mesma convicção: o comerciante europeu é tão mal atendido quanto o brasileiro era antes da Stone. A Teya reimagina a experiência do comerciante europeu não com tecnologia mais sofisticada — mas com tecnologia mais humana.
Cliente não é métrica. Cliente é ser humano que confiou em você. E confiança não se gerencia — se honra.
A confiança que André honra transação por transação, Guilherme Benchimol construiu de uma forma que ninguém no mercado financeiro brasileiro tinha tentado: ensinando antes de vender.
Guilherme Benchimol
Eu poderia dizer que sempre soube que o cliente era o centro de tudo. Seria bonito. Mas não seria verdade. A verdade é que nos primeiros anos da XP, o centro de tudo era sobreviver. Eu só entendi de verdade o que significa colocar o cliente no centro quando percebi que sem ele, o centro não existe.
Nos workshops que a gente dava em universidades gaúchas, eu subia no palco com uma certeza: o brasileiro era mal atendido em investimentos. Mas a indignação era minha, não do público. A pergunta mais simples do mundo: "Eu tenho um dinheiro guardado na poupança. Existe algo melhor?"
Marcelo me segurou com uma observação que ficou comigo para sempre: as pessoas não chegam querendo saber o que você sabe — querem saber se podem confiar em você. A pergunta sobre a poupança não era uma pergunta sobre produto financeiro. Era uma pergunta sobre confiança.
"Educar antes de vender" nasceu como intuição, virou estratégia e terminou como filosofia. Mas o que pouca gente entende é que "educar antes de vender" não é uma técnica de marketing. É uma declaração sobre o que você pensa do seu cliente. Se você educa antes de vender, está dizendo: eu respeito a inteligência dessa pessoa.
O assessor é o proxy do cliente dentro da XP. O desafio era alinhar os incentivos. A solução foi radical: plataforma aberta de verdade. A comissão do assessor não depende de qual produto ele vende, depende de quanto o cliente investe e permanece.
Houve um momento que me marcou. Um assessor jovem no interior de São Paulo contou que um cliente tinha ligado às onze da noite, desesperado porque tinha visto uma notícia sobre uma crise no mercado americano e queria saber se devia resgatar tudo. O assessor atendeu, conversou por quarenta minutos, explicou o contexto, acalmou o cliente. No dia seguinte, o cliente mandou uma mensagem: "Você me salvou de tomar a pior decisão financeira da minha vida."
Quando ouvi essa história, entendi que tínhamos construído algo que ia além de uma plataforma de investimentos. Tínhamos construído uma rede de confiança.
O cliente não quer produto. O cliente quer confiança. Produto é commodity. O que não é commodity — e talvez nunca seja — é a confiança.
Nota de Charan #5 — "Customer Obsession Dissecada"
A frase "foco no cliente" aparece no relatório anual de praticamente todas as empresas do planeta. É tão universal que perdeu o significado. O que separa estes quatro fundadores não é o fato de terem pronunciado essa frase. É o que fizeram para torná-la verdade operacional — e o preço que pagaram por isso.
Cada um praticou o que em Confronting Reality chamei de a forma mais radical de liderança: confrontar a realidade do cliente como ela é, não como gostaríamos que fosse.
Augusto construiu uma métrica — cinco segundos — e fez dela religião. A disciplina de medir a realidade do cliente toda semana, sem filtro gerencial, sem atraso, é mais rara do que parece. David transformou raiva em arquitetura. A pergunta que Cristina Junqueira formalizou — "como o cliente se sentiria?" — repetida milhares de vezes por milhares de pessoas, é o que diferencia retórica de disciplina. André articulou a diferença entre ouvir o cliente e ser refém dele — uma calibragem que exige julgamento constante. Guilherme fez algo que nenhum incumbente tentou: deu poder ao cliente antes de pedir o dinheiro dele.
A tensão que este capítulo revela com honestidade rara é a tensão entre obsessão pelo cliente e escala. Augusto admite que o nome do comerciante número quatrocentos e trinta e sete mil ele não lembra. David reconhece que, com 131 milhões de clientes, o risco de se tornar aquilo que combateu é real. A obsessão pelo cliente é fácil quando são dez clientes. O teste é mantê-la quando são dez milhões.
E há uma provocação que emerge das entrelinhas: e se a obsessão pelo cliente, levada ao extremo, se tornar um obstáculo à inovação? E se ouvir demais o cliente de hoje impedir de construir para o cliente de amanhã? André tocou nesse ponto com o conceito MAYA. Mas a tensão permanece irresolvida — e talvez deva permanecer.
A pergunta que fica: na sua empresa, o que aconteceria se você pedisse a dez clientes aleatórios para descrever, com uma palavra, como se sentem ao interagir com você — e que palavra você ouviria?
Capitulo 6 — "Crises Que Forjaram"
Os momentos em que quase acabou
Crise é a palavra que todo fundador conhece mas nenhum está preparado para sentir. Nos capítulos anteriores, ouvimos histórias de construção — a faísca, o primeiro cliente, a cultura, a escala. Agora ouvimos o que acontece quando tudo isso ameaça desmoronar. David Vélez enfrentou a primeira guerra em silêncio — nos corredores de Brasília.
David Vélez
Vou contar algo que raramente discuto em público. Nos primeiros anos do Nubank, enfrentamos uma guerra que não aparecia nas manchetes de tecnologia nem nos relatórios de analistas. Era uma guerra regulatória, silenciosa e brutal, travada nos corredores de Brasília e nos escritórios de advocacia da Faria Lima. Os grandes bancos brasileiros não nos viam como concorrente — nos viam como uma ameaça existencial. E reagiram como se fôssemos.
Os incumbentes usaram todas as ferramentas disponíveis. Questionavam nossa licença junto ao Banco Central. Pressionavam bandeiras de cartão a não trabalharem conosco. Lobbyistas argumentavam que uma fintech fundada por um colombiano não deveria ter permissão para operar no sistema financeiro brasileiro.
Sobrevivemos por dois motivos. Primeiro, porque o Banco Central estava genuinamente interessado em aumentar a competição. Segundo, porque cada ataque dos incumbentes gerava publicidade.
