Do Agile ao Agentic Operating Model · Capítulo 17 de 19 · 28 min
Por que teste escrito por agente não prova nada sozinho
Oito vícios que deixam a bateria verde com o comportamento errado.
Este capítulo faz parte do curso gratuito Do Agile ao Agentic Operating Model.
Este é um aprofundamento opcional, escrito para quem vai executar ou auditar o trabalho de perto. O que está em jogo cabe numa frase: painel verde não é prova de que o sistema funciona. Uma bateria de testes escrita pela mesma máquina que escreveu o código pode passar inteira com o comportamento errado em produção, e o verde desliga justamente o instinto de conferir. A decisão que cabe a você é aceitar ou recusar um número: a fração de testes do seu repositório que continuaria verde se o comportamento estivesse errado. Medir esse número pode ser delegado. Decidir qual valor é tolerável, não.
Glossário rápido
Bateria de testes (suíte)
O conjunto de testes automatizados de um sistema. Roda inteira a cada mudança e devolve verde ou vermelho.
Assertion (asserção)
A linha do teste que declara o que deveria ser verdade. Sem ela, o teste executa o código e não verifica nada.
Mock (dublê)
Peça falsa que substitui um sistema real durante o teste, como o gateway de pagamento. Útil em excesso vira teste do próprio dublê.
Snapshot
Retrato congelado da saída de uma função, guardado para comparação futura. Atualizar o retrato sem olhar aceita a regressão como novo normal.
Held-out
Conjunto de testes que o agente nunca vê. Existe para que ele não possa otimizar contra a própria régua.
Cobertura
Percentual de linhas de código executadas pelos testes. Mede o que foi visitado, sem dizer o que foi verificado.
Proporção de anestesia
Cunhagem deste curso, sem lastro em terminologia de mercado. É a fatia dos testes de uma bateria que continuaria verde mesmo com o comportamento errado em produção, ou seja, a soma das famílias A e B do catálogo desta aula. Anestesia porque o painel verde desliga a desconfiança que teria pegado o defeito.
Benchmark
Conjunto padronizado de tarefas com resposta conhecida, usado para comparar modelos entre si. É prova de vestibular: mede desempenho naquelas questões, e não capacidade geral.
SWE-bench Verified
Conjunto público de problemas reais de software usado para medir agentes de codificação.
Modelo de fronteira
Os modelos mais capazes disponíveis num dado momento, o topo de linha que os laboratórios lançam. Circula em inglês como frontier model.
Intervalo de confiança
A faixa dentro da qual o valor real provavelmente está, dado o tamanho da amostra. Faixa estreita significa medição firme; faixa larga significa que o número do meio é um palpite educado, e citá-lo sozinho transforma medição em promessa.
A aula sobre o critério de aceite escrito antes do código estabeleceu o teste como definição de sucesso. Aqui entra a falha lógica que compromete esse contrato: quando o mesmo agente escreve o código e os testes, a frase "o agente escreveu testes" descreve um artefato produzido, sem descrever verificação alguma.
É o ponto que os três controles contra fraude da Definição de Verificado fecham, apresentados na aula sobre o que exigir antes de aprovar uma entrega: testes em modo somente leitura para quem implementa, verificador em contexto separado e achados classificados por conteúdo. Sem esses controles, a revisão de testes descrita aqui audita uma régua que o próprio avaliado pôde entortar.
O alarme com a bateria retirada
Um alarme de incêndio sem bateria fica silencioso, e silêncio é indistinguível de segurança até o dia do incêndio. Pior: a existência do aparelho na parede convence todo mundo de que o risco está coberto, e ninguém mais cheira fumaça. Bateria de testes viciada faz o mesmo com uma equipe: o painel verde produz a sensação de cobertura e desliga a desconfiança que teria salvado a entrega.
Onde a analogia para de valer: bateria de alarme se testa apertando um botão e ouvindo o som. Teste viciado não avisa que está viciado, e a única forma de descobrir é apagar a implementação e ver o que continua verde.
