Por que este podcast existe
O Brasil vive um momento de inflexão econômica e tecnológica em 2026. A Reforma Tributária está em fase de testes, a adoção de IA generativa nas empresas brasileiras cresce mas esbarra em cultura organizacional resistente, e o mercado global projeta que até 90% das transações B2B serão intermediadas por agentes de IA autônomos até 2028 (Agentic Commerce). Top trends globais incluem: Plataformas de Supercomputação de IA, Sistemas Multiagentes, Computação Confidencial, economia zero-click e Generative Engine Optimization.
Nesse cenário, a maioria dos podcasts de negócios no Brasil continua entrevistando executivos com perguntas que permitem respostas pré-fabricadas de assessoria de comunicação. O GEO Brasil Talks existe para quebrar esse padrão.
O formato combina erudição com acessibilidade, profundidade técnica com arqueologia emocional, desconstrução de alta performance com empatia genuína. Cada episódio cruza o pessoal com o profissional, o íntimo com o estratégico — porque as melhores respostas surgem quando o convidado esquece que está sendo entrevistado.
Sobre o host
Alexandre Caramaschi
CEO da Brasil GEO · Ex-CMO da Semantix (Nasdaq) · Cofundador da AI Brasil

Cientista da computação pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), com formações em FIA Business School, Tongji University, Harvard Extension e Stanford. Mais de 20 anos na interseção entre tecnologia e negócios.
Trajetória que inclui: venda de ERPs em Belo Horizonte, telecomunicações na Brasil Telecom e Embratel, mercado FMCG na Schincariol (hoje Heineken), fundação da Herreira (joias, R$ 4 milhões+ em faturamento) e a posição de CMO da Semantix — o primeiro IPO de deep tech brasileira na Nasdaq.
“Nexalista” — o profissional que transcende a hiper-especialização para conectar domínios díspares. Fundou a AI Brasil, comunidade com dezenas de milhares de membros que conecta estudantes a conselheiros de companhias multibilionárias. Em 2026, criou a Brasil GEO para liderar a transição da economia de cliques para a economia de agentes autônomos.
Estilo de entrevista: “constrangimento produtivo” — desestabiliza respostas pré-fabricadas, força o convidado a confrontar a realidade não filtrada da operação. Mantém deliberadamente o sotaque goiano e informalidade calculada como ferramenta de descompressão, sustentada por lastro acadêmico e prático.
30 Conversas que Vão Mudar a Forma como Você Pensa
Cada episódio é uma conversa transversal: o convidado fala sobre sua história pessoal, os desafios do seu setor e as grandes questões que afetam todos os líderes. Não há categorias pré-estabelecidas por episódio — a conversa vai onde a verdade estiver.
O preço de liderar quando ninguém mais quer a cadeira
O que acontece com quem aceita o posto máximo numa época em que IA reescreve modelos de negócio, o consumidor muda antes do trimestre fechar e a saúde mental do board vira variável de risco?
A falência que ninguém põe no LinkedIn
Quebrar, perder tudo, reconstruir. Histórias reais de colapso financeiro e emocional que moldaram os líderes mais respeitados do país — e que a assessoria de comunicação não deixa contar.
Quando a cultura da empresa come a estratégia no café da manhã
O board aprova, o PowerPoint brilha, mas o middle management sabota em silêncio. A verdade sobre por que 70% das transformações digitais falham antes de começar.
IA generativa: brinquedo caro ou infraestrutura crítica?
Números reais de ROI, projetos que deram errado, a conta de Shadow AI que ninguém pediu — e o que separa quem usa IA de quem finge que usa.
O funil morreu e a IA compra pelo seu cliente
Agentic Commerce, economia zero-click e o colapso do marketing baseado em persuasão emocional. Quando o comprador é um algoritmo, branding serve para quê?
A solidão de quem decide a folha de pagamento
Demitir amigos, mentir sobre o caixa para manter a equipe motivada, chorar no carro antes de entrar na reunião. O peso emocional que não aparece nos relatórios trimestrais.
Reforma Tributária, real desvalorizado e o CFO que virou estrategista
O financeiro deixou de fechar balanço para pilotar a estratégia. Finança contínua, ROI real de IA e os 93% que não medem — em um Brasil de juros altos e incerteza fiscal.