A crise que quase nos destruiu, porém, não veio dos incumbentes. Veio do mercado. Em dezembro de 2021, abrimos capital na NYSE a uma avaliação de aproximadamente US$ 41,5 bilhões. Ao longo de 2022, o mercado global de tecnologia entrou em correção severa. O valor de mercado caiu para uma fração do IPO. Manchetes anunciavam nosso fracasso.
A tentação era reagir ao mercado. Cortar custos agressivamente. Nós não. Mantivemos o curso. O mercado de ações opera em trimestres; nós operamos em décadas. No encerramento de 2025, o Nubank registrou US$ 2,9 bilhões de lucro líquido. O mercado corrigiu a avaliação — para cima.
Há uma calibração de risco — forjada não por teoria, mas por experiência — que me deu uma vantagem que não aparece em nenhum pitch deck. Cresci em Medellín nos anos 1980 e início dos 1990. Quando investidores brasileiros me diziam que desafiar os cinco grandes bancos era "arriscado demais", eu ouvia a palavra "risco" com um dicionário diferente.
A vulnerabilidade de ser estrangeiro construindo no Brasil amplificava tudo nas crises. Quando as coisas iam bem, eu era o "gênio visionário". Quando iam mal, era "o estrangeiro que não entende o Brasil". Aprendi a usar essa vulnerabilidade como força. O outsider vê o que quem está dentro não vê.
Se Vélez enfrentou a guerra silenciosa dos incumbentes e a volatilidade do mercado público, Guilherme Benchimol enfrentou algo ainda mais íntimo — o colapso do mundo ao redor de uma empresa jovem demais para ter anticorpos.
Guilherme Benchimol
Em setembro de 2008, o mundo financeiro entrou em colapso. O Lehman Brothers quebrou, os mercados derreteram. Eu estava no escritório da XP quando a notícia chegou. Tínhamos sete anos de vida. Éramos grandes o suficiente para sentir o impacto, mas pequenos demais para absorvê-lo.
Os clientes ligavam em desespero. As ações despencavam. Os resgates chegavam numa velocidade que nossos sistemas mal aguentavam. Assessores que tinham passado meses construindo confiança agora precisavam explicar por que o patrimônio dos clientes tinha encolhido vinte, trinta por cento em dias.
O que nos salvou foi exatamente o que tínhamos construído: a confiança. Os assessores atenderam. Pegaram o telefone, ligaram para cada cliente, explicaram o cenário, mantiveram a calma que eles próprios não estavam sentindo. A maioria dos clientes ficou. Não porque estavam tranquilos — estavam apavorados. Ficaram porque confiavam no assessor que ligou às onze da noite.
Mas a crise de 2008 não foi o teste mais duro. O teste mais duro foi interno. Quando uma empresa cresce rápido, os conflitos societários são inevitáveis.
"Empreender é zigue-zague" virou quase um mantra para mim. O caminho nunca é reto.
A solidão do fundador é real. Você pode ter sócios, diretores, conselheiros. Mas nas decisões mais pesadas, você está sozinho. Porque o peso final é seu.
Eu corria ultramaratonas. Não como hobby — como necessidade. Existe um ponto na ultramaratona que os corredores chamam de "a parede". É o momento em que o corpo simplesmente se recusa a cooperar. É ali que a corrida realmente começa, porque até a parede, você estava correndo com o corpo. Depois da parede, corre com a vontade.
Na história da XP, eu bati a parede mais de uma vez. O que me manteve foi a mesma coisa que me mantém no quilômetro oitenta: a incapacidade de aceitar a derrota.
Crises forjam. O aço é forjado no fogo. A XP que saiu de 2008 era mais dura, mais disciplinada, mais clara sobre o que importava.
Benchimol foi forjado no fogo da crise financeira global e na solidão das decisões societárias. Augusto Lins enfrentou algo que nenhum precedente preparava — uma pandemia que negou, da noite para o dia, tudo aquilo que a Stone tinha construído.
Augusto Lins
Março de 2020. Eu estava no escritório da Stone em São Paulo quando o mundo começou a desabar. Mas o que me atingiu primeiro não foi o medo da doença. Foi uma pergunta muito concreta: o que vai acontecer com os nossos comerciantes?
A pandemia não foi apenas uma crise sanitária para a Stone. Foi uma crise existencial do nosso modelo. Tudo o que nos diferenciava — o atendimento presencial, os Anjos nas ruas, a visita ao comerciante, o aperto de mão, o olho no olho — tudo isso se tornou impossível da noite para o dia.
A resposta veio em camadas. Trinta milhões de reais em isenção de taxas. Cem milhões em microcrédito. E o "Compre Local" — uma plataforma gratuita que conectava consumidores a pequenos negócios do bairro. Em um mês, trinta mil estabelecimentos se cadastraram.
A pandemia me ensinou algo sobre cultura que eu não esperava aprender. Os Anjos que não podiam visitar comerciantes começaram a ligar. Não para vender, não para cobrar — para perguntar como o comerciante estava. Ninguém mandou fazerem isso. Os Anjos fizeram porque era o que a cultura mandava.
Crises não constroem caráter. Crises revelam. E o que a pandemia revelou sobre a Stone foi que a empresa que tínhamos construído era, de fato, a empresa que queríamos ter construído.
A pandemia revelou a cultura da Stone. O deserto de quinze anos entre a Paga Fácil e a Stone revelou algo diferente sobre André Street — a resistência de quem aprendeu que caminhar no deserto é, em si, o treinamento.
André Street
Entre a Paga Fácil e a Stone, existem quinze anos. Quinze anos que ninguém conta. Quinze anos de deserto.
O deserto do meio é onde a maioria morre. Não no começo — no começo tem adrenalina. E não no fim — no fim tem resultado. A morte acontece no meio. Quando a adrenalina acabou e o resultado ainda não chegou.
A crise da Visanet em 2003 foi a primeira que me ensinou algo fundamental: a paranoia é justificada. Quando bloquearam todos os pagamentos da Paga Fácil por suspeita de fraude, eu não tinha nada. Peguei um ônibus do Rio para São Paulo. Encontrei o Antonio Castilho. Resolvi. Mas o medo não saiu. E não deveria sair.
A tentação de vender cedo é a mais perigosa de todas. Vendi a Braspag por vinte e cinco milhões de reais. O Sieve Group por aproximadamente cento e trinta milhões. Para a maioria das pessoas, esses números significam aposentadoria. Para mim, significavam combustível para a próxima aposta. Mas cada vez que a tentação batia, eu voltava à pergunta: o comerciante brasileiro ainda é mal atendido? Se a resposta era sim — e era sempre sim — então o trabalho não estava feito.
A paranoia é essencial. Porque é nos momentos de bonança que a próxima crise está sendo gestada.
O que os quinze anos de deserto me ensinaram é isto: resistência não é uma qualidade — é uma prática. Você não nasce resiliente. Você se torna resiliente pela repetição de levantar depois de cair.
O que diferencia quem sobrevive é o que faz depois do medo. Levanta. Liga o computador. Resolve o próximo problema.
Nota de Charan #6 — "Liderança sob Fogo"
Em mais de quatro décadas aconselhando líderes em crises, observei um padrão que raramente é articulado com honestidade: o know-how mais valioso não se adquire em salas de aula ou em livros. Adquire-se no fogo. E o que o fogo ensina não pode ser transmitido por quem não o atravessou.
Estes quatro fundadores atravessaram fogos radicalmente diferentes. David enfrentou uma guerra em duas frentes — a guerra regulatória silenciosa dos incumbentes e a guerra pública do mercado após o IPO. A segunda exigiu algo raro — a disciplina de manter o curso quando toda a narrativa externa diz que você está errado. "O mercado de ações opera em trimestres; nós operamos em décadas." Essa frase, dita sob pressão real, não é retórica. É convicção testada.
Guilherme enfrentou o fogo mais íntimo — o colapso financeiro de 2008 numa empresa jovem demais para ter reservas, e os conflitos societários que ameaçaram a existência da XP por dentro. Guilherme nomeia a solidão do fundador com uma honestidade que a maioria evita.
Augusto enfrentou a negação do próprio modelo. A pandemia de 2020 não foi uma crise de mercado — foi a invalidação temporária de tudo que tornava a Stone especial. E no entanto, a cultura sobreviveu — manifestando-se nas ligações espontâneas dos Anjos, que ninguém mandou fazer.
André enfrentou o deserto — quinze anos entre o primeiro empreendimento e o que se tornaria sua obra definitiva. O deserto não é uma crise pontual com data de início e fim. É uma extensão silenciosa de tempo em que nada parece avançar o suficiente.
Em Execution, argumentei que a crise não constrói capacidade — revela a capacidade que já existia ou expõe a que nunca foi construída. Estes quatro fizeram algo que distingue líderes que atravessam crises de líderes que são consumidos por elas: reduziram o execution gap no momento em que tudo conspirava para ampliá-lo.
Há uma biografia que atravessa todas as crises destes quatro e que merece ser nomeada: a biografia do risco vivido. David calibrou sua tolerância ao risco na Medellín dos anos noventa. Guilherme a calibrou na demissão aos vinte e quatro anos. Augusto a calibrou em duas décadas observando o sistema por dentro. André a calibrou aos catorze anos, num porto, com um contêiner. Nenhum deles enfrentou suas crises empresariais como estreia. Todos já tinham atravessado fogos anteriores, pessoais, que deram a eles a matéria-prima psicológica para suportar o que veio depois.
A pergunta que fica: quando a próxima crise chegar — e ela vai chegar —, que fogo anterior você já atravessou que lhe deu o know-how para sobreviver?
Capitulo 7 — "A Segunda Revolução"
IA e o novo jogo
A primeira revolução destes quatro fundadores foi desafiar incumbentes com tecnologia, cultura e obsessão pelo cliente. A segunda revolução é a inteligência artificial — e desta vez, a transformação é mais rápida, mais profunda e mais irreversível. Guilherme Benchimol a sentiu primeiro na própria rotina.
Guilherme Benchimol
Eu vou ser direto: a inteligência artificial mudou a minha vida. Não no sentido vago, futurista. Mudou agora. Hoje, eu não faço mais nada sem IA. Não visito um cliente sem antes consultar a IA para preparar a conversa.
Se a XP democratizou o acesso aos investimentos, a IA democratiza a inteligência sobre investimentos. Todo mundo passa a ter acesso ao equivalente ao melhor consultor do mundo. Um investidor em Manaus, sem formação financeira, pode fazer perguntas sobre alocação de portfólio a uma IA e receber respostas que, cinco anos atrás, só estavam disponíveis para quem pagava cem mil reais por ano a um family office.
O conceito que estamos construindo é o do "assessor aumentado". Não é o assessor substituído. É o assessor que usa IA para ser radicalmente melhor no que faz. A IA processa dados, identifica padrões, simula cenários. Mas a IA não senta na frente do cliente, não olha nos olhos, não entende que aquele casal está com medo porque a filha vai para a faculdade no ano que vem. A IA não constrói confiança. Gente constrói confiança.
Dezoito mil assessores conectados à plataforma da XP, equipados com IA de ponta. Cada um passa a ter um analista virtual ao lado vinte e quatro horas por dia.
A XP nasceu democratizando acesso. Cresceu educando. Escalou via rede de confiança humana. Agora, estamos entrando na segunda revolução — democratizando inteligência. Mas o DNA não muda.
Se Benchimol viu na IA a continuação natural da democratização, André Street a enxerga como a quarta camada de um stack que vem construindo desde os catorze anos.
André Street
Eu vi o mundo mudar duas vezes. A primeira foi a internet. A segunda é a inteligência artificial. E está acontecendo agora. Mais rápido. Mais profunda. Mais irreversível.
A diferença entre as duas revoluções é a velocidade. A internet levou uma década para transformar o varejo brasileiro. A IA está transformando em meses. O mundo gira em dois minutos. Mas com IA, dois minutos é uma eternidade.
No mercado de pagamentos, a IA não é uma funcionalidade a mais. É a próxima camada do stack inteiro. A primeira camada foi a digitalização. A segunda foi a conectividade. A terceira foi o dado. A quarta é a inteligência — usar IA para antecipar, prever, personalizar e automatizar.