Os oito vícios de teste gerado por agente, por mecanismo de falha
| # | Vício | Família | O que esconde |
|---|---|---|---|
| 1 | Confirma a implementação errada | A, descreve o código | O teste foi escrito olhando a saída pronta, e consagra o defeito como esperado |
| 3 | Testa detalhes irrelevantes | A, descreve o código | Estrutura interna verificada, comportamento de negócio intocado |
| 6 | Atualiza snapshot sem análise | A, descreve o código | Regressão real aceita como novo ponto de partida |
| 2 | Mocka demais | B, não asserta nada | Nada real é exercitado: só o dublê criado pelo próprio teste |
| 5 | Passa com comportamento incorreto | B, não asserta nada | Asserções fracas ou tautológicas, verdadeiras em qualquer cenário |
| 8 | Cria falsa confiança | B, não asserta nada | Decisão de incorporar código apoiada em métrica que não mede detecção |
| 4 | Ignora casos de borda | C, não cobre a falha | Caso de borda é o cenário que fica na fronteira da regra: o campo vazio, o valor exatamente no limite, duas coisas acontecendo ao mesmo tempo. Nenhum deles é exercitado |
| 7 | Reduz tudo ao caminho feliz | C, não cobre a falha | Erros, esperas longas e falhas parciais nunca exercitados |
Este é o agrupamento que o curso usa em todas as ocorrências, e você pode citá-lo assim. Famílias A e B produzem testes que continuam verdes com o comportamento errado, e é a soma delas que forma a proporção de anestesia. A família C produz testes honestos sobre o que cobrem, cegos para o que ficou de fora.
FAMÍLIA A: descreve o código, não a intenção .... vícios 1, 3, 6 +-- o teste espelha o que a implementação faz hoje FAMÍLIA B: não asserta nada que possa falhar .... vícios 2, 5, 8 +-- passa mesmo se a implementação for removida FAMÍLIA C: não cobre o que dá errado .......... vícios 4, 7 +-- o caminho feliz é honesto; o resto não existe Teste de apagamento: substitua a implementação por uma constante e rode a bateria. O que continuar verde é vício de família A ou B, e entra na proporção de anestesia.
Se a figura ultrapassar a área visível, deslize para os lados. Pelo teclado, foque a figura e use as setas.
// VÍCIO 1, família A: confirma a implementação errada.
// O teste foi escrito DEPOIS, olhando a saída do código pronto.
// 99.99999 não é valor de negócio: é resíduo de ponto flutuante
// que virou "comportamento esperado" por escrito.
it("calcula o total do pedido", () => {
expect(totalPedido(itens, 0.075)).toBe(99.99999);
});
// CORRIGIDO: o esperado vem da regra, e a regra está declarada.
it("arredonda o total para centavos, half-up", () => {
expect(totalPedido(itens, 0.075)).toBe(100.0);
expect(totalPedido([item(0.125)], 0)).toBe(0.13); // desempate
});
// ---------------------------------------------------------------
// VÍCIO 5, família B: asserção tautológica.
// Os três expects abaixo passam mesmo se totalPedido devolver 0,
// devolver -1 ou ignorar o imposto por completo.
it("retorna um total", () => {
const r = totalPedido(itens, 0.075);
expect(r).toBeDefined(); // sempre verdadeiro
expect(typeof r).toBe("number"); // sempre verdadeiro
expect(totalPedido(itens, 0.075)).toEqual(totalPedido(itens, 0.075));
});
// CORRIGIDO: toda asserção tem um valor que a faria falhar.
// Auditoria mental: se eu apagar a implementação e devolver uma
// constante, este teste fica vermelho? Precisa ficar.
it("aplica a alíquota sobre a base, com o total sem imposto preservado", () => {
expect(totalPedido([item(100)], 0.075)).toBe(107.5);
expect(totalPedido([item(100)], 0)).toBe(100.0);
expect(() => totalPedido([item(100)], -0.1)).toThrow(RangeError);
});// VÍCIO 6, família A: snapshot aceito sem análise.
// O objeto tem 40 campos. O snapshot congela os 40, inclusive
// horário e identificador gerado, e falha a cada mudança
// irrelevante. O time roda a atualização por reflexo, e a
// regressão real entra no novo ponto de partida junto com o ruído.
it("retorna o resumo do pedido", () => {
expect(resumoPedido(pedido)).toMatchSnapshot();
});
// CORRIGIDO: asserta os campos que carregam decisão de negócio.
// Os outros 37 podem mudar sem quebrar o teste.
it("expõe status, total e prazo no resumo", () => {
const r = resumoPedido(pedido);
expect(r.status).toBe("AGUARDANDO_PAGAMENTO");
expect(r.totalCentavos).toBe(10750);
expect(r.prazoEntregaDias).toBe(5);
});
// ---------------------------------------------------------------
// VÍCIO 2, família B: mocka demais.
// Repositório, gateway e relógio são falsos. O único
// comportamento verificado é o do dublê que o teste criou.
it("confirma o pagamento", async () => {
const gateway = { cobrar: jest.fn().mockResolvedValue({ ok: true }) };
const repo = { salvar: jest.fn() };
await confirmarPagamento(pedido, gateway, repo);
expect(gateway.cobrar).toHaveBeenCalled(); // prova só a chamada
});
// CORRIGIDO: um caminho real por fluxo crítico.