Shadow AI: o risco de US$ 1 trilhão que seu board não entendeu
Funcionários colando dados sensíveis no ChatGPT, modelos alucinando em operações críticas, propriedade intelectual vazando. O CTO entre apagar incêndios e construir o futuro.
Reskilling é oportunidade ou teatro corporativo?
A promessa de que IA liberaria as pessoas para o trabalho criativo virou cobrança por produtividade exponencial. Saúde mental no chão de fábrica, burnout no C-level e o CHRO gerindo uma força de trabalho exausta.
O paciente não é um dado — o dilema da saúde com IA
Wearables 24/7, triagem por algoritmo, desospitalização acelerada. Líderes hospitalares entre a eficiência operacional que o investidor exige e o olho no olho que o paciente precisa.
A verdade sobre levantar capital no Brasil em 2026
O que VC de verdade olha antes de assinar, os red flags que eliminam na hora, e por que a maioria dos founders erra exatamente no que apresenta. Sem romantismo sobre o ecossistema.
GEO: se a IA não cita sua marca, você não existe
60% das buscas já terminam sem clique. Se ChatGPT, Gemini e Perplexity não sabem que sua empresa existe, nenhum funil de marketing vai salvar. O que é GEO e por que é infraestrutura, não tendência.
ESG depois do hype: compliance, convicção ou cinismo?
Quando sustentabilidade vira custo de compliance imposto por investidor, o discurso morre. CEOs confrontados com a pergunta que ninguém quer responder: o ESG da sua empresa é real ou é relatório?
A dívida técnica que custa bilhões e ninguém admite
Sistemas de décadas que não morrem, migrações que nunca terminam. O custo invisível de manter a operação rodando enquanto o CEO exige inovação — com o mesmo orçamento.
Governança de IA: quando o algoritmo erra, quem paga?
A IA tomou uma decisão que gerou prejuízo, discriminou no recrutamento, alocou capital errado. A lacuna de governança entre o que a tecnologia faz e o que o marco legal prevê.
O fundador que foi demitido da própria empresa
Conflitos com sócios, divergência com investidores, o momento em que você perde o controle do que criou. Histórias de fundadores que saíram — e dos que voltaram.
Deep tech brasileira: por que o mundo nos subestima?
O Brasil tem sociabilidade, talento e escala. Falta execução, capital paciente ou narrativa? Investidores e fundadores debatem o que impede o país de se posicionar como potência tecnológica.
A pergunta que você reza para que nunca façam em público
Provocações finais, confissões inesperadas e as verdades que só saem quando o entrevistador insiste. O episódio onde o roteiro acaba e a conversa real começa.
Seus filhos sabem o que você faz — e o que isso custa?
O preço pessoal de liderar: casamentos desfeitos, filhos que cresceram sem presença, amizades que morreram no caminho. Executivos falam sobre o que a alta performance cobra por fora do holofote.
2030: como será o Brasil que estamos construindo?
O episódio final cruza visões de todos os convidados da série. Tecnologia, liderança, economia e sociedade — uma síntese coletiva sobre o país que estamos moldando com as decisões de hoje.
A ética quando o algoritmo demite: quem é o responsável moral?
Quando uma IA recomenda cortar 200 posições e o CEO assina, a responsabilidade é do código, do executivo ou do board que aprovou o orçamento? Uma conversa sobre os limites morais da automação de decisões humanas.
Desinformação corporativa: quando o press release é a maior fake news
Empresas gastam milhões em narrativa institucional que não resiste a cinco minutos de due diligence. O que acontece quando a diferença entre comunicação estratégica e desinformação deliberada desaparece.
Privacidade morreu — e você ajudou a matar
O mesmo CEO que reclama de LGPD coleta dados de clientes em 14 plataformas sem consentimento real. Vigilância corporativa, rastreamento comportamental e a hipocrisia do discurso de privacidade no C-level.
O apagão de talentos: 159 mil vagas, 53 mil formados
O Brasil forma um terço dos profissionais de TI que precisa. Enquanto isso, o Vale do Silício drena os melhores cérebros do país. Quem resolve esse déficit — o governo, as empresas ou as universidades?