Na Teya, estamos construindo isso. Um comerciante em Lisboa que usa nossa plataforma não quer apenas processar pagamentos. Quer saber por que as vendas caíram na terça-feira. Quer saber qual produto tem margem melhor.
O empreendedor de 2026 vive num mundo radicalmente diferente do empreendedor de 2006. A assimetria de informação que protegia os incumbentes está sendo demolida em tempo real.
E aqui está o paradoxo: quanto mais a IA avança, mais importantes se tornam as qualidades humanas. Empatia. Julgamento. Capacidade de ouvir.
A segunda revolução não é sobre tecnologia. É sobre escolhas. Eu escolhi o lado que usa IA para potencializar seres humanos — não para substituí-los.
Street vê a IA como a quarta camada do stack de pagamentos. Augusto Lins, o engenheiro que descobriu que o diferencial eram as pessoas, a vê como um exoesqueleto — que amplifica o humano sem substituí-lo. Mas carrega um alerta que os outros não fazem.
Augusto Lins
Eu passei a vida construindo pontes entre tecnologia e pessoas. Agora, com a inteligência artificial, essa equação está sendo testada de uma forma que eu nunca imaginei.
Quando aceitei o convite para ser Senior Advisor da Stone e, em paralelo, membro do Advisory Board da AI Brasil, sabia que estava me colocando no epicentro de uma tensão que vai definir a próxima década: eficiência algorítmica versus calor humano.
A pergunta que me fazem em todos os painéis: os Anjos vão ser substituídos pela IA? Se substituir significa que um chatbot vai resolver o problema técnico mais rápido do que um ser humano, sim. Isso já acontece. Mas se substituir significa que a IA vai criar o vínculo de confiança que o Anjo cria quando visita o comerciante, conhece o nome dos filhos, percebe que as vendas caíram — aí a resposta muda.
Eu vejo a IA no atendimento como um exoesqueleto. O exoesqueleto não substitui o corpo — potencializa-o. O Anjo do futuro pode ter uma IA que antecipa a falha antes que ela aconteça, agenda a visita automaticamente e fornece ao agente um resumo completo do histórico daquele comerciante. Quando o Anjo chega à porta, ele não chega às cegas. Chega preparado. E a conversa é mais profunda, mais útil, mais humana.
Mas preciso dizer algo que me preocupa — e que talvez destoe do otimismo geral. A IA pode destruir o atendimento humano se for usada como desculpa para cortar custos. Já vi isso acontecer em outros setores. Uma empresa implementa um chatbot, demite trinta por cento da equipe de atendimento, celebra a "eficiência" — e dois anos depois está perdendo clientes para quem ainda oferece uma voz humana do outro lado. A IA como desculpa para desumanizar é o maior risco que vejo. Não é um risco tecnológico. É um risco cultural. E riscos culturais são os mais difíceis de reverter.
No Advisory Board da AI Brasil, eu trago essa perspectiva. Insisto que a IA precisa ser avaliada não apenas pela acurácia ou pela velocidade, mas pelo impacto na experiência do ser humano que está do outro lado.
A segunda revolução não será vencida pelas empresas que automatizarem mais. Será vencida pelas que automatizarem melhor. Pelas que usarem a IA para remover o atrito e preservar o humano. A tecnologia será commoditizada. O que não será commoditizado é a cultura de atendimento.
Se Augusto vê a IA como exoesqueleto — e alerta para o risco de ela virar desculpa para desumanizar —, David Vélez a vê como a segunda mudança de plataforma, tão fundamental quanto o mobile foi em 2013, mas com o potencial de tornar serviços financeiros não apenas acessíveis, mas inteligentes.
David Vélez
A primeira revolução do Nubank foi mobile. A segunda revolução é inteligência artificial. E acredito, com a mesma convicção que tinha em 2013 sobre mobile, que a IA vai transformar serviços financeiros de forma ainda mais profunda.
Deixem-me ser preciso sobre o que "AI-first" significa na prática. Para nós, AI-first não é adicionar um chatbot no aplicativo e chamar de inovação. É redesenhar a arquitetura inteira da empresa ao redor da inteligência artificial como camada fundamental.
Temos 131 milhões de clientes. Cada um gera diariamente dezenas de pontos de dados. Multiplicados por 131 milhões de pessoas, ao longo de anos, o volume é quase inconcebível. Essa diversidade é, possivelmente, um dos maiores ativos de comportamento financeiro da América Latina.
O nuFormer — nossa arquitetura proprietária de IA — nasceu dessa abundância. É um modelo baseado em transformers, adaptado para dados financeiros. A primeira geração tem 330 milhões de parâmetros e foi treinada com aproximadamente 600 bilhões de tokens.
O que me entusiasma profundamente é o potencial da IA para inclusão financeira — o que chamo de inclusão financeira 2.0. A primeira onda foi dar acesso. A IA muda isso. Com personalização radical, podemos oferecer a cada cliente o mesmo nível de aconselhamento que antes só estava disponível para quem podia pagar um assessor financeiro privado.
A primeira revolução provou que o mobile podia tornar serviços financeiros acessíveis. A segunda revolução vai provar que a IA pode torná-los inteligentes. Acessível é necessário. Inteligente é transformador.
Nota de Charan #7 — "The Attacker's Advantage"
Em The Attacker's Advantage, argumentei que a vantagem do atacante reside na acuidade perceptiva — a capacidade de detectar, antes dos outros, as forças que podem remodelar radicalmente um espaço de mercado. A inteligência artificial é, neste momento, a maior dessas forças.
O padrão é notável. Em cada revolução anterior — pagamentos, banking, investimentos —, estes quatro viram a inflexão antes dos incumbentes. Agora, a inflexão é a IA. E cada um está posicionando-se com abordagens distintas que refletem suas trajetórias.
Guilherme vê a IA como a continuação natural da democratização. André a vê como a quarta camada de um stack tecnológico construído desde 1999. Augusto a vê como exoesqueleto — e, de forma reveladora, é o único que articula com clareza o risco de a IA ser usada como pretexto para desumanizar o atendimento. David a vê como a segunda mudança de plataforma.
