Agentes de código para executivos · Capítulo 25 de 27 · 15 min
Ler o mapa dos algoritmos de reforço para LLMs, do RLHF ao GRPO
Separe fonte do sinal, otimizador e regime de dados e diga, para qualquer proposta, quanto ela exige de memória, amostras e rótulos.
Este capítulo faz parte do curso gratuito Agentes de código para executivos.
Uma proposta de treino chega com a frase “usamos GRPO com recompensa verificável, sem modelo de recompensa”. O time tem dez minutos para dizer o que isso custa. Ao fim desta aula você separa três decisões que costumam vir juntas: quem dá a nota, como a nota vira ajuste de pesos e quando nascem as amostras de treino. Com essa separação, qualquer sigla nova do período, de PPO a Dr. GRPO, cabe num lugar conhecido e traz junto a infraestrutura que cobra.
Em palavras simples, aprendizado por reforço é ensinar o modelo por tentativa e recompensa: ele tenta muitas respostas, alguém ou algum programa dá a nota, e o treino aumenta a chance das tentativas que ganharam nota alta. Toda sigla desta aula muda uma de três coisas nesse ciclo: quem dá a nota, como a nota vira ajuste e de onde vêm as tentativas.
O apêndice Reconhecer a família de algoritmo que a proposta usa já apresentou as quatro famílias, o glossário curto e o cálculo básico da vantagem de grupo. Esta aula desce um nível. Mostra de onde cada peça veio, por que o GRPO tirou o crítico, que defeitos as variantes de 2025 corrigiram e quando cada combinação deixa de compensar. A função de recompensa continua sendo assunto daquela aula.
Sete termos que sustentam todas as fórmulas desta parte
| Termo | O que é | Analogia do dia a dia |
|---|---|---|
| Política | O próprio modelo, visto como a regra que escolhe o próximo token (pedaço de palavra) ou a próxima ação | O hábito de um vendedor diante de cada cliente |
| Trajetória | A sequência inteira de um episódio: tokens, chamadas de ferramenta e o que o ambiente devolveu | O roteiro de um atendimento, do bom-dia ao pedido fechado |
| Recompensa | O número que o juiz devolve sobre um passo ou sobre o resultado final | A nota da prova |
| Retorno | A soma das recompensas de uma trajetória, às vezes com desconto para o que vem depois | O saldo do mês inteiro |
| Vantagem | Quanto uma ação saiu melhor ou pior que o esperado naquele ponto | Vender acima da meta que a loja esperava |
| Amostragem on-policy | As amostras de treino saem da política atual, gerada de novo a cada rodada | Treinar com o próprio jogo de hoje |
| Divergência KL | Medida de quanto a política nova se afastou de uma política de referência | A guia que deixa o cão andar sem deixá-lo fugir |
Fonte: Elaboração própria, 11/10/2026
Com o vocabulário no lugar, o mapa tem três eixos que variam de forma independente. O primeiro é a fonte do sinal: quem diz se a resposta foi boa. O segundo é o otimizador: a conta que transforma a nota em ajuste de pesos. O terceiro é o regime de dados: se as amostras nascem durante o treino, da política atual, ou se chegam prontas de antes. RLHF, RLAIF e RLVR respondem ao primeiro eixo; PPO e GRPO, ao segundo. O DPO troca a perda e, na formulação original, também o terceiro eixo.
Se a figura ultrapassar a área visível, deslize para os lados. Pelo teclado, foque a figura e use as setas.
A fonte do sinal migrou de gente para programa em menos de três anos. No InstructGPT (OpenAI, março de 2022), pessoas compararam pares de respostas e um modelo de recompensa aprendeu essas preferências. O PPO otimizou a política contra esse modelo, e as saídas da versão de 1,3 bilhão de parâmetros foram preferidas às do GPT-3 de 175 bilhões. A Constitutional AI (Anthropic, dezembro de 2022) trocou quase todo o rótulo humano por uma IA que julga a partir de uma lista escrita de princípios.
O estudo RLAIF vs. RLHF (2023) mediu as duas fontes lado a lado e achou desempenho comparável. O degrau seguinte foi o verificador programático. O Tülu 3 (Ai2, novembro de 2024) deu nome ao RLVR, aprendizado por reforço com recompensa verificável. Nele a nota vem de conferir a resposta contra um gabarito ou de rodar testes, sem modelo de recompensa aprendido. O ganho é custo e escala. O risco muda de lugar, porque um verificador fraco vira alvo de atalho, assunto da última aula desta parte.
Do PPO às variantes do GRPO, 2017 a 2026
- 07/2017Concluído
PPO
Razão entre política nova e antiga, com corte, e várias épocas por lote.
- 03/2022Concluído
InstructGPT
RLHF com modelo de recompensa treinado em preferências e PPO.
- 12/2022Concluído
Constitutional AI
Princípios escritos no lugar da maior parte do rótulo humano.
- 05/2023Concluído
DPO
Preferência otimizada com perda de classificação, sem amostrar durante o treino.