Diversidade é KPI ou fotografia? O teste que ninguém quer fazer
Se você tirar as fotos do relatório anual e olhar só para os números de promoção, retenção e equidade salarial, a diversidade da sua empresa existe de verdade ou é vitrine?
IA na educação: democracia ou nova casta digital?
A IA promete personalizar o aprendizado, mas quem tem acesso à melhor IA aprende mais rápido. O gap se amplia. A tecnologia que deveria democratizar está criando uma nova aristocracia do conhecimento.
O emprego vai acabar — e ninguém preparou a sociedade
Automação não é mais futurologia. Se 40% das funções forem substituídas em 10 anos, como uma sociedade que vincula identidade a trabalho vai se reorganizar? Renda básica, retreinamento ou caos?
O executivo como influenciador: autoridade ou narcisismo?
CEOs com milhões de seguidores no LinkedIn postando frases motivacionais enquanto a empresa perde market share. Quando o personal branding do líder se descola da realidade do negócio, quem paga a conta?
Tecnologia e fé: o sagrado e o algoritmo podem coexistir?
Em um país onde 90% da população acredita em Deus, como líderes que tomam decisões baseadas em dados reconciliam fé, intuição e evidência? A conversa que o mundo corporativo evita.
Carta para quem vai herdar o que construímos
O episódio final da série. Cada convidado deixa uma mensagem para a próxima geração de líderes. O que construímos, o que destruímos, o que gostaríamos de ter feito diferente — e o que ainda dá tempo de mudar.
Repertório de perguntas
200 perguntas organizadas em 14 categorias temáticas — do pessoal ao profissional, incluindo uma categoria exclusiva para a vertical de finanças, bancos, seguros e fintechs. O arsenal que Alexandre Caramaschi leva para cada conversa.
Formato e metodologia
Cada episódio segue a metodologia CAMADAS: Contexto, Abertura, Mecanismo, Atrito, Decisão, Aprendizado e Síntese. O framework foi desenvolvido para extrair insights que não aparecem em entrevistas convencionais — onde o entrevistador guia o convidado por camadas progressivas de profundidade, do contexto macro até o pessoal.
O objetivo é ir além das respostas ensaiadas. Com respeito e preparo, Alexandre conduz cada conversa para o território onde estratégia encontra vulnerabilidade — onde os números do board se cruzam com as histórias que não aparecem no relatório anual.
A condução mescla rigor analítico com escuta ativa, profundidade técnica com empatia genuína, e a capacidade de desconstruir narrativas corporativas com a elegância de quem já esteve do outro lado da mesa.
Como seria uma conversa no GEO Brasil Talks
Para ilustrar o formato, a profundidade e o ritmo do programa, simulamos um episódio completo com uma persona fictícia inspirada em perfis reais do ecossistema brasileiro de venture capital e tecnologia.

Gravação no Streambox Studio — Parque da Cidade, São Paulo
Airton Sembra
Managing Partner, Vertis Capital · Ex-CDO Meridional Mídia · Cofundador NexoLab · Criador IndexaBR
UNICAMP, MIT Sloan, Harvard, UC Berkeley Haas
Silicon Valley
Capítulo 1: Minas Gerais, UNICAMP e o Código como Linguagem Materna
O estúdio do Streambox Studio, no Parque da Cidade em São Paulo, está preparado. Iluminação quente, dois microfones, uma mesa baixa entre os dois. Airton Sembra entra com um sorriso desarmante — camisa de botão sem gravata, tênis minimalistas. Alexandre se levanta para cumprimentá-lo. Há um reconhecimento silencioso entre dois mineiros que fizeram carreira longe de casa.
Alexandre Caramaschi:Airton, você saiu de Minas, foi para a UNICAMP estudar engenharia da computação, começou um mestrado em computação de alto desempenho e não terminou. Essa decisão de largar o mestrado — foi coragem, impaciência ou você percebeu que o mercado estava se movendo mais rápido do que a academia conseguia acompanhar?
Airton ri baixo, olha para o lado como quem acessa uma memória antiga.
Airton Sembra:Foi impaciência honesta. Eu estava na UNICAMP, cercado de gente brilhante, mas o código que eu escrevia à noite, por conta própria, resolvia problemas reais mais rápido do que qualquer paper. A internet estava explodindo — estamos falando do final dos anos 90 — e eu sentia que cada semestre que eu ficava no mestrado era um semestre que o mundo avançava sem mim. Não foi contra a academia. Foi a favor da urgência.