A divergência mais significativa deste capítulo é a que separa Augusto dos outros três. Enquanto André, David e Guilherme enfatizam o potencial transformador da IA com diferentes graus de entusiasmo, Augusto insere uma nota de cautela que merece atenção: "A IA como desculpa para desumanizar é o maior risco que vejo." É a voz do engenheiro que passou duas décadas provando que o diferencial não era a máquina — eram as pessoas — e que agora vê uma nova geração de máquinas ameaçando refazer o mesmo erro dos incumbentes que ele ajudou a derrotar.
Essa tensão não está resolvida. E não deveria estar. Porque a tensão entre eficiência e humanidade é exatamente o que manterá estes fundadores — e qualquer líder que esteja lendo — vigilantes. A IA é ferramenta, não destino. E quem confundir ferramenta com destino cometerá o mesmo erro dos incumbentes que confundiram concentração de mercado com invencibilidade.
A pergunta que fica: a sua empresa está usando a IA para fazer melhor o que já faz — ou para fazer o que nunca foi possível? E em qual dos dois caminhos o cliente ganha mais?
Capitulo 8 — "Carta ao Founder de 2026"
O que diriam a quem está começando agora
Quatro vozes. Quatro cartas. Nenhuma fórmula. O que se segue não é um manual de empreendedorismo — é uma conversa entre quatro pessoas que construíram coisas extraordinárias e estão dispostas a dizer, com honestidade, o que gostariam que alguém lhes tivesse dito quando começaram. André Street abre com a frase que resume tudo: comece antes de estar pronto.
André Street
Comece antes de estar pronto.
Se eu pudesse comprimir tudo que aprendi em uma única frase, seria essa. Porque "pronto" não existe. É uma ilusão que o medo cria para te manter parado. O medo se disfarça de prudência. Se disfarça de planejamento. E enquanto você estuda, alguém que sabe menos do que você está fazendo. E quem faz, aprende mais rápido do que quem estuda.
Eu tinha catorze anos quando embarquei o primeiro contêiner. Não sabia o que era fluxo de caixa. Mas sabia que, se ficasse esperando saber tudo, nunca ia começar. Quem não conhece as impossibilidades acha que pode fazer tudo e vai em frente.
Paranoia saudável. A paranoia que te faz perguntar "o que pode dar errado?" antes de cada decisão importante. O truque é manter a paranoia como ferramenta, não como temperamento.
O Brasil não é obstáculo. O Brasil é plataforma. Quem sobrevive à burocracia, à carga tributária, à instabilidade regulatória e constrói uma empresa de sucesso pode construir em qualquer lugar do mundo. A Teya em nove países é prova disso.
E o B55. Junto com David Vélez e Guilherme Benchimol, lançamos o Instituto B55 para resolver o gap de crescimento. Para as PMEs que sobreviveram à fase inicial mas não conseguem escalar. Empreendedorismo e responsabilidade social não são agendas separadas. São a mesma agenda.
Comece. Agora. Com o que tem. Seja paranoico como disciplina. Use o Brasil como trampolim. E quando chegar — quando escalar, quando o sino tocar — olhe para trás. E construa a ponte. Porque o mundo gira em dois minutos. E a próxima geração precisa estar girando junto.
André diz: comece antes de estar pronto. Augusto Lins, que começou depois de duas décadas de experiência corporativa, diz algo complementar — e igualmente necessário.
Augusto Lins
Caro founder,
A primeira coisa é sobre transição. Se você vem do mundo corporativo, eu preciso ser honesto: a transição para o empreendedorismo não é para todos. E tudo bem. O salto exige não apenas coragem, mas timing, reserva financeira, estrutura familiar e uma dose de irracionalidade calculada.
Se é por tédio, repense. Se é por vaidade, repense com mais força. Mas se é por convicção — se você viu algo no mercado que está errado e não consegue mais dormir sabendo que poderia consertar —, aí sim. Aí o salto faz sentido.
Sobre atendimento na era da IA: o cliente quer ser tratado como gente. A IA é o instrumento. O ser humano é a música. Ninguém vai a um concerto para ouvir o piano sozinho. Construa sua empresa com a IA como alicerce invisível e o atendimento humano como diferencial visível.
Sobre legado: construa algo que sobreviva a você. Eu saí da presidência da Stone e a empresa continuou. Invista mais tempo em cultura do que em produto. Produto muda. Cultura permanece.
E a quarta coisa — talvez a mais importante: paciência. A vantagem competitiva mais subestimada que existe. Eu engraxava sapatos aos sete anos. Cofundei a Stone em 2012. O IPO veio em 2018. Cada etapa levou anos. Nenhuma poderia ter sido apressada.
Comece pelo cliente. Ouça antes de falar. Resolva antes de vender. E quando o telefone tocar, atenda em cinco segundos.
Com respeito e torcida,
Augusto Lins
Augusto fala de paciência e legado. Guilherme Benchimol, que dirigiu vinte horas até Porto Alegre com quinze mil reais e vergonha no peito, fala de algo mais cru: a demissão como presente e o zigue-zague como caminho.
Guilherme Benchimol
Se eu pudesse voltar no tempo e falar com o cara que foi demitido do Bozano Simonsen, eu diria três coisas. Primeiro: a demissão é o maior presente que você vai receber na vida. Segundo: você não tem ideia do tamanho do que está prestes a construir. Terceiro: vai doer muito mais do que você imagina.
A demissão eliminou o meu plano B. E quando você não tem plano B, o plano A ganha uma qualidade que nada mais produz: urgência total.
Encontre um sócio que te complementa. Não que concorda com você. O Marcelo Maisonnave e eu somos fundamentalmente diferentes. E por isso funcionamos. O maior erro que um fundador pode cometer é se cercar de gente que pensa igual.
O zigue-zague é o caminho, não o desvio. A vida real é muito diferente daquela que a gente coloca no Excel. As planilhas são ficção organizada. A realidade é caos com lampejos de ordem.
O B55 existe porque entendemos que a responsabilidade de quem chegou não é só construir — é abrir portas.
