Prompt Engineering para Executivos · Capítulo 10 de 28 · 13 min
Decidir quando o exemplo ajuda e quando atrapalha o modelo
Use de três a cinco exemplos para formato, tom e casos de fronteira; em modelo de raciocínio, comece sem exemplo e só acrescente o que vencer no teste.
Este capítulo faz parte do curso gratuito Prompt Engineering para Executivos.
Exemplo no prompt ajuda quando ensina formato, tom ou o caso de fronteira que a regra escrita não resolve, e atrapalha quando um modelo de raciocínio passa a copiar os passos dele. Vale para quem mantém classificadores, extratores e respostas padronizadas: teste hoje a versão sem exemplos contra a versão com três.
Os guias oficiais parecem brigar. O Google recomenda incluir exemplos sempre, a OpenAI manda começar sem eles nos modelos de raciocínio e a Anthropic pede de três a cinco, dentro de tags. Quem aplica a orientação de um fornecedor no modelo de outro paga em qualidade ou em tokens (pedaços de palavra que a API cobra), e a escolha certa sai de uma bateria de teste que cabe numa tarde.
Few-shot (aprendizado por poucos exemplos) é colocar no prompt pares de entrada e saída desejada, como o modelo de carta que o chefe entrega ao assistente novo. O modelo infere o padrão dos pares e repete forma, tom e critério. Por isso o exemplo rende mais onde a regra é difícil de escrever: a voz da marca, o JSON (formato de dados trocado entre sistemas) com campos fixos e o ticket ambíguo que a casa decidiu tratar de um jeito próprio.
Em 2024, a regra prática era incluir exemplos quase sempre. Os modelos de raciocínio, que pensam em etapas internas antes de responder, mudaram a conta. O artigo do DeepSeek-R1, de janeiro de 2025, registra que exemplos degradam o desempenho desse modelo e recomenda descrever o problema e o formato de saída em zero-shot (pedido só com a instrução, sem exemplo). Em setembro de 2025, o estudo arXiv 2509.23196 mostrou que acrescentar exemplos resolvidos derruba a acurácia de modelos de raciocínio mesmo quando as demonstrações são ótimas.
O mecanismo tem nome no estudo: desorientação semântica, ou seja, o modelo copia os passos do exemplo para o problema novo, que pedia outro caminho. O conserto testado pelos autores foi trocar a solução resolvida por uma lição explícita tirada dela, e com esse ajuste o GPT-4.1 melhorou 14,0% no AIME'25, prova de matemática usada como teste. Em tarefa de lógica, escreva o critério; em tarefa de forma, mostre o exemplo.
Exemplo ou instrução, por tipo de tarefa e de modelo
Eixo horizontal: Modelo: sem raciocínio para com raciocínioEixo vertical: Tipo de tarefa: de forma (formato, tom) para de lógica (cálculo, várias etapas)
Forma em modelo sem raciocínio: de três a cinco exemplos variados
- Resposta no tom da marca
- JSON com campos fixos
- Rótulos de triagem com regra da casa
Forma em modelo de raciocínio: comece zero-shot e use exemplo só para formato difícil
- Parecer com estrutura fixa do escritório
- Tabela com colunas numa ordem exigida
- Um exemplo curto, alinhado à instrução
Lógica em modelo sem raciocínio: instrução clara e um ou dois exemplos de fronteira
- Prioridade entre duas categorias
- Conversão com exceção interna
- Medir antes de acrescentar o terceiro
Lógica em modelo de raciocínio: zero-shot com o critério escrito, sem solução resolvida
- Conciliação de extrato com notas fiscais
- Cálculo de prazo contratual
- Diagnóstico com várias etapas
A divergência entre os guias diminui quando se olha para o tipo de modelo. O Google escreve para o Gemini e pede exemplos poucos, variados e consistentes no formato; a OpenAI escreve para modelos de raciocínio e manda começar sem eles. Nos dois casos o exemplo precisa casar com a instrução, com os mesmos campos e nomes, porque o descompasso entre os dois piora a resposta.
A pesquisa também traz contraevidência. Em análise de sentimento, o DeepSeek-R1 melhorou com exemplos e teve o melhor resultado com 30 deles (arXiv 2503.11655). Classificar texto curto continua sendo terreno fértil para o exemplo, e por isso o guia prático mais abaixo testa os dois caminhos na mesma bateria.
Como fica em cada modelo
| Modelo | O que muda | Cuidado |
|---|---|---|
| Claude (Anthropic) | De três a cinco exemplos relevantes e variados, dentro de tags example, para formato, tom e estrutura | Opus 5.5 e Fable 5.1 pensam sempre; em tarefa de lógica, troque a solução resolvida pelo critério escrito |
| OpenAI (GPT) | Nos modelos de raciocínio, começar zero-shot e usar exemplo só quando o formato exigir | Exemplo que contradiz a instrução piora a saída; o otimizador de prompt do Playground procura esse descompasso |
| Gemini (Google) | Recomenda incluir exemplos sempre, poucos, consistentes no formato e variados | Exemplos demais causam sobreajuste: o modelo imita detalhes dos casos e perde o padrão |
| Grok (xAI) | Sem diferença documentada: a xAI não publica guia de prompting | O raciocínio do Grok 4.7 não desliga; meça a versão zero-shot antes de pagar pelos exemplos |
| Modelos abertos (DeepSeek, Qwen) | O artigo do DeepSeek-R1 recomenda zero-shot com o formato de saída descrito | No DeepSeek-R1-14B, um único exemplo baixou a nota de 40,28 para 31,78 em tarefas difíceis |
Linha sem orientação oficial do fornecedor diz isso por escrito; o teste na sua bateria decide.
Fonte: Anthropic, OpenAI, Google e xAI, documentação de 13/10/2026; arXiv 2501.12948 (jan. 2025) e 2509.17628 (set. 2025)
Três situações comuns mostram a decisão funcionando em setores diferentes. Em cada uma, o que define a escolha é o que o exemplo ensina: forma, fronteira ou um caminho de cálculo que o modelo vai repetir.
Onde o exemplo paga e onde cobra
1 de 3Atendimento: triagem com regra da casa
A loja decidiu que pagamento confirmado sem pedido gerado é cobrança, mesmo quando o cliente pergunta da entrega. Um exemplo com esse caso de fronteira ensina a regra melhor que um parágrafo de instrução.
Marketing: tom de voz aprovado
Três respostas já publicadas pela marca, curtas e diferentes entre si, transmitem ritmo e vocabulário que adjetivos como próximo ou leve não descrevem. Vale no Claude, no Gemini e no GPT sem raciocínio.
Finanças: conciliação com modelo de raciocínio
Cinco conciliações resolvidas passo a passo fazem o modelo repetir as contas de um caso antigo quando surge estorno parcial. A regra de casamento escrita e um exemplo só de formato resolvem melhor.
No caso de finanças está o defeito que o estudo de setembro de 2025 descreve. O exemplo resolvido carrega a solução inteira, com números e ordem de operações, e o modelo de raciocínio reaproveita o caminho de cálculo sem extrair dele o critério. A troca por lição explícita mantém o conhecimento do caso e tira o caminho que seria copiado.
Exemplo resolvido ou lição explícita, num modelo de raciocínio
Evitar
Copia os passos
- Caso antigo resolvido passo a passo dentro do prompt
- Cinco soluções completas da mesma família de problema
- Exemplo com regra que a instrução não menciona
- Saída do exemplo num formato diferente do pedido
Fazer
Transfere o critério
- Lição do caso em uma frase: estorno parcial abate a nota de origem
- Critério de decisão escrito uma vez, na instrução
- Exemplo só de formato, com conteúdo neutro
- Exemplo e instrução com os mesmos campos e nomes
Exemplo também custa token, e o custo se repete em toda chamada. Num cenário de 100 mil tickets por mês com 600 tokens de exemplos, são 60 milhões de tokens de entrada só nesse bloco: US$ 120 por mês no Claude Sonnet 5.5, a US$ 2 por milhão. Se o bloco fixo ficar no começo do prompt e o cache (cópia já processada que o fornecedor relê com desconto) acertar quase todas as chamadas, a releitura a US$ 0,10 por milhão leva a conta para perto de US$ 6.
Com data, nome do cliente ou número de protocolo dentro dos exemplos, o bloco muda a cada chamada e perde o desconto. Deixe os exemplos fixos antes de qualquer conteúdo variável e meça se cada um ainda ganha o lugar que ocupa.
Guia prático: escolher entre zero-shot e três exemplos na triagem de tickets
O mesmo pedido de classificação roda em duas versões, no mesmo modelo e com o mesmo nível de esforço. A bateria decide qual fica.
Passo 1: Separe uma bateria de 40 tickets já rotulados
Inclua ao menos dez casos de fronteira: pagamento sem pedido, mensagem sem assunto, dois assuntos juntos.
Deu certo quando: Cada ticket tem a categoria certa anotada por quem conhece a regra da casa.
Erro comum: Usar na bateria os mesmos tickets que depois viram exemplos.
Passo 2: Rode a versão zero-shot
Use o prompt A abaixo, com categorias e regras escritas e o formato de saída descrito.
Deu certo quando: Todas as linhas saem em JSON válido, com evidência literal.
Erro comum: Corrigir o prompt no meio da rodada e misturar duas versões.
Passo 3: Escolha três exemplos pelas falhas da rodada
Um exemplo por fronteira que a versão A errou, com texto diferente dos tickets da bateria.