Alexandre Caramaschi:Essa urgência te levou a criar o IndexaBR — o maior indexador de blogs em português do mundo. Naquela época, blog era a fronteira. Hoje parece pré-história. O que você enxergou que os outros não enxergaram?
Airton Sembra:Eu enxerguei que a produção de conteúdo ia se democratizar de forma irreversível. O IndexaBR não era só um indexador — era a prova de que pessoas comuns tinham coisas relevantes a dizer, e que a tecnologia podia organizar essa voz. O que me move até hoje é a mesma coisa: como a tecnologia amplifica a capacidade humana de criar e conectar.
Alexandre anota algo no bloco à sua frente. Há uma pausa calculada.
Capítulo 2: Do CTO de Pagamentos ao CDO da Segunda Maior Mídia do Brasil
Alexandre Caramaschi:Antes do IndexaBR, você foi CTO de uma subsidiária de pagamentos de uma corporação global americana. De engenheiro de software para governo brasileiro e Comunidade Europeia a executivo C-level de mídia — essa trajetória não é linear. Em que momento você percebeu que não era um técnico que gostava de negócios, mas um estrategista que falava a linguagem do código?
Airton se inclina para frente. Há uma mudança de energia — a pergunta o tocou.
Airton Sembra:Foi quando eu era CDO da Meridional Mídia — um dos maiores conglomerados de mídia do Brasil. Eu olhava para uma operação gigantesca, com revistas, portais, televisão, e percebia que a transformação digital não era um projeto de TI. Era uma reimaginação completa do modelo de negócio. E eu era o único na sala que entendia tanto o código quanto o P&L. Naquele momento, entendi que meu diferencial não era técnico — era a capacidade de traduzir entre dois mundos que normalmente não se falam.
Alexandre Caramaschi:E a NexoLab — sua startup Web 2.0 — foi a tentativa de provar essa tese na prática?
Airton Sembra:A NexoLab foi a minha escola de empreendedorismo real. Foi a primeira startup brasileira focada em produtos Web 2.0, com uma cultura inspirada no Vale do Silício. Quando criamos a empresa, em São Paulo, queríamos provar que era possível construir produtos globais a partir do Brasil. Algumas coisas funcionaram, outras não. Mas o aprendizado de fundar, gerir, pivotar e — sim — falhar em algumas apostas, me preparou para tudo que veio depois.
Alexandre percebe a janela e aprofunda.
Alexandre Caramaschi: Falhar em quais apostas, especificamente?
Airton pausa por três segundos. Olha para a câmera, depois volta para Alexandre.
Airton Sembra:A gente apostou que o mercado brasileiro estava pronto para certos modelos de monetização que funcionavam nos Estados Unidos. Não estava. Timing é tudo em tecnologia, e nós estávamos certos na tese mas adiantados na execução. É a dor clássica do visionário: você vê o futuro, mas o presente não tem infraestrutura para sustentá-lo.
Capítulo 3: Do Maker ao Venture Capitalist — Silicon Valley e o Ecossistema Brasileiro
Alexandre Caramaschi:Você é casado, tem duas filhas adolescentes, fundou o FazJunto — a primeira comunidade online do movimento maker no Brasil — e agora mora no Vale do Silício trazendo empresas de tech para o mercado brasileiro. Me fala sobre essa transição: de maker a venture capitalist. São mundos opostos ou complementares?
Airton sorri abertamente pela primeira vez.
Airton Sembra:São absolutamente complementares. O maker constrói com as mãos. O VC constrói com capital e rede. Mas a essência é a mesma: pegar algo que não existe e tornar real. Quando fundei o FazJunto, a missão era promover a cultura maker no Brasil — troca de ideias, colaboração, projetos open source. Quando entrei na Vertis Capital, a missão era similar: importar as melhores práticas de venture investing do Vale e adaptar para o ecossistema nascente brasileiro.
Alexandre Caramaschi:A Vertis Capital foi o primeiro fundo brasileiro de VC com patrocínio de firmas do Vale do Silício. Isso é uma conquista enorme — mas também significa pressão. Investidor americano cobra em dólar e em velocidade. Como é entregar resultado de mercado emergente para quem está acostumado com exits de US$ 1 bilhão no quintal de casa?
Airton assume um tom mais sério.
Airton Sembra:É um exercício diário de gestão de expectativas — dos dois lados. O investidor americano precisa entender que o Brasil não é uma versão menor dos Estados Unidos. É um mercado com 210 milhões de pessoas, complexidade regulatória absurda, mas com oportunidades que não existem em mercados maduros. E o empreendedor brasileiro precisa entender que capital do Vale vem com governança do Vale. Não dá para levantar em Palo Alto e operar como se fosse na Faria Lima sem processo.
Capítulo 4: O Brasil que o Mundo Subestima — e o Brasil que Se Subestima
Alexandre Caramaschi:Você transita entre San Francisco e São Paulo. Vive nos dois mundos. Quando um investidor de Singapura ou de Londres pergunta por que deveria colocar dinheiro no Brasil, o que você diz — de verdade, não o pitch ensaiado?
Airton se recosta na cadeira. Pensa por alguns segundos antes de responder.
Airton Sembra:Eu digo que o Brasil é o único país do mundo que combina escala continental, talento técnico de ponta e uma capacidade absurda de resolver problemas com recursos limitados. Nossos engenheiros aprendem a otimizar desde a faculdade porque não tem GPU sobrando, não tem budget infinito, não tem infraestrutura perfeita. Isso cria um tipo de inovação que é impossível de replicar em ecossistemas onde tudo funciona. O problema é que o próprio Brasil não acredita nisso. A nossa maior barreira não é capital — é autoestima empresarial.
Alexandre Caramaschi:Autoestima empresarial. Isso é forte. Você acha que o ecossistema brasileiro de startups superou o inverno de 2023-2024?
Airton Sembra:Superou o inverno, mas não aprendeu todas as lições. Ainda vejo founders levantando rodadas sem unit economics claro, boards que não questionam o suficiente, e uma obsessão com valuation que deveria ser obsessão com valor. O próximo ciclo precisa ser mais maduro — e para isso, precisamos de mais VCs que tenham operado empresas, não apenas investido nelas. É por isso que eu acredito que o perfil de VC-maker, de quem construiu antes de investir, é o que o Brasil mais precisa agora.
Alexandre faz uma pausa longa. O estúdio fica em silêncio por quatro segundos.
Capítulo 5: O Preço Pessoal e a Pergunta Final
Alexandre Caramaschi:Airton, última camada. Suas filhas estão na adolescência. Você mora a dez mil quilômetros de onde nasceu. A carreira te levou do interior de Minas para o centro do mundo tecnológico. Se elas pudessem escolher, teriam preferido o pai que construiu tudo isso — ou o pai que estaria todos os dias no portão da escola?
O rosto de Airton muda. Há uma vulnerabilidade que não apareceu em nenhuma outra resposta. Ele respira fundo.
Airton Sembra:Essa é a pergunta que eu me faço toda semana. E a resposta honesta é que eu não sei. Acho que elas preferiam os dois — e o meu trabalho diário é tentar ser os dois. Morar no Vale com a família foi uma decisão conjunta, e minhas filhas estão crescendo bilíngues, imersas em uma cultura de inovação, conhecendo gente que está construindo o futuro. Mas tem dias em que eu sinto que estou mostrando o mundo para elas e perdendo o mundo delas. Esse é o custo real. Não é financeiro. É temporal. E tempo não tem rodada de investimento.
Alexandre estende a mão. Airton aperta com firmeza. Os dois se olham como quem reconhece a mesma batalha silenciosa. A luz vermelha da câmera se apaga.
Alexandre Caramaschi:Airton Sembra, obrigado por essa conversa. Do interior de Minas para o Vale do Silício, do código ao capital, do maker ao investidor — sua trajetória é uma prova de que o Brasil produz gente que não apenas participa da conversa global, mas a lidera.
Airton Sembra: Obrigado, Alexandre. Volto quando quiser.