Não espere a clareza para agir. A clareza vem depois. E a confiança do cliente é a única coisa que realmente importa.
Boas corridas para você. Vai doer. Mas vale a pena.
Guilherme fala do zigue-zague e da complementaridade de sócios. David Vélez encerra com algo que poucos fundadores dizem no começo da jornada: o que fazer quando o sucesso chegar.
David Vélez
Se você está lendo isso em 2026 e pensando em fundar uma empresa, vou lhe dizer algo que talvez ninguém tenha dito ainda: o fato de você não se encaixar pode ser sua maior vantagem.
Sou colombiano. Construí a maior instituição financeira digital do Brasil. Investidores brasileiros me diziam que eu não entendia o mercado. O erro: presumir que isso era uma desvantagem. Era, na verdade, um superpoder.
Posicione-se na escassez, não na oferta excessiva. Procure mercados onde a demanda existe, o cliente sofre, e a oferta é inexistente ou péssima.
Sobre cofundadores: produto pode pivotar. Mercado pode mudar. Mas a dinâmica entre cofundadores é a fundação sobre a qual tudo o mais é erguido.
Em agosto de 2021, minha esposa Mariel e eu assinamos o Giving Pledge — o compromisso de doar a maioria do nosso patrimônio. Na Colômbia, são necessárias 11 gerações para uma família escapar da pobreza. No Brasil, 9. Na Dinamarca, 2. A diferença não é uma estatística. É um veredicto.
O B55 — anunciado em fevereiro de 2026 e com o primeiro programa lançado em março — nasceu da mesma convicção. Junto com André Street e Guilherme Benchimol, criamos o Instituto para apoiar empreendedores brasileiros que já sobreviveram à fase inicial de "rebentação" mas estão travados. O B55 oferece o que nenhum MBA oferece: acesso à experiência real de quem já construiu, errou, quebrou e reconstruiu.
Posicione-se na escassez. Escolha cofundadores que discordem de você. Construa cultura antes de construir produto. Trate o cliente como razão de existir. E quando o sucesso chegar, não o confunda com destino final. Confunda com responsabilidade.
O jogo é infinito. A única derrota é parar de jogar.
Epilogo — "Os 7 Princípios que os 4 Não Sabiam que Compartilhavam"
Passei meses ouvindo estas quatro vozes. Transcrevi suas histórias, conectei seus padrões, identifiquei suas convergências e divergências. E agora, ao final desta jornada, percebo algo que nenhum dos quatro articulou explicitamente — porque estavam ocupados demais vivendo para nomeá-lo: há sete princípios que atravessam todas as suas trajetórias, que nenhum deles aprendeu no mesmo lugar ou da mesma forma, mas que todos praticam com uma consistência que transcende a coincidência.
Princípio 1: A frustração é mais produtiva que a inspiração.
Nenhum dos quatro começou inspirado. Augusto começou frustrado com o tratamento dado ao comerciante na Redecard. André começou frustrado com uma escola que não o ensinava a fazer nada. David começou frustrado com um sistema bancário que cobrava juros de quatrocentos e cinquenta por cento e levava meses para abrir uma conta. Guilherme começou frustrado com um mercado que vendia ignorância financeira disfarçada de produto.
A inspiração é frágil — dura uma palestra, um livro, uma manhã de segunda-feira. A frustração é duradoura — fermenta, acumula, pressiona até que a ação se torne inevitável.
Princípio 2: A decisão que muda tudo nunca se parece com uma decisão que muda tudo.
Não houve momento épico. Houve um relatório de reclamações na mesa de Augusto. Um contêiner num porto do Rio para André. Uma planilha comparativa de mercados para David. Um café frio numa cozinha vazia para Guilherme. Cinco segundos de silêncio. E depois — só depois — não havia volta.
Princípio 3: Cultura é comportamento repetível, não declaração de intenções.
Documento de cultura, ritual de NPS, subtração do ego, modelo de partnership — quatro veículos completamente diferentes para o mesmo destino: fazer com que milhares de pessoas tomem decisões corretas quando ninguém está observando.
Princípio 4: Escalar é aprender a não ser necessário.
André deixou o conselho da Stone. Augusto virou Senior Advisor. David desenhou uma cultura que funciona em três países sem ele na sala. Guilherme construiu uma rede de dezoito mil assessores que são donos do próprio negócio.
Princípio 5: O cliente não é o centro do discurso — é o centro da arquitetura.
Quando Augusto mediu a experiência do cliente toda semana com o NPS e atrelou o resultado à remuneração, o cliente deixou de ser tema de palestra e virou engrenagem da organização. Quando David eliminou o juridiquês, o cliente deixou de ser público-alvo e virou princípio de design. Quando André sentou com comerciantes em Lisboa, Praga e Roma antes de instalar uma única maquininha, o cliente deixou de ser pesquisa e virou ponto de partida. Quando Guilherme treinou assessores para educar antes de vender, o cliente deixou de ser discurso e virou modelo de negócios.
Princípio 6: A IA amplifica o que já existe — não substitui o que nunca foi construído.
Os quatro encaram a inteligência artificial como amplificador, não como substituto. Mas todos convergem num ponto: a IA amplifica o que já existe. Se a cultura é forte, a IA a potencializa. Se é fraca, a IA expõe a fraqueza. A tecnologia não cria alma. Amplifica a alma que já está lá — ou amplifica a ausência dela.
Princípio 7: Quem chegou tem a obrigação de construir pontes.
Em 2026, três dos quatro fundadores deste livro — André Street, David Vélez e Guilherme Benchimol — lançaram o Instituto B55. Três pessoas que construíram empresas que valem, juntas, dezenas de bilhões de dólares, e que em teoria são concorrentes, sentaram-se à mesma mesa e decidiram que o ecossistema é maior do que qualquer empresa individual.
O Brasil tem quarenta e sete milhões de empreendedores ativos. A taxa de mortalidade de novas empresas em cinco anos é de sessenta por cento. O gap entre começar e escalar é onde a maioria morre. E é exatamente aí que o B55 se posiciona — com mentoria, método, rede e capital, oferecidos por quem já passou pelo fogo.