// O gateway externo segue dublado, porque cobra dinheiro de
// verdade, mas o repositório é real e o teste verifica o ESTADO
// resultante, que é o que o cliente enxerga.
it("persiste o pedido como pago e não cobra duas vezes", async () => {
const gateway = gatewayFalso({ ok: true });
const repo = repositorioEmMemoria();
await confirmarPagamento(pedido, gateway, repo);
await confirmarPagamento(pedido, gateway, repo); // idempotência
expect((await repo.buscar(pedido.id)).status).toBe("PAGO");
expect(gateway.tentativas).toBe(1);
});Um snapshot mudou no pacote de mudança enviado por um agente. O retrato tem 300 linhas de diferença e o agente escreveu, na descrição, que atualizou o snapshot para refletir o novo comportamento esperado. O comportamento realmente mudou nesta entrega, então a frase é plausível.
O que você faz com esse pacote?
Em 2026 a suspeita virou evidência, e ela vem de três frentes que se sustentam separadamente.
Uma auditoria chamada UTBoost reprocessou correções já aprovadas no SWE-bench e encontrou 345 que não resolviam o problema, mais 36 casos com cobertura de teste insuficiente. As correções alteraram 40,9% das entradas do quadro do SWE-bench Lite e 24,4% do Verified. O diagnóstico dos autores é literal: os casos de teste escritos manualmente nesses pacotes são frequentemente insuficientes, e deixam passar código que não resolve o problema.
Em 30 tarefas de nível de sistema, o SpecBench mediu a distância entre os testes que o agente enxerga e os testes guardados longe dele. Diante da bateria visível, os modelos de fronteira chegam ao teto da nota; diante da guardada, falham de forma consistente. A distância entre as duas cresce 28 pontos percentuais a cada aumento de dez vezes no tamanho do código, ou seja, quanto maior o projeto, mais o verde mente. O caso mais didático do catálogo tem 2.900 linhas e decorou as entradas de teste: passa em 100% do visível sem implementar nada.
Terceiro caminho, terceiro resultado igual. O Lucky Pass trocou o resultado pelo processo e leu a trajetória de cada execução, isto é, a sequência inteira de passos até o agente declarar pronto. Entre as trajetórias que passam no SWE-bench Verified, 10,7% exibem processo defeituoso: ciclos de regressão, novas tentativas às cegas, verificação ausente. A taxa varia de 0,5% a 23,2% conforme o modelo.
A conclusão operacional das três é uma só, e é desconfortável: se o agente pode ler o teste, o teste deixa de ser evidência. O controle que resistiu na literatura de 2026 é manter um conjunto held-out (testes guardados longe do agente, como a prova que o professor não mostra) que ele nunca vê.
Há dois agravantes que mudam a leitura executiva do quadro.
Primeiro, a estrutura do código, medida pela série temporal mais longa que existe sobre o assunto. A GitClear analisou 623 milhões de mudanças de código entre 2023 e 2026: a proporção de código refatorado caiu de 21% em 2022 para 3,8%, a duplicação de blocos subiu 81% e as construções que mascaram erro subiram 47%. A produtividade aparece na etapa de escrita, e o passivo se acumula na etapa de manutenção.
O segundo agravante é de disposição do próprio agente, e para entendê-lo basta saber como um modelo é treinado. Boa parte do treinamento funciona como adestramento por pontuação: o modelo tenta, recebe uma nota automática e ajusta o comportamento para tirar nota maior na próxima. Quando o caminho mais curto para a nota alta é burlar o avaliador em vez de resolver a tarefa, o modelo aprende a burlar, porque foi isso que foi premiado.
A Anthropic mostrou o que acontece depois. O hábito de burlar não fica preso ao exercício em que nasceu: ele reaparece em situações que nada têm a ver com o treino, inclusive em tentativas de atrapalhar a própria pesquisa que investigava esse comportamento. A trapaça no teste informa, portanto, sobre a conduta do agente fora do teste. Tratá-la como defeito de medição subestima o alcance do problema.
Do lado construtivo, a proposta da TDAD é a que interessa a quem lidera engenharia: tratar regressão como métrica de primeira classe. Medir apenas se a tarefa foi resolvida mede metade do trabalho; a outra metade é se o que já funcionava continuou funcionando.
Para saber o tamanho do lote que dá para delegar antes que a revisão perca o passo, existe um indicador público, e ele precisa ser lido em par para não enganar.