Deu certo quando: Os três exemplos caem em situações diferentes e cobrem as falhas vistas.
Erro comum: Escolher os tickets mais frequentes, que o modelo já acertava.
Passo 4: Rode a versão com exemplos
Use o prompt B, idêntico ao A mais o bloco de exemplos antes dos tickets.
Deu certo quando: A diferença entre A e B está só nos exemplos.
Erro comum: Trocar modelo ou nível de esforço entre as duas rodadas.
Passo 5: Compare por tipo de ticket
Conte acertos em separado para tickets fáceis e de fronteira.
Deu certo quando: Fica claro se o ganho veio das fronteiras e se os fáceis se mantiveram.
Erro comum: Olhar só a média, que esconde a perda nos casos simples.
Passo 6: Decida e registre a versão
Anote no repositório qual prompt ficou, a data e o placar das duas rodadas.
Deu certo quando: Qualquer mudança futura nos exemplos tem uma linha de base para comparar.
Erro comum: Aprovar a versão com exemplos só porque parece mais completa.
No fim você tem: Um classificador com a quantidade de exemplos que a bateria justificou, e um placar guardado para a próxima revisão.
{"id": "T1", "categoria": "entrega", "evidencia": "parado em Cajamar há seis dias"}
{"id": "T2", "categoria": "cobranca", "evidencia": "Paguei R$ 389,90 no Pix ontem e o pedido não aparece no app"}
{"id": "T3", "categoria": "entrega", "evidencia": "Ainda não chegou."}
{"id": "T4", "categoria": "acesso", "evidencia": "o código de verificação não chega por SMS"}
{"id": "T5", "categoria": "cobranca", "evidencia": "Fui cobrada duas vezes no cartão"}
Leitura: quatro acertos. T3 sai como entrega porque o modelo completou
um assunto que o ticket não informa, apesar da regra escrita.{"id": "T1", "categoria": "entrega", "evidencia": "parado em Cajamar há seis dias"}
{"id": "T2", "categoria": "cobranca", "evidencia": "Paguei R$ 389,90 no Pix ontem e o pedido não aparece no app"}
{"id": "T3", "categoria": "esclarecer", "evidencia": "Ainda não chegou."}
{"id": "T4", "categoria": "acesso", "evidencia": "o código de verificação não chega por SMS"}
{"id": "T5", "categoria": "cobranca", "evidencia": "Fui cobrada duas vezes no cartão"}
Leitura: cinco acertos. O exemplo E2 mostrou a fronteira que a regra
escrita não passou, e os quatro tickets fáceis ficaram iguais.Cinco tickets ilustram a diferença, e quem decide é a bateria de 40. O critério é ganho nas fronteiras sem perda nos fáceis: se a versão B acerta mais casos ambíguos e mantém os simples, os exemplos ficam; se as duas empatam, fica a versão A, mais curta e mais barata em toda chamada.
Qual versão fica, pelo resultado da bateria
| Resultado da bateria | Fique com | Por quê |
|---|---|---|
| B acerta mais fronteiras e empata nos fáceis | Versão com exemplos | O exemplo ensinou a regra da casa que a instrução não passou |
| A e B empatam | Versão zero-shot | Mesma qualidade com menos tokens em toda chamada |
| B piora tickets fáceis ou repete trechos dos exemplos | Versão zero-shot, com a regra reescrita | Sinal de que o modelo imita os casos; troque exemplo por critério |
| B só corrige o formato do JSON | Versão zero-shot com saída estruturada da API | O esquema validado pela API dispensa exemplo de formato |
Rode as duas versões no mesmo modelo e no mesmo nível de esforço; trocar um dos dois invalida a comparação.
Os erros mais comuns aparecem depois que os exemplos entram em produção, quando ninguém mais revisa o bloco.
Cinco jeitos de o exemplo sair caro
Todo exemplo entra pelo que ensina e sai quando a bateria não mostra ganho.
- Ticket da bateria copiado para os exemplos vira consulta ao gabarito
- Três exemplos da mesma categoria puxam as respostas para ela
- Exemplo com campo que a instrução não pede gera saída fora do contrato
- Data ou nome de cliente no bloco de exemplos derruba o cache do prefixo
- Solução resolvida em modelo de raciocínio é copiada passo a passo
O teste: Tire um exemplo por vez e rode a bateria: se o placar não muda, ele sai.
alexandrecaramaschi.com/educacao/frontends-com-vibecoding
O caso a seguir junta as duas metades da decisão, qualidade e custo, num fluxo financeiro.
A equipe usa um modelo de raciocínio para conciliar extratos bancários com notas fiscais. O prompt tem cinco conciliações antigas resolvidas passo a passo. Nos meses com estorno parcial, o modelo repete a sequência de contas de um dos exemplos e erra o valor. Um analista propõe acrescentar mais cinco exemplos, todos com estorno.
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