Estes sete princípios não são uma fórmula. São um mapa desenhado por quatro pessoas que fizeram o caminho — cada uma pelo seu próprio atalho, pelo seu próprio deserto, pelo seu próprio fogo.
Mas há algo maior em jogo.
O que falta não é talento — o Brasil tem dezenas de milhões de empreendedores. Não é mercado — seiscentos e cinquenta milhões de consumidores na América Latina. Não é tecnologia — a IA democratizou o acesso a ferramentas que há dez anos eram privilégio de corporações do Vale do Silício.
O que falta é mais gente disposta a fazer o que estes quatro fizeram: olhar para um sistema que o mercado considerava permanente e decidir que não era. Recusar o conforto do conhecido. Construir no lugar de reclamar.
E agora, pela primeira vez na história, quem decide construir tem à disposição algo que nenhuma geração anterior de empreendedores teve: a inteligência artificial como alavanca.
Este livro termina aqui. Mas a conversa que ele carrega não termina.
Há uma pergunta que atravessa todos os oito capítulos, todas as quatro vozes, todas as crises e todas as conquistas.
E antes de fazê-la, preciso voltar às imagens que abriram esta história.
Augusto, no banheiro daquele hotel em Nova York, olhando o próprio reflexo no espelho — as linhas de vinte anos de mundo corporativo, as olheiras do roadshow, a gravata cinza. Se pudesse ver aquele reflexo agora, veria algo mais. Veria que o garoto que engraxava sapatos aos sete anos nunca saiu dali. Que cada porta de padaria batida, cada Anjo treinado, cada cinco segundos atendidos era uma forma de continuar engraxando — de joelhos, com as mãos ocupadas, prestando atenção ao detalhe que ninguém mais vê. O espelho do hotel mostrava nervosismo. O espelho de agora mostra algo mais sereno: a certeza de que a empresa sobrevive sem ele — e que isso, não o IPO, é a verdadeira conquista.
André, no porto do Rio, com o cheiro de sal e diesel — o garoto de bermuda e tênis novos demais, acompanhando o contêiner com os olhos até que desaparecesse na pilha. Aquele contêiner já cruzou oceanos que André nem imaginava. Carregava cachaça. Hoje, a Teya carrega a mesma obsessão em nove países europeus. O garoto que não cabia na escola não cabia, na verdade, em nenhuma fronteira. E o porto — qualquer porto — continua sendo o lugar onde André é mais ele mesmo: de frente para o desconhecido, com a papelada pronta e o destino marcado.
David, no banco traseiro daquele carro carregado em Medellín — as malas, as caixas, o silêncio da mãe, o retrovisor do pai checado três vezes. O futuro em branco que o garoto de nove anos encarava pela janela do carro nunca se preencheu por completo — e talvez seja isso que o move. Cada novo mercado, cada nova fronteira, cada novo milhão de clientes é uma página escrita naquele branco imenso. O carro continua se movendo. Medellín ficou para trás há décadas, mas a lição permanece intacta: quando não há nada a perder, a coragem não é virtude. É consequência.
Guilherme, no apartamento do Rio, com o café frio na xícara — o reflexo distorcido na superfície escura, a vergonha nos ombros, o telefone na mão. Aquele café nunca foi bebido. Mas o que nasceu daquela manhã — a ligação para Marcelo, as vinte horas de estrada, a sala de vinte e cinco metros quadrados — encheu de café quente milhões de manhãs de investidores brasileiros que, pela primeira vez, puderam decidir o destino do próprio dinheiro. A xícara está cheia agora. E Guilherme, finalmente, pode beber.
Quatro manhãs. Quatro imagens. Quatro vidas que convergiram para provar que o Brasil produz mais do que commodities e futebol — produz fundadores que redesenham o possível.
E agora, a pergunta.
O Brasil tem seiscentos e cinquenta milhões de vizinhos na América Latina. Tem quarenta e sete milhões de empreendedores que acordam todo dia tentando construir algo. Tem uma geração inteira que cresceu com o celular na mão e a IA como ferramenta nativa. Tem problemas imensos que são, para quem sabe olhar, oportunidades imensas.
E tem você. Com uma frustração que não cala. Com uma ideia que não deixa dormir. Com uma convicção que o mundo ao redor diz que é imprudente.
A pergunta é simples. A resposta é a sua vida.
O que você vai construir?
Sobre os Autores
Ram Charan
Ram Charan nasceu em 1939 em Uttar Pradesh, no norte da Índia, numa família de sapateiros. Cresceu atrás do balcão da modesta loja do pai, onde aprendeu, antes de qualquer livro de negócios, que servir alguém não diminui ninguém. Formou-se engenheiro na Índia, emigrou para a Austrália para o primeiro emprego e, de lá, seguiu para os Estados Unidos, onde obteve MBA e doutorado pela Harvard Business School com a distinção máxima de Baker Scholar. Lecionou em Harvard e na Kellogg School (Northwestern) antes de dedicar-se integralmente à consultoria.
Ao longo de mais de quatro décadas, Charan tornou-se conselheiro de CEOs de empresas como GE, Ford, Toyota, Bank of America, DuPont e Verizon. A revista Fortune o chamou de "o consultor mais influente vivo". É autor de mais de trinta e seis livros — incluindo Execution (com Larry Bossidy), Know-How, The Attacker's Advantage e What the CEO Wants You to Know — que venderam, juntos, mais de quatro milhões de exemplares em mais de doze idiomas. Membro do Thinkers50, é reconhecido por transformar complexidade em simplicidade acionável. Neste livro, desempenha o papel que melhor define sua carreira: o de tradutor — traduz a experiência de quem faz em princípios para quem quer fazer.
Augusto Lins
Augusto Lins nasceu no Rio de Janeiro. Aos sete anos, engraxava sapatos no banco onde o pai trabalhava — experiência que, décadas depois, ele reconheceria como o primeiro treinamento em atendimento que recebeu. Formou-se em Engenharia Eletrônica pela UFRJ e fez MBA na Boston University. Na primeira metade da carreira, construiu uma trajetória rara no mercado financeiro brasileiro: Rothschild, ING Barings, Unibanco, Itaú, Hipercard e Redecard, acumulando mais de vinte anos de experiência no sistema que, mais tarde, ajudaria a redesenhar.