- 02/2024Concluído
GRPO no DeepSeekMath
Sem crítico; 51,7% no MATH com 7 bilhões de parâmetros.
- 11/2024Concluído
Tülu 3 nomeia o RLVR
Recompensa vinda de verificação, sem modelo de nota.
- 01/2025Concluído
DeepSeek-R1
Raciocínio por RL puro; versão revisada na Nature em 09/2025.
- 03/2025Concluído
DAPO e Dr. GRPO
Consertos de entropia, amostragem e viés de tamanho.
- 10/2026Agora
GRPO como base de comparação
Os trabalhos de RL agêntico de 2026 se medem contra ele.
O PPO (Schulman e colegas, 2017) resolve um problema prático: atualizar a política várias vezes com o mesmo lote sem que ela salte longe demais. Ele calcula a razão entre a probabilidade da ação na política nova e na antiga. Fora de uma faixa estreita, a perda deixa de premiar empurrar mais essa razão, um limitador de velocidade suave. A vantagem vem de um crítico, segunda rede que estima quanto vale cada estado. Na montagem clássica de RLHF, quatro modelos ocupam a memória ao mesmo tempo: política, crítico, referência e modelo de recompensa.
O GRPO, apresentado no DeepSeekMath (DeepSeek, fevereiro de 2024), tira o crítico. Para cada prompt, a política gera um grupo de respostas e o juiz dá a nota de cada uma. A vantagem de cada resposta é a distância até a média do grupo, dividida pelo desvio. O resto do PPO continua: a razão com corte segue lá e, na formulação original, a penalidade de KL entra direto na perda. O ganho declarado pelos autores é de memória; o custo migra para as várias amostras por prompt.
- Etapa 1 de 6: Amostrar o grupo
várias respostas ao mesmo prompt
- Etapa 2 de 6: Dar a nota
verificador ou modelo de recompensa
- Etapa 3 de 6: Calcular a vantagem
nota menos a média, dividida pelo desvio
- Etapa 4 de 6: Cortar a razão
política nova sobre a antiga, numa faixa estreita
- Etapa 5 de 6: Somar a penalidade KL
distância até a referência
- Etapa 6 de 6: Atualizar os pesos
e amostrar de novo
from statistics import mean, pstdev
# Quatro respostas ao MESMO prompt, julgadas por um verificador (1 = passou).
recompensas = [1.0, 0.0, 0.0, 1.0]
tokens = [120, 480, 90, 150] # tamanho de cada resposta
# 1. GRPO original: a linha de base é a média do próprio grupo.
media, desvio = mean(recompensas), pstdev(recompensas)
v_grpo = [(r - media) / desvio for r in recompensas]
# 2. Dr. GRPO: tira a divisão pelo desvio (e, na perda, pelo tamanho).
v_dr = [r - media for r in recompensas]
# 3. PPO com crítico: a linha de base é o palpite V(s) de uma segunda rede.
palpite_do_critico = 0.7 # o crítico acha o prompt fácil
v_ppo = [r - palpite_do_critico for r in recompensas]
for nome, v in [("GRPO", v_grpo), ("Dr. GRPO", v_dr), ("crítico", v_ppo)]:
print(f"{nome:9}", [round(x, 2) for x in v])
# O viés de tamanho: dividir a vantagem pelo nº de tokens dilui a
# punição da resposta errada e longa.
for i in (1, 2):
print(f"errada com {tokens[i]} tokens: {v_grpo[i] / tokens[i]:.4f} por token")
# Saída:
# GRPO [1.0, -1.0, -1.0, 1.0]
# Dr. GRPO [0.5, -0.5, -0.5, 0.5]
# crítico [0.3, -0.7, -0.7, 0.3]
# errada com 480 tokens: -0.0021 por token
# errada com 90 tokens: -0.0111 por tokenCompare as três primeiras linhas da saída. O GRPO devolve mais um e menos um porque mede cada resposta contra as irmãs. O crítico, que esperava 0,7 daquele prompt, usa a mesma escala do Dr. GRPO e, comparado a ele, pune mais as erradas (menos 0,7 contra menos 0,5) e premia menos as certas. As duas contas têm defeito próprio. O crítico carrega uma expectativa aprendida sobre todos os prompts e erra quando ela erra. O grupo só conhece aquele prompt e herda o ruído de uma amostra pequena.
As duas variantes de março de 2025 nasceram de falhas observadas. O DAPO partiu de um GRPO ingênuo que marcou 30 pontos no AIME 2024 (prova de matemática usada como benchmark) com o Qwen2.5-32B. Chegou a 50 com quatro mudanças. A primeira é um corte mais alto do lado positivo, contra o colapso de entropia (o modelo passa a gerar quase sempre a mesma resposta). As outras três são o descarte dos grupos sem variação, a perda calculada por token e uma penalidade suave para resposta longa demais. O DAPO também retira a penalidade de KL.