Episódio 2 — Mariana Vasconcelos
Mariana Vasconcelos
Ex-CIO · Top 10 CIOs Forbes Brasil · Autora · Fundadora do Movimento Mulheres em Tecnologia
São Paulo
Capítulo 1: A Engenheira que Entrou pela Porta dos Fundos
O Streambox Studio está mais silencioso que o habitual. Mariana Vasconcelos chega quinze minutos antes do horário — hábito de quem passou décadas gerindo operações onde atraso custava milhões. Veste preto sobre preto, um broche discreto de prata. Alexandre a recebe com um aperto de mão firme e um comentário sobre o livro dela que ele leu na véspera. Mariana sorri com surpresa — é raro que entrevistadores façam o dever de casa.
Alexandre:Mariana, você liderou uma das maiores jornadas de integração digital e tecnológica do Brasil, foi reconhecida pela Forbes como uma das Top 10 CIOs do país, e hoje fala sobre inovação regenerativa como se fosse a coisa mais natural do mundo. Mas eu quero voltar para o começo. Quando você entrou pela primeira vez numa sala de TI como a única mulher, o que sentiu — e o que não disse?
Mariana cruza as pernas, olha para o chão por dois segundos. Quando levanta o olhar, há algo afiado na expressão.
Mariana:Senti que estava invadindo um território que não me queria. Não era hostilidade aberta — era pior. Era a invisibilidade. Você fala numa reunião e ninguém responde. Cinco minutos depois, um homem repete exatamente a mesma ideia e todo mundo aplaude. Nos primeiros anos, eu achava que o problema era eu — que precisava falar mais alto, ser mais assertiva, provar mais. Depois entendi: o sistema não estava quebrado. Estava funcionando exatamente como foi desenhado — para me excluir.
Alexandre:E o que fez com essa constatação?
Mariana:Parei de pedir licença. Não no sentido agressivo — no sentido de parar de me justificar por estar ali. Comecei a tratar minha presença como fato consumado, não como concessão. Isso muda tudo: a postura, a voz, a forma como você ocupa o espaço físico na sala. E, curiosamente, quando você para de pedir permissão, as pessoas param de achar que precisam te conceder.
Capítulo 2: Cloud, IA Generativa e a Visão que o Board Não Queria Ouvir
Alexandre:Como CIO, você orquestrou parcerias com Google, AWS, Microsoft, SAP, Salesforce, Databricks — uma mesa de big techs que a maioria dos CTOs brasileiros só vê em conferência. Quando você apresentou a visão de cloud e IA generativa para o board, qual foi a reação real — não a que consta na ata?
Mariana ri pela primeira vez. É um riso curto, de reconhecimento.
Mariana:A reação real foi medo disfarçado de ceticismo. Quando você põe um número de investimento de oito dígitos na tela e diz que o retorno não vai aparecer no próximo trimestre, o board começa a fazer contas mentais de quanto custa te substituir por alguém menos ambícioso. Eu sabia que a proposta era certa. O desafio era traduzir visão em linguagem de risco — porque conselho não compra visão, compra redução de risco.
Alexandre:Como você fez essa tradução?
Mariana:Construí três cenários: o mundo em que não fazíamos nada e perdíamos 30% do mercado em 5 anos, o mundo em que fazíamos o mínimo e sobrevivíamos sem crescer, e o mundo em que apostávamos forte e liderávamos a categoria. Mostrei que o custo da inatividade era maior que o custo da transformação. E aí o medo mudou de lado da mesa.
Alexandre faz uma anotação. Há uma pausa que ele não preenche propositalmente.
Alexandre:E quando a IA generativa começou a alucinar em produção, quem ligou primeiro — o board ou o cliente?
Mariana:O cliente. Sempre o cliente. E aí você descobre que a distância entre o hype deck que vendeu o projeto e a realidade operacional é um abismo. Nós tivemos um incidente onde a IA gerou uma recomendação para um cliente que, se executada, teria causado prejuízo real. Não financeiro — reputacional. E aí você precisa ir para o board e dizer: “aquela visão linda que eu apresentei? Funciona — mas tem bordas cortantes que ninguém mencionou no pitch da big tech.”
Capítulo 3: O Livro, a Vulnerabilidade e o Preço da Autenticidade
Alexandre:Você escreveu um livro sobre coragem, autenticidade e liderança feminina na era da inovação. Escrever um livro é se despir publicamente. O que você colocou no livro que te custou noites de sono decidindo se deveria ou não publicar?