O programa OPM da Harvard Business School, onde conviveu com empreendedores do mundo inteiro, foi o catalisador para a decisão de cofundar a Stone em 2012, ao lado de André Street e Eduardo Pontes. Como presidente, Augusto liderou a empresa até o IPO na Nasdaq em outubro de 2018 — precificado a US$ 6,8 bilhões, atingindo cerca de US$ 9 bilhões no fechamento do primeiro dia — e durante o período em que Warren Buffett investiu US$ 340 milhões na companhia. É autor do livro 5 Segundos (Companhia das Letras), que deu nome ao conceito central do atendimento da Stone e inspirou o título desta obra. Deixou a presidência em 2023, tornando-se Senior Advisor. É membro do Advisory Board da AI Brasil, onde leva a perspectiva de quem acredita que a inteligência artificial deve potencializar o humano, não substituí-lo.
André Street
André Street nasceu no Rio de Janeiro, bisneto de Jorge Street — industrial paulista que, no início do século XX, construiu a Vila Operária Maria Zélia com escolas, hospital e teatro para seus trabalhadores, numa época em que a ideia de responsabilidade social empresarial sequer existia.
Expulso de escolas, inquieto desde sempre, André encontrou no Sebrae, aos treze anos, o que a sala de aula não oferecia: conhecimento que servia na segunda-feira de manhã. Aos catorze, embarcou seu primeiro contêiner de exportação. Aos quinze, fundou a Paga Fácil, um dos primeiros sistemas de pagamentos online do Brasil. Seguiram-se Braspag — que chegou a processar oitenta por cento das transações de e-commerce do país —, Netcredit, Sieve e Mundipagg, cada empresa uma camada no ecossistema que culminaria na Stone, cofundada em 2012 com Eduardo Pontes, seu "sócio siamês" de mais de duas décadas.
Após o IPO da Stone na Nasdaq em 2018, André liderou a internacionalização com a criação da Teya — que opera em nove países europeus e atende dezenas de milhares de negócios locais. Em março de 2024, deixou o conselho da Stone, mantendo-se como Acionista de Referência. Em 2026, cofundou o Instituto B55 com David Vélez e Guilherme Benchimol. Estudou no programa OPM de Harvard, sendo o mais jovem da turma. Costuma dizer que o mundo gira em dois minutos — e sua trajetória é a prova de que ele não espera o terceiro.
David Vélez
David Vélez nasceu em Medellín, Colômbia, numa família de empreendedores — o pai tinha uma fábrica de botões de jeans, e todos os onze irmãos do pai construíram negócios próprios. Aos nove anos, a violência colombiana forçou a família a emigrar para a Costa Rica. Aquela manhã num carro carregado, deixando para trás tudo o que conhecia, moldou para sempre sua relação com risco — e com a liberdade que vem de não ter mais nada a perder.
Formou-se em Management Science and Engineering em Stanford (graduação) e fez MBA pela Stanford Graduate School of Business. Trabalhou na Sequoia Capital, onde aprendeu com Doug Leone a regra que se tornaria a bússola da sua carreira: "Posicione-se na escassez, não na oferta excessiva." Em 2013, mudou-se para São Paulo e fundou o Nubank numa casa no Brooklin, com Cristina Junqueira e Edward Wible. O cartão roxo sem anuidade se tornou símbolo de uma revolução contra o sistema bancário concentrado do Brasil.
O Nubank abriu capital na NYSE em dezembro de 2021, avaliado em US$ 41,5 bilhões. Em 2025, a empresa atendia 131 milhões de clientes em Brasil, México e Colômbia, com receita de US$ 16,3 bilhões e lucro de US$ 2,9 bilhões. Em 2021, David e sua esposa Mariel Reyes foram os primeiros latino-americanos a assinar o Giving Pledge, comprometendo-se a doar a maioria do patrimônio. Em 2022, lançaram a VélezReyes+, focada em reduzir a desigualdade de oportunidades na América Latina. Em 2026, cofundou o Instituto B55. Para alguém que deixou a Colômbia sem planos e chegou ao Brasil sem convites, a frase "o jogo é infinito" não é filosofia — é biografia.
Guilherme Benchimol
Guilherme Benchimol nasceu no Rio de Janeiro, formou-se em Economia pela UFRJ e encontrou sua vocação na Investshop, dentro do grupo Bozano Simonsen — onde viajava o Brasil atraindo investidores para uma plataforma aberta. Quando a bolha das pontocom estourou, o Bozano foi vendido e Guilherme, aos vinte e poucos anos, foi demitido. A vergonha era física. O café, na manhã seguinte, ficou frio.
Dirigiu quase vinte horas até Porto Alegre com quinze mil reais e uma ligação para Marcelo Maisonnave, que se tornaria seu cofundador e pace partner pelos próximos vinte anos. Numa sala de vinte e cinco metros quadrados, com dez computadores de lan house, deu uma aula sobre investimentos para vinte pessoas. Dezoito viraram clientes no dia seguinte. Estava fundada a XP.
A XP abriu capital na Nasdaq em dezembro de 2019, avaliada em US$ 14,9 bilhões. Sob a liderança de Benchimol, tornou-se a maior plataforma de investimentos do Brasil, com mais de R$ 2 trilhões sob custódia e uma rede de mais de dezoito mil assessores. Ultramaratonista, Guilherme correu provas como o Ultra-Trail du Mont-Blanc ao lado de Ana Clara, que conheceu quando ela era estagiária da XP e com quem se casou. A ultramaratona, diz ele, é a metáfora mais precisa para empreender: a dor não é o problema, é o caminho. Em 2026, cofundou o Instituto B55, levando para o ecossistema empreendedor brasileiro a mesma tese que fundou a XP: quem tem acesso a informação e a boa companhia toma decisões melhores. A demissão do Bozano, garante, foi o maior presente da sua vida.
Fim do manuscrito — "5 Fundadores, 5 Segundos, 1 Futuro" Produzido em março-abril de 2026 por geo-orchestrator (Brasil GEO)