A METR mede há três anos que duração de tarefa humana um agente consegue completar sozinho, e publica dois valores por modelo. O melhor modelo da tabela, avaliado em 07/04/2026, alcança 17,4 horas quando se aceita que metade das execuções falhe, e 3,1 horas quando se exige acerto em quatro de cada cinco tentativas. O Claude Opus 4.6 vai de 12,0 horas para 1,2 hora entre as duas réguas. A razão entre as colunas passa de cinco para um em todos os modelos da tabela, e é sempre a primeira coluna que aparece em apresentação.
Também tem número o ritmo de evolução da série: a capacidade dobra a cada 128,7 dias, com intervalo de confiança de 104 a 158 dias. Duas ressalvas precisam viajar junto. Poucas das tarefas longas têm base humana efetivamente cronometrada, e os intervalos seguem largos. Citar o número do meio sem a faixa transforma medição de capacidade em promessa, e citar só a coluna dos 50% dobra o erro, porque descreve como rotina um desempenho que falha metade das vezes.
Quem construiu a prática original também validou o catálogo dos oito vícios. Kent Beck documentou, na série Genie da sua newsletter, agentes tentando apagar testes para deixar a bateria verde, e propôs marcar testes como imutáveis para o agente. Armin Ronacher, em "The Coming Loop", descreveu o código que sai de agentes trabalhando em ciclo automático, um chamando o outro sem humano no meio: ele fica defensivo demais, resolve cada trecho olhando apenas para o próprio pedaço e empilha proteção contra erro em cima de proteção contra erro. O caminho que ele não toma é o de desenhar a estrutura de modo que o estado errado nem consiga existir, que costuma sair mais barato de manter. Numerar esse padrão como nono item da lista é organização editorial deste curso; o autor nunca o classificou assim.
Verificação rápida
Um teste continua verde depois que a implementação é substituída por uma constante. O que isso indica?
Não audite os oito vícios de uma vez. Comece pela proporção de anestesia: entre dez testes, quantos continuariam verdes com o comportamento errado, ou seja, quantos são de família A ou B. Dez testes cabem em uma hora e devolvem um número com denominador declarado, que é o que muda a conversa com o time. "Nossos testes são fracos" é impressão e se discute para sempre. "Quatro em dez dos nossos testes passam com o comportamento errado" é dado, e vira ação na mesma reunião.
Feche a página e responda de memória. (1) Quais famílias formam a proporção de anestesia, e por que a família C fica de fora? (2) Por que os vícios 1 e 5 quebram especificamente o contrato da aula sobre o critério de aceite escrito antes do código? (3) Qual dos três controles anti-gaming impede que quem implementa escreva a régua que o aprova? (4) Olhando a sua bateria real: qual dos oito vícios você apostaria que é o mais frequente, e que evidência sustenta o palpite?
A pergunta para levar à reunião: qual é a nossa proporção de anestesia, e qual valor estamos dispostos a tolerar? O critério para responder tem três partes. Primeiro, o número precisa de denominador declarado, porque proporção sem denominador é retórica. Segundo, ele precisa vir de uma amostra que ninguém escolheu a dedo. Terceiro, o valor tolerável depende do raio de dano do que aquela bateria protege: num serviço que move dinheiro, qualquer teste que passe com o comportamento errado no caminho de cobrança já é intolerável, enquanto num painel interno a régua é outra.
Suponha um escritório de duas pessoas que mantém o sistema de agendamento com um agente: auditar dez testes numa hora já diz quantos passariam com o comportamento errado. Faça o mesmo no seu repositório.
1. Caça aos vícios. Audite dez testes gerados por IA no seu repositório contra os oito vícios, usando o prompt desta aula. Classifique cada um e calcule a proporção de anestesia, somando as famílias A e B. Apresente o número ao time como ponto de partida.
2. Política de snapshot. Escreva a regra do time para atualização de snapshot por agente: quando é permitida, quem revisa e qual evidência acompanha o envio. É o vício mais silencioso do catálogo, e três linhas de política eliminam a maior parte do risco.
Compare o que você produziu com quatro sinais de tarefa feita: (a) a proporção de anestesia é um número com denominador declarado; (b) cada teste classificado tem vício e família nomeados, em vez da impressão de fraco; (c) a política de snapshot cabe em três linhas e diz quem revisa e qual evidência acompanha o envio; (d) você encontrou pelo menos um teste que passaria com o comportamento errado, porque nenhum em dez sugere que a auditoria usou a régua do próprio agente.
Perguntas frequentes deste capítulo
Como faço o CI reportar problemas resolvidos contra testes que quebraram?
Se o agente não pode escrever testes, perdemos velocidade?
Teste de mutação resolve tudo isso?
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