O que cada marco publicou
1,3 bi > 175 bi
InstructGPT preferido ao GPT-3
RLHF com PPO, OpenAI, 03/2022
51,7%
no MATH com 7 bilhões de parâmetros
DeepSeekMath, onde nasceu o GRPO, 02/2024
30 → 50
pontos no AIME 2024, Qwen2.5-32B
GRPO ingênuo contra DAPO, 03/2025
43,3%
no AIME 2024 com base de 7 bilhões
Dr. GRPO, 03/2025
Fonte: InstructGPT, DeepSeekMath, DAPO e Dr. GRPO, arXiv
O Dr. GRPO (Liu e colegas, março de 2025) achou um viés na própria conta. Dividir a perda pelo tamanho de cada resposta dilui a punição de quem erra falando muito. No código acima, a errada de 480 tokens recebe cerca de um quinto da punição por token da errada de 90. O treino passa a punir menos a resposta errada longa, e o tamanho das respostas, sobretudo das erradas, cresce artificialmente. A correção tira as duas divisões, pelo tamanho e pelo desvio. A receita mínima dos autores chegou a 43,3% no AIME 2024 com um modelo de 7 bilhões de parâmetros.
A divisão pelo desvio distorce também a comparação entre prompts. Num grupo quase unânime, com notas 1, 1, 1 e 0, a média é 0,75 e o desvio é 0,43. A única resposta errada recebe vantagem de menos 1,73, e cada certa, mais 0,58. Sem a divisão, seriam menos 0,75 e mais 0,25: a conta multiplicou tudo por 2,31. No grupo dividido ao meio, o fator é só 2. Grupos quase unânimes ganham peso relativo, e o Dr. GRPO remove esse peso extra junto com a divisão pelo tamanho.
O DPO (Rafailov e colegas, 2023) muda o terceiro eixo. Ele parte de pares já rotulados, com uma resposta preferida e uma rejeitada. A política é ajustada com uma perda de classificação simples, sem modelo de recompensa e sem gerar amostra nenhuma durante o treino. Na formulação original é offline (há variantes online, que amostram a política atual): barato e estável, mas preso ao que os pares cobrem. Se a política aprende a errar de um jeito novo, nenhum par mostra esse erro, porque ninguém amostrou a política atual.
O que cada algoritmo exige antes de rodar
| Algoritmo | Modelo de recompensa? | Crítico? | Amostras por prompt | Dado de preferência? | Memória (modelos carregados) | Risco típico |
|---|---|---|---|---|---|---|
| PPO no RLHF clássico | Sim, aprendido | Sim | Uma, gerada na hora | Sim, para treinar o modelo de nota | Alta: política, crítico, referência e modelo de nota | Atalho contra o modelo de recompensa |
| PPO com verificador | Não, o verificador dá a nota | Sim | Uma, gerada na hora | Não | Média alta: política, crítico e referência | Crítico mal calibrado distorce a vantagem |
| GRPO | Opcional; com verificador, nenhum | Não | Várias: o grupo | Não | Média: política e referência | Grupo sem variação não ensina; viés de tamanho |
| DAPO | Não, com verificador | Não | Várias, descartando grupos unânimes | Não | Média: sem referência, porque tira a KL | Política se afasta do modelo base sem freio |
| Dr. GRPO | Não, com verificador | Não | Várias: o grupo | Não | Média: política e referência | Os do GRPO, sem o viés de tamanho |
| DPO | Não | Não | Nenhuma: os pares já existem | Sim, pares rotulados | Baixa: política e referência | Não vê os erros novos da política atual |
Memória contada em modelos carregados ao mesmo tempo, sem otimizador nem cache de geração. O custo do GRPO e das variantes migra para o número de amostras por prompt.
Fonte: Elaboração própria a partir de PPO, DeepSeekMath, DAPO, Dr. GRPO e DPO, arXiv
O DeepSeek-R1 juntou as três peças em escala. O relatório saiu em janeiro de 2025 e foi publicado na Nature em setembro de 2025. Ele mostra que a capacidade de raciocínio pode ser incentivada por RL puro, sem trajetórias de raciocínio rotuladas por pessoas. Na leitura dos três eixos, é verificador mais GRPO mais amostragem on-policy. Para quem orça, a consequência é direta: o gasto pesado sai do rótulo humano e vai para a geração de amostras.
O time quer ensinar um modelo pequeno a escrever consultas SQL para relatórios. Há 3.000 pares de preferência antigos, rotulados no ano passado, e uma suíte que executa cada consulta num banco de teste e compara o resultado com o esperado.
Qual combinação a Marina aprova primeiro?
Pegue a última proposta de treino que chegou ao seu time e escreva uma linha por eixo: fonte do sinal, otimizador e regime de dados. Depois preencha, para essa combinação, as colunas da tabela de exigências. A leitura está pronta quando cada célula tiver um número ou um nome: quantas amostras por prompt, quais modelos na memória, quem rotulou os pares. Célula com “a definir” volta para o autor antes de qualquer orçamento de GPU.
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