Motor de crescimento para IA · Capítulo 13 de 15 · 28 min
O time mudou: contratar quem pensa em sistemas
Você decide qual é o perfil da próxima contratação de marketing e como testar pensamento sistêmico numa entrevista de uma hora, sem depender de currículo. Ao fim do capítulo, você tem um roteiro de entrevista com as perguntas na ordem, o que cada resposta revela e a régua para separar quem conversa com a ferramenta de quem construiu um circuito que melhora sozinho.
Este capítulo faz parte do curso gratuito Motor de crescimento para IA.
A decisão que este capítulo destrava
A Canteiro aprovou a segunda contratação de marketing e a Dani tem duas semanas para abrir a vaga. Cena inventada para a didática deste curso. Ela abre o documento da vaga que a empresa usou para contratá-la, em agosto de 2026, e a descrição pede cinco anos de mídia paga, experiência com Meta e Google, inglês avançado e portfólio de campanhas. Tudo verdadeiro. Tudo insuficiente.
O custo de errar aqui é maior do que o custo de errar em qualquer campanha do curso. Uma campanha ruim você desliga em três semanas. Uma contratação errada custa o salário, custa os meses de rampa, custa a fila de trabalho que ficou parada esperando aquela pessoa, e custa a decisão seguinte, porque quem contratou errado demora a admitir e demora mais ainda a corrigir. Na cena inventada da Canteiro, a segunda contratação consome perto de um quinto do orçamento anual de marketing.
O que a Dani precisa resolver antes de escrever a vaga é simples de enunciar e difícil de executar: qual combinação de atributos ela está comprando, e como ela testa a parte nova dessa combinação numa conversa de uma hora com uma pessoa que ela nunca viu.
Você escolhe entre comprar experiência de plataforma, que é medível pelo currículo e pelas referências, e comprar experiência somada a fluência com IA e pensamento sistêmico, que o currículo não mostra e que precisa de teste próprio. Este capítulo entrega o teste.
O que mudou na descrição de vaga, em um ano
Matt Swulinski conta no episódio do 20VC que, um ano antes, a busca dele era direta: dez anos de experiência em Meta Ads, gente que já tinha operado escala de centenas de milhões. É o perfil que qualquer diretor de marketing sabe procurar, porque ele aparece inteiro no currículo e as referências confirmam.
A leitura dele hoje é que ele continua querendo isso, e que isso deixou de bastar. A combinação que ganha é experiência somada a fluência com IA somada a pensamento sistêmico. O detalhe que torna a afirmação útil está no que ele diz em seguida: muitos times tentam virar nativos em IA e falham, e a causa que ele aponta fica fora da ferramenta e do orçamento de ferramenta: as pessoas naqueles papéis não pensam em sistemas. A ferramenta chega, todo mundo abre uma conta e o trabalho continua saindo do mesmo jeito manual de antes, com uma consulta ao ChatGPT no meio.
Essa parte é leitura de praticante, dita no episódio, sem confirmação externa. A parte que tem lastro é melhor, e é ela que tira a discussão do campo da opinião.
"I would much rather the person be intermediate to advanced, but be a systems thinker who can understand all the moving pieces and layer in AI to 10X themselves." Em português: eu prefiro muito mais que a pessoa seja intermediária ou avançada, desde que seja uma pensadora de sistemas, capaz de entender todas as peças móveis e sobrepor IA para se multiplicar por dez.
Leia a frase devagar, porque ela contém uma renúncia
Ele abre mão do topo da senioridade. Intermediário ou avançado, e não o especialista de dez anos que ele mesmo procurava antes. O verbo mais preciso da frase é sobrepor: sobrepor implica que existe uma camada embaixo, mapeada, sobre a qual a IA se aplica. Quem não mapeou nada não tem sobre o que sobrepor.
A mesma entrevista traz o que o sistema dele produziu, com fonte primária: cerca de 100 patrocínios de newsletter por mês operados por um conjunto de agentes construído em Claude Code com pastas versionadas em Git, gasto de US$ 4.000 a US$ 4.500 por mês em Claude, quase 20 pessoas usando o sistema, de 10% a 20% da semana de trabalho administrativa eliminada e duas vagas de marketing congeladas pelo ganho de capacidade.
Repare no último item. As duas vagas congeladas são a mesma decisão que a Dani está tomando agora, tomada do outro lado: alguém olhou para a capacidade que o sistema liberou e concluiu que não precisava contratar. Você pode chegar à mesma conclusão neste capítulo, e ela é uma resposta legítima.
A definição operacional de pensar em sistemas
A expressão vira jargão vazio em duas semanas se você não amarrar. A definição que o episódio oferece é concreta o bastante para virar teste, e cabe em quatro movimentos, na ordem em que o deck abaixo os apresenta.
Os quatro movimentos de pensar em sistemas, na ordem
1 de 4Um grau de separação
- A pergunta errada: como faço este relatório?
- A pergunta certa: o que este relatório é dentro do meu trabalho?
- O que aparece: quem consome a saída e o que acontece quando ela não sai
O papel como sistema
- A pergunta errada: quais são as minhas responsabilidades no contrato?
- A pergunta certa: o que entra na minha mesa por semana e de onde vem?
- O que aparece: a lista real de peças móveis do dia a dia, com saída e destinatário
As inter-relações
- A pergunta errada: cada peça está funcionando?
- A pergunta certa: qual peça só existe porque outra sai num formato ruim?
- O que aparece: metade do administrativo do time conserta o formato de saída de outra pessoa
O administrativo e o relatório
- A pergunta errada: o que eu quero automatizar primeiro?
- A pergunta certa: onde no mapa está o administrativo chato e onde está o relatório?
- O que aparece: posso aplicar um agente aqui, e gasto meu tempo onde o meu julgamento decide
Se a figura ultrapassar a área visível, deslize para os lados. Pelo teclado, foque a figura e use as setas.
O erro mais comum, descrito com precisão
Perguntar algo ao ChatGPT e continuar fazendo o trabalho do jeito manual. A consulta entra, a resposta sai, o trabalho segue igual. Nada foi mapeado, nada foi sobreposto e a pessoa tem certeza de que está usando IA.
Duas pessoas com o mesmo currículo de mídia paga, na semana de fechamento
Quem não pensa em sistemas
Usa a ferramenta
- Descreve o trabalho pela lista de responsabilidades do contrato
- Pede ao ChatGPT dez variações de texto de anúncio e escolhe uma na mão
- Refaz o relatório mensal do zero todo mês, com o mesmo recorte
- Chama de automação um atalho que ela executa manualmente
- Quando a saída vem ruim, reescreve sozinha e segue o dia
- Não sabe dizer o que entra na mesa dela por semana, nem de onde vem
Quem pensa em sistemas
Construiu o sistema
- Descreve o trabalho por entradas, transformações e saídas
- Tem um pedido escrito, versionado, que recebe correção e melhora a cada rodada
- O relatório se monta sozinho e ela gasta o tempo lendo o que ele diz
- Sabe apontar onde o passo manual termina e onde o agente assume
- Quando a saída vem ruim, corrige a instrução e mede se a próxima veio melhor
- Consegue desenhar o mapa do próprio papel numa folha em cinco minutos
O exercício que revela tudo, e por que ele não precisa dar certo
A pergunta é: o que seria preciso para automatizar o meu trabalho inteiro? