Por que este podcast existe
O Brasil vive um momento de inflexão econômica e tecnológica em 2026. A Reforma Tributária está em fase de testes, a adoção de IA generativa nas empresas brasileiras cresce mas esbarra em cultura organizacional resistente, e o mercado global projeta que até 90% das transações B2B serão intermediadas por agentes de IA autônomos até 2028 (Agentic Commerce). Top trends globais incluem: Plataformas de Supercomputação de IA, Sistemas Multiagentes, Computação Confidencial, economia zero-click e Generative Engine Optimization.
Nesse cenário, a maioria dos podcasts de negócios no Brasil continua entrevistando executivos com perguntas que permitem respostas pré-fabricadas de assessoria de comunicação. O GEO Talk existe para quebrar esse padrão.
O formato combina erudição com acessibilidade, profundidade técnica com arqueologia emocional, desconstrução de alta performance com empatia genuína. Cada episódio cruza o pessoal com o profissional, o íntimo com o estratégico — porque as melhores respostas surgem quando o convidado esquece que está sendo entrevistado.
Sobre o host
Alexandre Caramaschi
Founder da Brasil GEO · Ex-CMO da Semantix (Nasdaq) · Cofundador da AI Brasil

Cientista da computação pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), com formações em FIA Business School, Tongji University, Harvard Extension e Stanford. Mais de 24 anos na interseção entre tecnologia e negócios.
Trajetória que inclui: venda de ERPs em Belo Horizonte, telecomunicações na Brasil Telecom e Embratel, mercado FMCG na Schincariol (hoje Heineken), fundação da Herreira (joias, R$ 4 milhões+ em faturamento) e a posição de CMO da Semantix — o primeiro IPO de deep tech brasileira na Nasdaq.
“Nexalista” — o profissional que transcende a hiper-especialização para conectar domínios díspares. Fundou a AI Brasil, comunidade com dezenas de milhares de membros que conecta estudantes a conselheiros de companhias multibilionárias. Em 2026, criou a Brasil GEO para liderar a transição da economia de cliques para a economia de agentes autônomos.
Estilo de entrevista: “constrangimento produtivo” — desestabiliza respostas pré-fabricadas, força o convidado a confrontar a realidade não filtrada da operação. Mantém deliberadamente o sotaque goiano e informalidade calculada como ferramenta de descompressão, sustentada por lastro acadêmico e prático.
Os números desta pauta, com fonte e data
Toda estatística citada nos episódios e no banco de perguntas aparece aqui com quem publicou, quando publicou e o limite do que foi medido. Cada endereço abaixo foi aberto e lido na data da conferência, e o número foi conferido contra o texto da fonte, não contra a matéria que a repete. Convidado que quiser contestar um número no ar encontra a fonte antes de gravar.
Esta rodada separou medição de projeção. Começa pelo que alguém contou, segue pelo que alguém projetou para uma data futura e termina pelo que não resistiu à conferência. As três listas moravam juntas até aqui, e uma aposta de consultoria para 2028 chegava ao convidado com o mesmo peso de um dado do INSS.
68,01% das buscas no Google terminaram sem clique nos quatro primeiros meses de 2026, contra 60,45% em 2024, na medição que o SparkToro publicou em 08/06/2026 sobre o painel de clickstream da Similarweb.
Fonte: SparkToro, em estudo assinado por Rand Fishkin sobre o painel de clickstream da Similarweb, em 08/06/2026. Abrir a fonte
Escopo: A medição cobre buscas feitas nos Estados Unidos, em desktop e web móvel, entre janeiro e abril de 2026, e deixa de fora as buscas feitas dentro do aplicativo do Google. O próprio estudo registra que dez anos atrás o índice era de cerca de 45%, o que dá 23 pontos de alta na década. Não existe leitura equivalente para o Brasil.
20% das buscas, queda de quase 60% no clique das buscas no Google já trazem um AI Overview, e onde ele aparece a taxa de clique cai quase 60%, na mesma medição do SparkToro de 08/06/2026, que atribui a esse crescimento a maior aceleração do zero-click em uma década.
Fonte: SparkToro, no mesmo estudo de Rand Fishkin sobre o painel de clickstream da Similarweb, em 08/06/2026. Abrir a fonte
Escopo: O estudo escreve 20% ou mais, sem fechar o número. A queda de clique vale só onde o AI Overview aparece, e o efeito sobre o total das buscas é menor. O mesmo texto mede o AI Mode em apenas 0,34% das buscas entre janeiro e abril de 2026, de modo que quem derruba o clique em 2026 é o resumo automático, com o modo conversacional ainda irrelevante em volume.
92,4% de todo o tráfego de referência rastreável vindo de assistentes de IA saiu do ChatGPT, no relatório State of AI Discovery que a Previsible publicou em 06/07/2026 sobre 6,77 milhões de sessões medidas em 166 propriedades do Google Analytics entre novembro de 2024 e maio de 2026.
Fonte: Previsible, no relatório 2026 State of AI Discovery, assinado por David Bell, em 06/07/2026. Abrir a fonte
Escopo: O número mede como o tráfego se divide entre assistentes. O tamanho desse tráfego é outra conta, e ela é pequena: a medição do SparkToro de 08/06/2026 registra que as ferramentas de IA enviam menos de 1% de todo o tráfego da web. O próprio relatório da Previsible conclui que a descoberta por IA dentro do Google, no AI Overview e no AI Mode, pesa mais do que todos os assistentes somados. A amostra é de 166 propriedades que aceitaram ser medidas, em SaaS, comércio eletrônico, finanças, jurídico, saúde, seguros, educação e publicações, sem recorte brasileiro.
17% das empresas brasileiras com dez ou mais pessoas ocupadas usavam alguma inteligência artificial em 2025, contra 13% em 2024, na TIC Empresas que o Cetic.br publicou em 12/06/2026 com 4.174 entrevistas.
Fonte: Cetic.br, do Comitê Gestor da Internet no Brasil, na 16ª edição da pesquisa TIC Empresas, com 4.174 empresas entrevistadas por telefone, em 12/06/2026. Abrir a fonte
Escopo: O campo foi a campo entre fevereiro de 2025 e janeiro de 2026, e cobre apenas empresas com mais de dez pessoas ocupadas, o que deixa de fora a maior parte do parque brasileiro. A média esconde o porte: entre as grandes a adoção foi de 38% para 50%, e entre as pequenas, de 10% para 15%. É a leitura oficial brasileira de adoção, e desmente o discurso de que a IA já entrou em toda empresa do país.
2% das indústrias brasileiras calculam o retorno do investimento em IA, embora 40% já usem alguma solução, no estudo da TOTVS com a H2R Insights e Trends noticiado em 26/05/2026 sobre 194 entrevistas.
Fonte: estudo Panorama IA nas empresas brasileiras, da TOTVS com a H2R Insights & Trends, com 194 entrevistas, noticiado pelo Portal Information Management, em 26/05/2026. Abrir a fonte
Escopo: As entrevistas foram feitas entre abril e maio de 2025 e a amostra de 194 organizações é pequena para recorte por porte. No mesmo estudo da TOTVS, noticiado em 26/05/2026, o índice do segmento industrial é 2% e o geral, 7%. Os 40% de adoção industrial deste estudo não conversam com os 17% gerais do Cetic.br: base, porte e definição de uso são diferentes, e quem citar os dois na mesma frase precisa dizer isso. A checagem de 31/08/2026 não localizou o estudo da TOTVS aberto ao público: o que existe é a cobertura de imprensa que o repete, e a checagem adversarial no geo-orchestrator devolveu o número como não confirmado. Ele fica aqui com essa marca. Se o convidado contestar, a resposta correta é dar a razão a ele e ir para o dado do Cetic.br.
US$ 6 milhões é o custo médio de uma violação de dados com uso de IA pelo atacante, contra US$ 4,99 milhões da média global, no Cost of a Data Breach 2026 que a IBM publicou em 29/07/2026 com 602 organizações.
Fonte: IBM, no Cost of a Data Breach 2026, conduzido pelo Ponemon Institute com 602 organizações, em 29/07/2026. Abrir a fonte
Escopo: As violações estudadas ocorreram entre março de 2025 e fevereiro de 2026, em amostra global de 602 organizações. Uma em cada quatro violações maliciosas usou IA, alta de 56% sobre o ano anterior, e a maioria foi falsificação por deepfake e malware assistido por IA. O custo é média, e média de cauda longa esconde o caso extremo nos dois sentidos.
62% dos ataques com uso de IA registrados no estudo miraram setores de infraestrutura crítica, com serviços financeiros e energia na maior concentração, no Cost of a Data Breach 2026 da IBM de 29/07/2026.
Fonte: IBM, no mesmo Cost of a Data Breach 2026 conduzido pelo Ponemon Institute, em 29/07/2026. Abrir a fonte
Escopo: O percentual descreve a distribuição dos ataques com IA dentro da amostra de 602 organizações. Ele nada diz sobre o total de ataques do mundo. No mesmo estudo, a violação em serviços financeiros custou US$ 6,3 milhões em média e a de energia, US$ 5,2 milhões, e mais de 20% das organizações relataram violação que mirou modelos ou aplicações de IA.
30,2% é a lacuna entre a demanda por profissionais de tecnologia e a formação disponível em cinco anos, 665 mil vagas contra 465 mil formados, no levantamento da Brasscom divulgado em 01/04/2025.
Fonte: Brasscom, em levantamento divulgado pela Abruc, em 01/04/2025. Abrir a fonte
Escopo: O número cobre os cinco anos anteriores à divulgação e trata de vagas formais que exigem formação superior ou técnica. O mesmo levantamento registra queda do déficit no período, e o relatório seguinte da Brasscom, de 07/07/2026, mostra a formação subindo forte: 69,7 mil graduados em 2022, 89,7 mil em 2023 e 110,9 mil em 2024. Quem usa este número em 2026 precisa dizer que ele descreve 2019 a 2024.
55,6% do crescimento do setor de tecnologia entre 2023 e 2025 veio de MEI e de trabalho informal, e não de carteira assinada, no relatório Perspectivas do Mercado de Trabalho do Macrossetor TIC que a Brasscom divulgou em 07/07/2026.
Fonte: Brasscom, no relatório Perspectivas do Mercado de Trabalho do Macrossetor TIC, em 07/07/2026. Abrir a fonte
Escopo: O setor somou 111,1 mil profissionais entre 2023 e 2025, e 44,4% desse total entrou pelo regime celetista. O mesmo relatório projeta 33 mil vagas formais novas até dezembro de 2026 e 2,159 milhões de trabalhadores formais ao fim do ano. A leitura da Brasscom é que a barreira principal deixou de ser a falta de gente e passou a ser o ambiente que dificulta a formalização, o que muda o alvo de quem quer resolver o problema.
6.985 afastamentos por burnout foram concedidos pelo INSS em 2025, contra 1.760 em 2023, no levantamento que a ANAMT publicou em 27/01/2026 sobre os dados oficiais da Previdência.
Fonte: Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), em levantamento sobre dados oficiais do INSS, em 27/01/2026. Abrir a fonte
Escopo: O dado cobre apenas trabalhadores com vínculo previdenciário e afastamento acima de quinze dias, o que exclui justamente quem decide a folha de pagamento e não se afasta. No mesmo levantamento, os transtornos mentais somam 393.670 benefícios até novembro de 2025, contra 219.850 em 2023, sendo 157.235 por transtorno de ansiedade. O número mede quem parou de trabalhar. Quem adoeceu e continuou na mesa fica fora da conta.
70% usam, 32% foram orientados dos alunos do Ensino Médio usuários de internet recorrem a IA generativa em pesquisas escolares, e só um terço recebeu alguma orientação da escola sobre como usar, na TIC Educação que o Cetic.br publicou em 16/09/2025.
Fonte: Cetic.br, do Comitê Gestor da Internet no Brasil, na 15ª edição da TIC Educação, com 1.023 escolas e 10.756 entrevistas presenciais, em 16/09/2025. Abrir a fonte
Escopo: O campo foi a campo entre agosto de 2024 e março de 2025, e o recorte de 70% vale para o Ensino Médio entre quem usa internet. Nos anos finais do Fundamental o índice cai para 39% e nos iniciais, para 15%. O dado desta pesquisa é a distância entre o uso e a orientação. O tamanho do uso, sozinho, já era esperado.
0,9% e 0,1% são as alíquotas de teste da CBS e do IBS que valem para os fatos geradores de todo o ano de 2026, fixadas nos artigos 346 e 343 da Lei Complementar 214, de 16/01/2025.
Fonte: Lei Complementar nº 214, de 16 de janeiro de 2025, artigos 343 e 346, no texto oficial do Planalto, em 16/01/2025. Abrir a fonte
Escopo: 2026 é ano de teste: a empresa emite o documento fiscal com os dois tributos, mas o valor é compensado para quem cumpre as obrigações acessórias. A cobrança de verdade da CBS começa em 2027, o IBS entra em transição em 2029 e o ICMS e o ISS só se extinguem em 2033. Quem trata 2026 como o ano da reforma erra o calendário em um ano, no melhor caso, e em sete no pior.
Ainda não é lei é o estado do marco legal da inteligência artificial no Brasil em 31/08/2026: o PL 2338/2023 foi aprovado pelo Plenário do Senado em 10/12/2024 e remetido à Câmara dos Deputados em 17/03/2025, onde segue sem votação final.
Fonte: Senado Federal, na ficha de tramitação oficial do PL 2338/2023, de autoria do senador Rodrigo Pacheco, em 17/03/2025. Abrir a fonte
Escopo: A ficha do Senado registra a tramitação encerrada naquela Casa e o destino à Câmara; o estado na Câmara precisa ser conferido na ficha de lá antes de cada gravação, porque muda sem aviso. Enquanto não há lei, a empresa brasileira responde pelo que a IA faz sob a LGPD, o Código de Defesa do Consumidor e o Código Civil. Marco próprio ela não tem.
O que ainda não aconteceu: projeções, com a marca de quem apostou
Nenhum dos números abaixo foi medido. Todos foram projetados por uma consultoria para uma data que ainda não chegou. Eles entram na pauta porque movem orçamento e conselho de administração, e saem da lista de fatos porque não são fatos. Cada um vem com a ressalva que precisa ser dita no ar junto com o número.
Projeção90% das compras B2B serão intermediadas por agentes de IA até 2028, movendo mais de US$ 15 trilhões, na previsão que a Gartner apresentou em 21/10/2025, no IT Symposium.
Fonte: Gartner, na lista de previsões para 2026 em diante apresentada no IT Symposium, em 21/10/2025. Abrir a fonte
Ressalva: A Gartner não abre a amostra nem o cálculo que levam aos 90%. Recorte brasileiro ela também não publica. O horizonte é 2028. A própria Gartner projetou, em 25/06/2025, que mais de 40% dos projetos de IA agêntica serão cancelados até o fim de 2027. As duas previsões vivem na mesma casa e apontam para lados diferentes.
Projeçãomais de 40% dos projetos de IA agêntica serão cancelados até o fim de 2027, por custo crescente, valor de negócio indefinido ou controle de risco insuficiente, na projeção que a Gartner publicou em 25/06/2025.
Fonte: Gartner, em comunicado assinado pela analista Anushree Verma, em 25/06/2025. Abrir a fonte
Ressalva: O mesmo comunicado estima que, dos milhares de fornecedores que se dizem de IA agêntica, cerca de 130 são reais, e chama o resto de agent washing. A base de opinião é uma enquete de janeiro de 2025 com 3.412 participantes de webinar, quem respondeu se autosselecionou ao entrar no webinar, de modo que o resultado descreve esse público e mais ninguém.
Projeçãomais de 2.000 ações judiciais por morte causada por IA serão registradas até o fim de 2026, por falta de barreiras de risco, na previsão que a Gartner apresentou em 21/10/2025, no IT Symposium.
Fonte: Gartner, na lista de previsões para 2026 em diante, em 21/10/2025. Abrir a fonte
Ressalva: É projeção, e o prazo dela vence em quatro meses. A Gartner não publica a contagem corrente, então quem citar o número no ar precisa dizer que ninguém verificou se ele se cumpriu.
Projeção20% das transações monetárias serão programáveis para incluir condições de uso até 2030, dando agência econômica a agentes de IA, na previsão que a Gartner apresentou em 21/10/2025, no IT Symposium.
Fonte: Gartner, na lista de previsões para 2026 em diante, em 21/10/2025. Abrir a fonte
Ressalva: Horizonte de 2030 e nenhum recorte brasileiro, embora o Pix e o Drex sejam o contexto óbvio da pergunta no Brasil. Serve como provocação de pauta, e é aí que o uso dela termina.
Projeção50% das organizações do mundo passarão a exigir avaliações sem IA em processo seletivo até o fim de 2026, por atrofia do pensamento crítico, na previsão que a Gartner apresentou em 21/10/2025, no IT Symposium.
Fonte: Gartner, na lista de previsões para 2026 em diante, em 21/10/2025. Abrir a fonte
Ressalva: A mesma lista projeta que, até 2027, 75% dos processos de contratação incluirão certificação e teste de proficiência em IA. Exigir prova de que o candidato usa IA e prova de que ele pensa sem IA são movimentos simultâneos, e a tensão entre os dois é a pergunta que interessa. O número é só o gancho.
Cinco números que esta página não afirma
Três destes números a página chegou a afirmar; dois foram levantados para esta rodada e barrados antes de entrar. Todos circulam no mercado e voltam a aparecer em pauta de podcast, então ficam registrados com o que a checagem encontrou. Um número sem levantamento nomeado não é dado ruim: é uma frase que ninguém pode conferir, e quem a repete no ar assume o que ela afirma.
70% das transformações digitais falham
Onde circulava: abria o episódio sobre cultura e sabotagem do middle management.
Nenhum estudo mede esse índice sob definição consistente. A origem rastreável é o artigo Changing change management, da McKinsey, de 2015, que fala em 70% de programas de mudança organizacional sem publicar método, amostra ou definição de falha. O número atravessou uma década trocando de assunto pelo caminho.
93% das empresas não medem ROI de IA
Onde circulava: abria o episódio sobre o CFO que virou estrategista e voltava no banco de perguntas.
O índice aparece em blogs de consultoria que o atribuem a uma pesquisa da AWS com mais de 3.000 empresas latino-americanas. O material público da AWS sobre IA no Brasil, de 13/08/2025, ouviu 1.000 líderes e 1.000 cidadãos e não traz esse número. Sem fonte primária, saiu da página e deu lugar aos 2% da TOTVS.
Shadow AI é um risco de US$ 1 trilhão
Onde circulava: era o título do episódio sobre IA não autorizada.
A cifra não aparece em relatório primário. O que existe medido é o custo por violação: o Cost of a Data Breach 2026 da IBM registra US$ 6 milhões nas violações com IA, contra US$ 4,99 milhões da média global. Trocamos a manchete pelo número que alguém mediu.
Shadow AI acrescenta US$ 670 mil ao custo de cada violação
Onde circulava: apareceu na cobertura de imprensa do Cost of a Data Breach 2026 e entrou na pauta como substituto da cifra de US$ 1 trilhão.
O comunicado da IBM de 29/07/2026, aberto e lido inteiro na conferência de 31/08/2026, não traz esse número. O relatório completo está atrás de cadastro, e nenhum material aberto da IBM o sustenta. Pode até ser verdadeiro e ainda assim não pode ser citado: quem afirma precisa poder mostrar. Fica de fora até que a fonte esteja aberta.
O investimento em startups brasileiras caiu 76% no primeiro semestre de 2026, para US$ 593 milhões
Onde circulava: seria o número de abertura do episódio sobre levantar capital no Brasil.
O número circula em portais de tecnologia sem que nenhum deles nomeie o levantamento de origem. A matéria mais citada foi aberta na conferência e não atribui o dado a Distrito, Sling Hub, ABVCAP, LAVCA nem Crunchbase. Número de mercado sem levantamento nomeado é boato com casas decimais, e o episódio sobre capital vai ao ar sem ele.
30 Conversas que Vão Mudar a Forma como Você Pensa
Cada episódio é uma conversa transversal: o convidado fala sobre sua história pessoal, os desafios do seu setor e as grandes questões que afetam todos os líderes. Não há categorias pré-estabelecidas por episódio — a conversa vai onde a verdade estiver.
O preço de liderar quando ninguém mais quer a cadeira
O que acontece com quem aceita o posto máximo numa época em que IA reescreve modelos de negócio, o consumidor muda antes do trimestre fechar e a saúde mental do board vira variável de risco?
A falência que ninguém põe no LinkedIn
Quebrar, perder tudo, reconstruir. Histórias reais de colapso financeiro e emocional que moldaram os líderes mais respeitados do país, e que a assessoria de comunicação não deixa contar.
Quando a cultura da empresa come a estratégia no café da manhã
O board aprova, o PowerPoint brilha, e o middle management sabota em silêncio. O índice de 70% de falha que todo consultor cita remonta a um artigo da McKinsey de 2015 sobre mudança organizacional, publicado sem método nem amostra: o episódio começa desmontando o número e segue para o que dá para medir.
IA generativa: brinquedo caro ou infraestrutura crítica?
A TIC Empresas do Cetic.br, publicada em 12/06/2026 com 4.174 entrevistas, achou 17% das empresas brasileiras com dez ou mais pessoas usando alguma IA, contra 13% em 2024, e 50% entre as grandes. A Gartner, em 25/06/2025, projetou que mais de 40% dos projetos de IA agêntica serão cancelados até o fim de 2027, e estima que só cerca de 130 dos milhares de fornecedores do mercado são reais. O episódio separa quem usa de quem finge, e projeto de quem mede o retorno.
O funil morreu e a IA compra pelo seu cliente
A Gartner projetou, em 21/10/2025, que 90% da compra B2B será intermediada por agentes de IA até 2028, movendo mais de US$ 15 trilhões. Em 25/06/2025 projetou que mais de 40% dos projetos agênticos morrem antes de 2028. As duas apostas saíram da mesma casa. Quando o comprador é um algoritmo, branding serve para quê?
A solidão de quem decide a folha de pagamento
Demitir amigos, mentir sobre o caixa para manter a equipe motivada, chorar no carro antes de entrar na reunião. O peso emocional que não aparece nos relatórios trimestrais.
Reforma Tributária, real desvalorizado e o CFO que virou estrategista
O financeiro deixou de fechar balanço para pilotar a estratégia. O Panorama IA nas empresas brasileiras, da TOTVS com a H2R Insights e Trends, noticiado em 26/05/2026, mostra 40% das indústrias usando IA e 2% calculando o retorno. E 2026 é o ano de teste da reforma tributária, com CBS a 0,9% e IBS a 0,1% pelos artigos 346 e 343 da Lei Complementar 214. A cobrança de verdade da CBS começa em 2027, o IBS em 2029, e o ICMS e o ISS só morrem em 2033.
Shadow AI: a violação de US$ 6 milhões que seu board não previu
Funcionários colando dados sensíveis no ChatGPT, modelos alucinando em operações críticas, propriedade intelectual vazando. O Cost of a Data Breach 2026 da IBM, publicado em 29/07/2026, mediu US$ 6 milhões por violação com uso de IA, contra US$ 4,99 milhões da média global, e achou 62% desses ataques mirando infraestrutura crítica, com serviços financeiros a US$ 6,3 milhões por violação e energia a US$ 5,2 milhões. Mais de 20% das organizações já foram atacadas no próprio modelo de IA. O CTO entre apagar incêndios e construir o futuro.
Reskilling é oportunidade ou teatro corporativo?
A promessa de que IA liberaria as pessoas para o trabalho criativo virou cobrança por produtividade exponencial. O INSS concedeu 6.985 afastamentos por burnout em 2025, contra 1.760 em 2023, no levantamento que a ANAMT publicou em 27/01/2026 sobre os dados oficiais da Previdência. E esse número conta quem parou por mais de quinze dias: quem decide a folha de pagamento raramente aparece nele. O CHRO gerindo uma força de trabalho exausta, com uma estatística que subestima o problema por construção.
O paciente não é um dado — o dilema da saúde com IA
Wearables 24/7, triagem por algoritmo, desospitalização acelerada. Líderes hospitalares entre a eficiência operacional que o investidor exige e o olho no olho que o paciente precisa.
A verdade sobre levantar capital no Brasil em 2026
O que VC de verdade olha antes de assinar, os red flags que eliminam na hora, e por que a maioria dos founders erra exatamente no que apresenta. O episódio vai ao ar sem o número de mercado que todo mundo repete: a cifra que circula sobre a queda dos aportes em 2026 não tem levantamento nomeado, e a conferência de 31/08/2026 a barrou. Sem romantismo sobre o ecossistema, e sem estatística de corredor.
GEO: se a IA não cita sua marca, você não existe
O SparkToro mediu, em 08/06/2026, que 68,01% das buscas no Google terminaram sem clique nos EUA entre janeiro e abril; eram 60,45% em 2024, e cerca de 45% dez anos atrás. O mesmo estudo achou o AI Overview em mais de 20% das buscas, derrubando o clique em quase 60% onde aparece. Se ChatGPT, Gemini e Perplexity não sabem que sua empresa existe, nenhum funil de marketing salva. O que é GEO e por que ele é infraestrutura.
ESG depois do hype: compliance, convicção ou cinismo?
Quando sustentabilidade vira custo de compliance imposto por investidor, o discurso morre. CEOs confrontados com a pergunta que ninguém quer responder: o ESG da sua empresa é real ou é relatório?
A dívida técnica que custa bilhões e ninguém admite
Sistemas de décadas que não morrem, migrações que nunca terminam. O custo invisível de manter a operação rodando enquanto o CEO exige inovação, com o mesmo orçamento.
Governança de IA: quando o algoritmo erra, quem paga?
A IA tomou uma decisão que gerou prejuízo, discriminou no recrutamento, alocou capital errado. Em 31/08/2026 o Brasil ainda não tem marco: o PL 2338/2023 passou no Plenário do Senado em 10/12/2024, foi remetido à Câmara em 17/03/2025 e segue lá sem votação final. Até que passe, quem responde é a LGPD, o Código de Defesa do Consumidor e o Código Civil, todos escritos para outro problema.
O fundador que foi demitido da própria empresa
Conflitos com sócios, divergência com investidores, o momento em que você perde o controle do que criou. Histórias de fundadores que saíram, e dos que voltaram.
Deep tech brasileira: por que o mundo nos subestima?
O Brasil tem sociabilidade, talento e escala. Falta execução, capital paciente ou narrativa? Investidores e fundadores debatem o que impede o país de se posicionar como potência tecnológica.
A pergunta que você reza para que nunca façam em público
Provocações finais, confissões inesperadas e as verdades que só saem quando o entrevistador insiste. O episódio onde o roteiro acaba e a conversa real começa.
Seus filhos sabem o que você faz — e o que isso custa?
O preço pessoal de liderar: casamentos desfeitos, filhos que cresceram sem presença, amizades que morreram no caminho. Executivos falam sobre o que a alta performance cobra por fora do holofote.
2030: como será o Brasil que estamos construindo?
O episódio final cruza visões de todos os convidados da série. Tecnologia, liderança, economia e sociedade, numa síntese coletiva sobre o país que estamos moldando com as decisões de hoje.
A ética quando o algoritmo demite: quem é o responsável moral?
Quando uma IA recomenda cortar 200 posições e o CEO assina, a responsabilidade é do código, do executivo ou do board que aprovou o orçamento? Uma conversa sobre os limites morais da automação de decisões humanas.
Desinformação corporativa: quando o press release é a maior fake news
Empresas gastam milhões em narrativa institucional que não resiste a cinco minutos de due diligence. O que acontece quando a diferença entre comunicação estratégica e desinformação deliberada desaparece.
Privacidade morreu — e você ajudou a matar
O mesmo CEO que reclama de LGPD coleta dados de clientes em 14 plataformas sem consentimento real. Vigilância corporativa, rastreamento comportamental e a hipocrisia do discurso de privacidade no C-level.
O apagão de talentos: 665 mil vagas, 465 mil formados
O número que dá título ao episódio é da Brasscom e descreve 2019 a 2024. O relatório seguinte da mesma Brasscom, de 07/07/2026, muda o diagnóstico: a formação subiu de 69,7 mil graduados em 2022 para 110,9 mil em 2024, e o setor somou 111,1 mil profissionais entre 2023 e 2025, e 55,6% deles entraram por MEI e informalidade, em vez de carteira assinada. O gargalo deixou de ser a falta de gente e virou o custo de formalizar.
Diversidade é KPI ou fotografia? O teste que ninguém quer fazer
Se você tirar as fotos do relatório anual e olhar só para os números de promoção, retenção e equidade salarial, a diversidade da sua empresa existe de verdade ou é vitrine?
IA na educação: democracia ou nova casta digital?
A TIC Educação do Cetic.br, publicada em 16/09/2025 com 1.023 escolas, achou 70% dos alunos do Ensino Médio usando IA generativa em pesquisa escolar e só 32% com alguma orientação da escola sobre como usar. O aluno já chegou; a política não. A distância entre os dois números é a pauta, e ela não se resolve comprando licença.
O emprego vai acabar — e ninguém preparou a sociedade
Ninguém mediu quantas funções a automação vai eliminar no Brasil, e todo número que circula é projeção sem método aberto. O que existe medido é mais modesto e mais incômodo: a Brasscom registrou, em 07/07/2026, que 55,6% do crescimento do setor de tecnologia entre 2023 e 2025 veio de MEI e informalidade. O emprego não sumiu; ele mudou de vínculo. O episódio começa pelo que dá para contar.
O executivo como influenciador: autoridade ou narcisismo?
CEOs com milhões de seguidores no LinkedIn postando frases motivacionais enquanto a empresa perde market share. Quando o personal branding do líder se descola da realidade do negócio, quem paga a conta?
Tecnologia e fé: o sagrado e o algoritmo podem coexistir?
O Censo 2022 do IBGE, cujos resultados de religião saíram em junho de 2025, achou 9,3% de brasileiros sem religião declarada, o que deixa nove em cada dez com alguma. Declarar religião não é o mesmo que acreditar, e o episódio começa desfazendo essa confusão. Como líderes que decidem por dados reconciliam fé, intuição e evidência? A conversa que o mundo corporativo evita.
Carta para quem vai herdar o que construímos
O episódio final da série. Cada convidado deixa uma mensagem para a próxima geração de líderes. O que construímos, o que destruímos, o que gostaríamos de ter feito diferente, e o que ainda dá tempo de mudar.
Repertório de perguntas
223 perguntas organizadas em 15 categorias temáticas — do pessoal ao profissional, com uma vertical para finanças, bancos, seguros e fintechs e outra em que cada pergunta só faz sentido depois de conhecer o número que a sustenta. O arsenal que Alexandre Caramaschi leva para cada conversa.
Formato e metodologia
Cada episódio segue a metodologia CAMADAS: Contexto, Abertura, Mecanismo, Atrito, Decisão, Aprendizado e Síntese. O framework foi desenvolvido para extrair insights que não aparecem em entrevistas convencionais — onde o entrevistador guia o convidado por camadas progressivas de profundidade, do contexto macro até o pessoal.
O objetivo é ir além das respostas ensaiadas. Com respeito e preparo, Alexandre conduz cada conversa para o território onde estratégia encontra vulnerabilidade — onde os números do board se cruzam com as histórias que não aparecem no relatório anual.
A condução mescla rigor analítico com escuta ativa, profundidade técnica com empatia genuína, e a capacidade de desconstruir narrativas corporativas com a elegância de quem já esteve do outro lado da mesa.
Como seria uma conversa no GEO Talk
Para ilustrar o formato, a profundidade e o ritmo do programa, simulamos um episódio completo com uma persona fictícia inspirada em perfis reais do ecossistema brasileiro de venture capital e tecnologia.

Gravação no Streambox Studio — Parque da Cidade, São Paulo
Airton Sembra
Managing Partner, Vertis Capital · Ex-CDO Meridional Mídia · Cofundador NexoLab · Criador IndexaBR
UNICAMP, MIT Sloan, Harvard, UC Berkeley Haas
Silicon Valley
Capítulo 1: Minas Gerais, UNICAMP e o Código como Linguagem Materna
O estúdio do Streambox Studio, no Parque da Cidade em São Paulo, está preparado. Iluminação quente, dois microfones, uma mesa baixa entre os dois. Airton Sembra entra com um sorriso desarmante — camisa de botão sem gravata, tênis minimalistas. Alexandre se levanta para cumprimentá-lo. Há um reconhecimento silencioso entre dois mineiros que fizeram carreira longe de casa.
Alexandre Caramaschi: Airton, você saiu de Minas, foi para a UNICAMP estudar engenharia da computação, começou um mestrado em computação de alto desempenho e não terminou. Essa decisão de largar o mestrado — foi coragem, impaciência ou você percebeu que o mercado estava se movendo mais rápido do que a academia conseguia acompanhar?
Airton ri baixo, olha para o lado como quem acessa uma memória antiga.
Airton Sembra: Foi impaciência honesta. Eu estava na UNICAMP, cercado de gente brilhante, mas o código que eu escrevia à noite, por conta própria, resolvia problemas reais mais rápido do que qualquer paper. A internet estava explodindo — estamos falando do final dos anos 90 — e eu sentia que cada semestre que eu ficava no mestrado era um semestre que o mundo avançava sem mim. Não foi contra a academia. Foi a favor da urgência.
Alexandre Caramaschi: Essa urgência te levou a criar o IndexaBR — o maior indexador de blogs em português do mundo. Naquela época, blog era a fronteira. Hoje parece pré-história. O que você enxergou que os outros não enxergaram?
Airton Sembra: Eu enxerguei que a produção de conteúdo ia se democratizar de forma irreversível. O IndexaBR não era só um indexador — era a prova de que pessoas comuns tinham coisas relevantes a dizer, e que a tecnologia podia organizar essa voz. O que me move até hoje é a mesma coisa: como a tecnologia amplifica a capacidade humana de criar e conectar.
Alexandre anota algo no bloco à sua frente. Há uma pausa calculada.
Capítulo 2: Do CTO de Pagamentos ao CDO da Segunda Maior Mídia do Brasil
Alexandre Caramaschi: Antes do IndexaBR, você foi CTO de uma subsidiária de pagamentos de uma corporação global americana. De engenheiro de software para governo brasileiro e Comunidade Europeia a executivo C-level de mídia — essa trajetória não é linear. Em que momento você percebeu que não era um técnico que gostava de negócios, mas um estrategista que falava a linguagem do código?
Airton se inclina para frente. Há uma mudança de energia — a pergunta o tocou.
Airton Sembra: Foi quando eu era CDO da Meridional Mídia — um dos maiores conglomerados de mídia do Brasil. Eu olhava para uma operação gigantesca, com revistas, portais, televisão, e percebia que a transformação digital não era um projeto de TI. Era uma reimaginação completa do modelo de negócio. E eu era o único na sala que entendia tanto o código quanto o P&L. Naquele momento, entendi que meu diferencial não era técnico — era a capacidade de traduzir entre dois mundos que normalmente não se falam.
Alexandre Caramaschi: E a NexoLab — sua startup Web 2.0 — foi a tentativa de provar essa tese na prática?
Airton Sembra: A NexoLab foi a minha escola de empreendedorismo real. Foi a primeira startup brasileira focada em produtos Web 2.0, com uma cultura inspirada no Vale do Silício. Quando criamos a empresa, em São Paulo, queríamos provar que era possível construir produtos globais a partir do Brasil. Algumas coisas funcionaram, outras não. Mas o aprendizado de fundar, gerir, pivotar e — sim — falhar em algumas apostas, me preparou para tudo que veio depois.
Alexandre percebe a janela e aprofunda.
Alexandre Caramaschi: Falhar em quais apostas, especificamente?
Airton pausa por três segundos. Olha para a câmera, depois volta para Alexandre.
Airton Sembra: A gente apostou que o mercado brasileiro estava pronto para certos modelos de monetização que funcionavam nos Estados Unidos. Não estava. Timing é tudo em tecnologia, e nós estávamos certos na tese mas adiantados na execução. É a dor clássica do visionário: você vê o futuro, mas o presente não tem infraestrutura para sustentá-lo.
Capítulo 3: Do Maker ao Venture Capitalist — Silicon Valley e o Ecossistema Brasileiro
Alexandre Caramaschi: Você é casado, tem duas filhas adolescentes, fundou o FazJunto — a primeira comunidade online do movimento maker no Brasil — e agora mora no Vale do Silício trazendo empresas de tech para o mercado brasileiro. Me fala sobre essa transição: de maker a venture capitalist. São mundos opostos ou complementares?
Airton sorri abertamente pela primeira vez.
Airton Sembra: São absolutamente complementares. O maker constrói com as mãos. O VC constrói com capital e rede. Mas a essência é a mesma: pegar algo que não existe e tornar real. Quando fundei o FazJunto, a missão era promover a cultura maker no Brasil — troca de ideias, colaboração, projetos open source. Quando entrei na Vertis Capital, a missão era similar: importar as melhores práticas de venture investing do Vale e adaptar para o ecossistema nascente brasileiro.
Alexandre Caramaschi: A Vertis Capital foi o primeiro fundo brasileiro de VC com patrocínio de firmas do Vale do Silício. Isso é uma conquista enorme — mas também significa pressão. Investidor americano cobra em dólar e em velocidade. Como é entregar resultado de mercado emergente para quem está acostumado com exits de US$ 1 bilhão no quintal de casa?
Airton assume um tom mais sério.
Airton Sembra: É um exercício diário de gestão de expectativas — dos dois lados. O investidor americano precisa entender que o Brasil não é uma versão menor dos Estados Unidos. É um mercado com 210 milhões de pessoas, complexidade regulatória absurda, mas com oportunidades que não existem em mercados maduros. E o empreendedor brasileiro precisa entender que capital do Vale vem com governança do Vale. Não dá para levantar em Palo Alto e operar como se fosse na Faria Lima sem processo.
Capítulo 4: O Brasil que o Mundo Subestima — e o Brasil que Se Subestima
Alexandre Caramaschi: Você transita entre San Francisco e São Paulo. Vive nos dois mundos. Quando um investidor de Singapura ou de Londres pergunta por que deveria colocar dinheiro no Brasil, o que você diz — de verdade, não o pitch ensaiado?
Airton se recosta na cadeira. Pensa por alguns segundos antes de responder.
Airton Sembra: Eu digo que o Brasil é o único país do mundo que combina escala continental, talento técnico de ponta e uma capacidade absurda de resolver problemas com recursos limitados. Nossos engenheiros aprendem a otimizar desde a faculdade porque não tem GPU sobrando, não tem budget infinito, não tem infraestrutura perfeita. Isso cria um tipo de inovação que é impossível de replicar em ecossistemas onde tudo funciona. O problema é que o próprio Brasil não acredita nisso. A nossa maior barreira não é capital — é autoestima empresarial.
Alexandre Caramaschi: Autoestima empresarial. Isso é forte. Você acha que o ecossistema brasileiro de startups superou o inverno de 2023-2024?
Airton Sembra: Superou o inverno, mas não aprendeu todas as lições. Ainda vejo founders levantando rodadas sem unit economics claro, boards que não questionam o suficiente, e uma obsessão com valuation que deveria ser obsessão com valor. O próximo ciclo precisa ser mais maduro — e para isso, precisamos de mais VCs que tenham operado empresas, não apenas investido nelas. É por isso que eu acredito que o perfil de VC-maker, de quem construiu antes de investir, é o que o Brasil mais precisa agora.
Alexandre faz uma pausa longa. O estúdio fica em silêncio por quatro segundos.
Capítulo 5: O Preço Pessoal e a Pergunta Final
Alexandre Caramaschi: Airton, última camada. Suas filhas estão na adolescência. Você mora a dez mil quilômetros de onde nasceu. A carreira te levou do interior de Minas para o centro do mundo tecnológico. Se elas pudessem escolher, teriam preferido o pai que construiu tudo isso — ou o pai que estaria todos os dias no portão da escola?
O rosto de Airton muda. Há uma vulnerabilidade que não apareceu em nenhuma outra resposta. Ele respira fundo.
Airton Sembra: Essa é a pergunta que eu me faço toda semana. E a resposta honesta é que eu não sei. Acho que elas preferiam os dois — e o meu trabalho diário é tentar ser os dois. Morar no Vale com a família foi uma decisão conjunta, e minhas filhas estão crescendo bilíngues, imersas em uma cultura de inovação, conhecendo gente que está construindo o futuro. Mas tem dias em que eu sinto que estou mostrando o mundo para elas e perdendo o mundo delas. Esse é o custo real. Não é financeiro. É temporal. E tempo não tem rodada de investimento.
Alexandre estende a mão. Airton aperta com firmeza. Os dois se olham como quem reconhece a mesma batalha silenciosa. A luz vermelha da câmera se apaga.
Alexandre Caramaschi: Airton Sembra, obrigado por essa conversa. Do interior de Minas para o Vale do Silício, do código ao capital, do maker ao investidor — sua trajetória é uma prova de que o Brasil produz gente que não apenas participa da conversa global, mas a lidera.
Airton Sembra: Obrigado, Alexandre. Volto quando quiser.
Episódio 2 — Mariana Vasconcelos
Mariana Vasconcelos
Ex-CIO · Top 10 CIOs Forbes Brasil · Autora · Fundadora do Movimento Mulheres em Tecnologia
São Paulo
Capítulo 1: A Engenheira que Entrou pela Porta dos Fundos
O Streambox Studio está mais silencioso que o habitual. Mariana Vasconcelos chega quinze minutos antes do horário — hábito de quem passou décadas gerindo operações onde atraso custava milhões. Veste preto sobre preto, um broche discreto de prata. Alexandre a recebe com um aperto de mão firme e um comentário sobre o livro dela que ele leu na véspera. Mariana sorri com surpresa — é raro que entrevistadores façam o dever de casa.
Alexandre: Mariana, você liderou uma das maiores jornadas de integração digital e tecnológica do Brasil, foi reconhecida pela Forbes como uma das Top 10 CIOs do país, e hoje fala sobre inovação regenerativa como se fosse a coisa mais natural do mundo. Mas eu quero voltar para o começo. Quando você entrou pela primeira vez numa sala de TI como a única mulher, o que sentiu — e o que não disse?
Mariana cruza as pernas, olha para o chão por dois segundos. Quando levanta o olhar, há algo afiado na expressão.
Mariana: Senti que estava invadindo um território que não me queria. Não era hostilidade aberta — era pior. Era a invisibilidade. Você fala numa reunião e ninguém responde. Cinco minutos depois, um homem repete exatamente a mesma ideia e todo mundo aplaude. Nos primeiros anos, eu achava que o problema era eu — que precisava falar mais alto, ser mais assertiva, provar mais. Depois entendi: o sistema não estava quebrado. Estava funcionando exatamente como foi desenhado — para me excluir.
Alexandre: E o que fez com essa constatação?
Mariana: Parei de pedir licença. Não no sentido agressivo — no sentido de parar de me justificar por estar ali. Comecei a tratar minha presença como fato consumado, não como concessão. Isso muda tudo: a postura, a voz, a forma como você ocupa o espaço físico na sala. E, curiosamente, quando você para de pedir permissão, as pessoas param de achar que precisam te conceder.