Mariana desvia o olhar para a câmera. Há um cálculo visível sobre o quanto revelar.
Mariana:Tem um capítulo sobre uma reunião em 2019 onde um colega de C-level me disse, na frente de seis pessoas, que eu estava sendo “emocional demais” para o cargo. O que ele quis dizer era que eu estava discordando dele com argumentos que ele não conseguia rebater, e a única arma que restava era me desqualificar pelo gênero. Colocar isso no livro com nomes trocados mas situações reconhecíveis foi uma decisão política. Porque se eu não falar, quem vai?
Alexandre: Esse colega leu o livro?
Mariana:Leu. E me mandou uma mensagem dizendo que não se reconhecia na descrição. Sabe o que é mais revelador do que o que aconteceu? O fato de ele não se reconhecer. Isso diz tudo sobre como o viés opera — é invisível para quem o prática.
O estúdio fica em silêncio por cinco segundos. Alexandre não interrompe.
Capítulo 4: Mulheres em Tecnologia — Movimento ou Mercado?
Alexandre:Você fundou um movimento de Mulheres em Tecnologia. Eu vou ser direto: movimentos corporativos de diversidade são frequentemente acusados de serem vitrine — fotos para o relatório anual, painéis onde todo mundo concorda entre si, e nenhuma mudança estrutural. O que separa o que você faz de teatro institucional?
Mariana se inclina para frente. A pergunta a incomodou — e ela sabe que era exatamente essa a intenção.
Mariana:Essa é a pergunta certa, e a maioria dos entrevistadores não a faz porque tem medo de parecer insensível. O que separa é número. Não narrativa — número. Quantas mulheres foram promovidas? Quantas estão em cargo de decisão, não de suporte? Qual é a diferença salarial real, não a ajustada por “função equivalente”, que é a forma mais sofisticada de esconder desigualdade? Quando você olha os números crus, a maioria dos programas de diversidade no Brasil é marketing. O nosso movimento cobra métricas. E métrica incomoda.
Alexandre: Isso te criou inimigos?
Mariana:Criou desconforto. Inimigo é palavra forte. Mas desconforto produtivo é exatamente o que o ecossistema precisa. Eu não quero ser aplaudida — quero ser útil.
Capítulo 5: Inovação Regenerativa e a Pergunta que Fica
Alexandre:Seu propósito declarado é “acelerar a inovação regenerativa e o crescimento com significado.” Isso soa bonito num perfil de LinkedIn. Na prática, o que significa quando você está sentada numa mesa de negociação com um fundo que só quer TIR de 25%?
Mariana sorri com o canto da boca. Reconhece a provocação.
Mariana:Significa que eu tenho que provar, com dados, que inovação regenerativa não é filantropia — é vantagem competitiva de longo prazo. Significa que eu escolho com quem sento. Eu já recusei capital que vinha com condições que contradiziam o que eu prego. E isso custou velocidade. Mas me deu algo que dinheiro não compra: coerência. E coerência, no longo prazo, atrai o capital certo.
Alexandre:Última pergunta. Suas filhas — se elas seguirem carreira em tecnologia, o caminho vai ser mais fácil do que o seu foi?
Mariana pausa. Pela primeira vez na conversa, a executiva cede espaço à mãe.
Mariana:Eu gostaria de dizer que sim. Mas se eu for honesta, acho que o caminho vai ser diferente — não necessariamente mais fácil. Os viéses mudaram de forma, não de substância. Hoje ninguém diz “mulher não programa.” Mas o algoritmo de recrutamento da empresa pode pensar exatamente isso — e ninguém questiona porque o viés está escondido no código, não na fala. O meu trabalho é garantir que quando minhas filhas entrarem nessa sala, o sistema já tenha sido reescrito. Não só o código — a cultura.
Alexandre estende a mão. Mariana aperta com firmeza. Há um brilho nos olhos dela que não estava lá no início — a emoção de quem falou verdades que normalmente guarda.
Alexandre:Mariana Vasconcelos, obrigado. De uma sala de TI onde ninguém te via a uma das 10 CIOs mais influentes do Brasil — sua trajetória é a prova de que tecnologia com propósito não é slogan, é estratégia.
Mariana:Obrigada, Alexandre. E pra quem está ouvindo: parem de pedir licença.
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