RLM 2027 · Capítulo 24 de 30 · 13 min
Decidir quando treinar pesos e quando a memória basta
Posicione uma proposta de melhoria na escada que vai do prompt ao reforço e faça a conta de retorno com cada premissa marcada.
Este capítulo faz parte do curso gratuito RLM 2027.
Um fornecedor de GPU ofereceu à Veredas um pacote fechado: ajuste fino de um modelo de 8 bilhões de parâmetros nas trajetórias da empresa, servido num endpoint próprio. Caio levou a proposta a Helena com o argumento do fornecedor. O sistema otimizado responde 93 de 120 perguntas a US$ 0,41 cada, e o pacote prometia cortar esse custo pela metade.
Responder pela promessa seria apostar. Treinar pesos é o degrau mais caro e mais difícil de desfazer de uma escada que começa no prompt. A Veredas já desceu dois degraus sem GPU: a otimização que levou o custo de US$ 0,86 para US$ 0,41 e a memória de estratégias que o baixou para US$ 0,37, com 47 e 46 acertos nas duas metades do conjunto.
Ao terminar, você posiciona qualquer proposta de melhoria num dos cinco degraus. Também aplica os critérios que justificam descer ao treino de pesos e faz a conta de retorno com premissas escritas. A decisão da Veredas serve de exemplo do começo ao fim, registrada num formato que um comitê consegue contestar.
Se a figura ultrapassar a área visível, deslize para os lados. Pelo teclado, foque a figura e use as setas.
O primeiro degrau é a instrução no prompt: muda em minutos e volta atrás apagando uma linha. O segundo é a memória de casos, exemplos resolvidos que o agente consulta antes de agir. O terceiro é o playbook evolutivo, um conjunto de estratégias que o próprio sistema reescreve sob avaliação. O ACE, por exemplo, somou 10,6% em tarefas de agentes sem tocar em pesos.
Nos dois degraus de baixo, a mudança vai para os pesos. O ajuste fino supervisionado (SFT) treina o modelo a imitar trajetórias boas; o reforço (RL) deixa o modelo tentar e premia o que um sinal aprova. Os dois exigem GPU, dados fora do conjunto de avaliação e uma suíte que prove que nada antigo quebrou.
Os cinco degraus pelos critérios que pesam na decisão
| Degrau | Custo e tempo | Como desfazer | Risco de regressão | Dado necessário |
|---|---|---|---|---|
| Instrução no prompt | Minutos, sem GPU | Apagar a linha | Baixo, visível no próximo teste | Só o conjunto de avaliação |
| Memória de casos | Horas, sem GPU | Remover o caso | Caso errado contamina quem o lê | Dezenas de casos resolvidos |
| Playbook evolutivo | Dias de otimização em API | Voltar à versão anterior | Estratégias demais pioram a escolha | Conjunto retido para cada versão |
| Ajuste fino supervisionado | GPU e semanas de preparo | Voltar ao modelo base guardado | Esquecimento de tarefas antigas | Centenas a milhares de trajetórias aprovadas |
| Reforço (RL) | GPU, ambiente e meses de ajuste | Voltar ao checkpoint anterior | Reward hacking e colapso do raciocínio | Verificador barato e milhares de episódios |
No playbook, Song e Wei (maio de 2026) mediram queda de até 21% ao passar de poucas skills úteis para 202. No reforço, Wu et al. (março de 2026) apontam cerca de mil exemplos de dificuldade equilibrada como ponto ideal no TravelPlanner.
Fonte: ACE, arXiv 2510.04618; Song e Wei, arXiv 2605.24050; Wu et al., arXiv 2603.21972; RLM, arXiv 2512.24601
Entre o terceiro degrau e o quarto há um meio-termo que pega emprestado o nome do reforço. O Training-Free GRPO, de uma equipe da Tencent, roda várias tentativas por pergunta, como o GRPO. Depois compara as do mesmo grupo e escreve em texto por que umas acertaram e outras não. Esse texto vira uma biblioteca de experiências colada ao prompt. Nenhum gradiente é calculado: o nome é analogia.
Com o DeepSeek-V3.1-Terminus congelado e 100 problemas de treino, o acerto médio em 32 execuções subiu de 80,0% para 82,7% no AIME 2024 e de 67,9% para 73,3% no AIME 2025. O aprendizado custou cerca de US$ 18. Os autores comparam com métodos de reforço em modelos de 32 bilhões que, segundo eles, custam acima de US$ 10.000.
Política melhorada sem mexer em pesos
82,7%
AIME 2024, modelo congelado
80,0% antes; média de 32 execuções
73,3%
AIME 2025, modelo congelado
67,9% antes
US$ 18
Custo do aprendizado
100 problemas, 3 épocas, grupos de 5
87,88%
Memento na validação do GAIA
Pass@3; 79,40% no teste
Fonte: Cai et al., arXiv 2510.08191 (outubro de 2025); Zhou et al., arXiv 2508.16153 (agosto de 2025)
A ablação do próprio artigo, a retirada de uma peça por vez para ver o que muda, mostra o que sustenta o ganho. Experiências escritas pelo modelo sem comparar tentativas ficaram abaixo do ponto de partida. Sem gabarito ou sem grupo, o ganho encolheu. O sinal útil vem da comparação dentro do grupo contra uma resposta conferida, o mesmo ingrediente do reforço com pesos.
O que sustenta o ganho do Training-Free GRPO no DeepSeek-V3.1-Terminus
| Variante | AIME 2024 | AIME 2025 |
|---|---|---|
| Agente sem experiências (ReAct com interpretador) | 80,0% | 67,9% |
| Experiências geradas direto pelo modelo | 79,8% | 67,3% |
| Sem gabarito no aprendizado | 80,7% | 68,9% |
| Sem grupo (uma tentativa por pergunta) | 80,4% | 69,3% |
| Método completo | 82,7% | 73,3% |
Média de acerto em 32 execuções por problema.
Fonte: Cai et al., Training-Free GRPO, arXiv 2510.08191, tabelas 1 e 2 (outubro de 2025)
O Memento, de agosto de 2025, chega ao mesmo lugar por outro caminho: guarda casos resolvidos numa memória e aprende só qual caso buscar, com o modelo congelado. Ficou em primeiro na validação do GAIA, com 87,88% em Pass@3 (acerto em pelo menos uma de três tentativas). A memória de casos somou de 4,7 a 9,6 pontos em tarefas fora da distribuição.
Os dois trabalhos descrevem uma política sem pesos: o comportamento muda porque o contexto muda, e o modelo continua o mesmo. Apagar a biblioteca devolve o sistema ao ponto de partida, e trocar o modelo de fronteira não apaga o que foi aprendido. Para a Veredas, é o caminho que a memória de estratégias já seguia.
A memória também tem teto, e é ele que indica a hora de olhar para baixo na escada. Song e Wei mostraram em maio de 2026 que bibliotecas de skills grandes pioram porque o agente escolhe a skill errada. Na Veredas, o sinal seria o playbook crescer por dois ciclos seguidos sem ganho de acerto no conjunto retido.
Na Veredas, descer ao treino de pesos só se justifica quando cinco critérios valem ao mesmo tempo. O primeiro pesa sobretudo no reforço, porque o ajuste fino supervisionado pode partir de exemplos revisados por pessoas. Se um critério falhar, a memória ou o playbook continua sendo a escolha mais barata e mais fácil de desfazer.
Critérios para migrar da memória para os pesos
Sinal e dado
0/3Ganho e custo
0/2Dois riscos só aparecem quando os pesos mudam. O primeiro é o colapso de modelo. Shumailov e colegas mostraram na Nature, em julho de 2024, que o uso indiscriminado de conteúdo gerado por modelos no treino causa defeitos irreversíveis: as caudas da distribuição original desaparecem. Numa consultoria, a cauda são os casos raros, como a única PCH (pequena central hidrelétrica) do acervo.
Gerstgrasser e colegas, em abril de 2024, mostraram a saída: acumular os dados sintéticos ao lado dos reais originais, em vez de substituí-los, mantém o erro de teste abaixo de um limite finito, por mais rodadas que se façam. Trajetórias geradas pelo próprio RLM só entram no treino somadas às perguntas reais dos analistas, nunca no lugar delas.
O segundo risco é o esquecimento: ajustar o modelo numa tarefa pode piorar outras que ele fazia bem. A defesa é uma suíte de regressão rodada antes e depois de cada treino. Ela junta as 120 perguntas, uma amostra de perguntas gerais e os 40 testes de injeção do capítulo de segurança. O modelo novo só entra se não perder em nenhum bloco além da variação medida.
- Etapa 1 de 6: Gravar perguntas reais
Com nota do revisor e trajetória completa
- Etapa 2 de 6: Somar, nunca substituir
Sintético entra ao lado do real acumulado
- Etapa 3 de 6: Bloquear o conjunto de avaliação
As 120 perguntas nunca entram no treino
- Etapa 4 de 6: Treinar a versão candidata
Modelo anterior guardado para voltar
- Etapa 5 de 6: Rodar a suíte de regressão
120 perguntas, amostra geral e 40 injeções
- Etapa 6 de 6: Promover ou voltar
Perda em qualquer bloco devolve o modelo anterior
A proposta do fornecedor vira número em três partes: o custo único de treinar, o custo mensal de servir e a economia mensal frente à API. Os fatos vêm do caso e do artigo do RLM; o resto é premissa, marcada como tal, para que qualquer pessoa troque um valor e refaça a conta.
Conta de retorno de um modelo próprio de 8 bilhões na Veredas
| Item | Valor | Origem |
|---|---|---|
| Volume | 400 perguntas por mês | Fato do caso |
| Custo atual pela API | 400 × US$ 0,41 = US$ 164 por mês | Fato do caso |
| Treino supervisionado | 48 horas de H100 × US$ 2,50 = US$ 120 | 48 h do artigo; preço da hora é premissa |
| Revisão das trajetórias | 2.100 × 2 min = 70 h × US$ 30 = US$ 2.100 | Premissa |
| Engenharia e avaliação | 80 h × US$ 40 = US$ 3.200 | Premissa |
| Custo único total | US$ 120 + US$ 2.100 + US$ 3.200 = US$ 5.420 | Soma |
| Servir o modelo próprio | 400 × US$ 0,05 + US$ 60 fixos = US$ 80 por mês | Premissa: GPU sob demanda |
| Economia mensal | US$ 164 menos US$ 80 = US$ 84 | Conta |
| Retorno do investimento | US$ 5.420 ÷ US$ 84 = cerca de 65 meses | Conta |
Cenário ilustrativo da Veredas Ambiental. As 2.100 trajetórias vêm de mil aprovadas divididas pela taxa de aprovação de cerca de 48% do artigo. A conta não inclui perda de qualidade.
Fonte: Zhang, Kraska e Khattab, arXiv 2512.24601, v3, apêndice A (48 horas de H100); premissas do cenário
Com essas premissas, o modelo próprio se paga em cerca de 65 meses, mais de cinco anos. A conta piora com a memória de estratégias, que já levou o custo a US$ 0,37: a fatura da API cai para US$ 148, a economia para US$ 68 e o retorno para cerca de 80 meses. Nesse intervalo, o modelo de fronteira muda de versão várias vezes.
Para o retorno caber em 12 meses, a economia mensal precisa cobrir US$ 452 do investimento mais US$ 60 fixos, US$ 512 no total. Cada pergunta economiza US$ 0,36 (0,41 menos 0,05), e 512 dividido por 0,36 dá cerca de 1.420 perguntas por mês, 3,5 vezes o volume atual da Veredas.
A conta ainda ignora a qualidade. No OOLONG, o RLM-Qwen3-8B treinado marcou 32,0 contra 56,0 do RLM com GPT-5 no raiz, na tabela do artigo citada no capítulo 17. Sem medir o modelo próprio nas 120 perguntas, os 93 acertos podem cair, e cada acerto perdido custa mais em revisão de Helena do que os centavos economizados.
O reforço sai da mesa por outro motivo: o verificador. Nas 120 perguntas há gabarito, mas nas perguntas reais quem confere é Helena ou um revisor. Recompensa que depende de pessoa em cada episódio é cara e lenta. Trocar a pessoa por um juiz automático sem conferência abre a porta ao reward hacking do capítulo anterior.
O fornecedor oferece ajuste fino de um modelo de 8 bilhões nas trajetórias da Veredas. O sistema atual faz 93 de 120 a US$ 0,41 por pergunta, com 400 perguntas por mês, e a memória de estratégias já baixou o custo para US$ 0,37. A conta com premissas dá retorno em cerca de 65 meses.
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