Capítulo 2: Cloud, IA Generativa e a Visão que o Board Não Queria Ouvir
Alexandre: Como CIO, você orquestrou parcerias com Google, AWS, Microsoft, SAP, Salesforce, Databricks — uma mesa de big techs que a maioria dos CTOs brasileiros só vê em conferência. Quando você apresentou a visão de cloud e IA generativa para o board, qual foi a reação real — não a que consta na ata?
Mariana ri pela primeira vez. É um riso curto, de reconhecimento.
Mariana: A reação real foi medo disfarçado de ceticismo. Quando você põe um número de investimento de oito dígitos na tela e diz que o retorno não vai aparecer no próximo trimestre, o board começa a fazer contas mentais de quanto custa te substituir por alguém menos ambícioso. Eu sabia que a proposta era certa. O desafio era traduzir visão em linguagem de risco — porque conselho não compra visão, compra redução de risco.
Alexandre: Como você fez essa tradução?
Mariana: Construí três cenários: o mundo em que não fazíamos nada e perdíamos 30% do mercado em 5 anos, o mundo em que fazíamos o mínimo e sobrevivíamos sem crescer, e o mundo em que apostávamos forte e liderávamos a categoria. Mostrei que o custo da inatividade era maior que o custo da transformação. E aí o medo mudou de lado da mesa.
Alexandre faz uma anotação. Há uma pausa que ele não preenche propositalmente.
Alexandre: E quando a IA generativa começou a alucinar em produção, quem ligou primeiro — o board ou o cliente?
Mariana: O cliente. Sempre o cliente. E aí você descobre que a distância entre o hype deck que vendeu o projeto e a realidade operacional é um abismo. Nós tivemos um incidente onde a IA gerou uma recomendação para um cliente que, se executada, teria causado prejuízo real. Não financeiro — reputacional. E aí você precisa ir para o board e dizer: “aquela visão linda que eu apresentei? Funciona — mas tem bordas cortantes que ninguém mencionou no pitch da big tech.”
Capítulo 3: O Livro, a Vulnerabilidade e o Preço da Autenticidade
Alexandre: Você escreveu um livro sobre coragem, autenticidade e liderança feminina na era da inovação. Escrever um livro é se despir publicamente. O que você colocou no livro que te custou noites de sono decidindo se deveria ou não publicar?
Mariana desvia o olhar para a câmera. Há um cálculo visível sobre o quanto revelar.
Mariana: Tem um capítulo sobre uma reunião em 2019 onde um colega de C-level me disse, na frente de seis pessoas, que eu estava sendo “emocional demais” para o cargo. O que ele quis dizer era que eu estava discordando dele com argumentos que ele não conseguia rebater, e a única arma que restava era me desqualificar pelo gênero. Colocar isso no livro com nomes trocados mas situações reconhecíveis foi uma decisão política. Porque se eu não falar, quem vai?
Alexandre: Esse colega leu o livro?
Mariana: Leu. E me mandou uma mensagem dizendo que não se reconhecia na descrição. Sabe o que é mais revelador do que o que aconteceu? O fato de ele não se reconhecer. Isso diz tudo sobre como o viés opera — é invisível para quem o prática.
O estúdio fica em silêncio por cinco segundos. Alexandre não interrompe.
Capítulo 4: Mulheres em Tecnologia — Movimento ou Mercado?
Alexandre: Você fundou um movimento de Mulheres em Tecnologia. Eu vou ser direto: movimentos corporativos de diversidade são frequentemente acusados de serem vitrine — fotos para o relatório anual, painéis onde todo mundo concorda entre si, e nenhuma mudança estrutural. O que separa o que você faz de teatro institucional?
Mariana se inclina para frente. A pergunta a incomodou — e ela sabe que era exatamente essa a intenção.
Mariana: Essa é a pergunta certa, e a maioria dos entrevistadores não a faz porque tem medo de parecer insensível. O que separa é número. Não narrativa — número. Quantas mulheres foram promovidas? Quantas estão em cargo de decisão, não de suporte? Qual é a diferença salarial real, não a ajustada por “função equivalente”, que é a forma mais sofisticada de esconder desigualdade? Quando você olha os números crus, a maioria dos programas de diversidade no Brasil é marketing. O nosso movimento cobra métricas. E métrica incomoda.
Alexandre: Isso te criou inimigos?
Mariana: Criou desconforto. Inimigo é palavra forte. Mas desconforto produtivo é exatamente o que o ecossistema precisa. Eu não quero ser aplaudida — quero ser útil.
Capítulo 5: Inovação Regenerativa e a Pergunta que Fica
Alexandre: Seu propósito declarado é “acelerar a inovação regenerativa e o crescimento com significado.” Isso soa bonito num perfil de LinkedIn. Na prática, o que significa quando você está sentada numa mesa de negociação com um fundo que só quer TIR de 25%?
Mariana sorri com o canto da boca. Reconhece a provocação.
Mariana: Significa que eu tenho que provar, com dados, que inovação regenerativa não é filantropia — é vantagem competitiva de longo prazo. Significa que eu escolho com quem sento. Eu já recusei capital que vinha com condições que contradiziam o que eu prego. E isso custou velocidade. Mas me deu algo que dinheiro não compra: coerência. E coerência, no longo prazo, atrai o capital certo.
Alexandre: Última pergunta. Suas filhas — se elas seguirem carreira em tecnologia, o caminho vai ser mais fácil do que o seu foi?
Mariana pausa. Pela primeira vez na conversa, a executiva cede espaço à mãe.
Mariana: Eu gostaria de dizer que sim. Mas se eu for honesta, acho que o caminho vai ser diferente — não necessariamente mais fácil. Os viéses mudaram de forma, não de substância. Hoje ninguém diz “mulher não programa.” Mas o algoritmo de recrutamento da empresa pode pensar exatamente isso — e ninguém questiona porque o viés está escondido no código, não na fala. O meu trabalho é garantir que quando minhas filhas entrarem nessa sala, o sistema já tenha sido reescrito. Não só o código — a cultura.
Alexandre estende a mão. Mariana aperta com firmeza. Há um brilho nos olhos dela que não estava lá no início — a emoção de quem falou verdades que normalmente guarda.
Alexandre: Mariana Vasconcelos, obrigado. De uma sala de TI onde ninguém te via a uma das 10 CIOs mais influentes do Brasil — sua trajetória é a prova de que tecnologia com propósito não é slogan, é estratégia.
Mariana: Obrigada, Alexandre. E pra quem está ouvindo: parem de pedir licença.
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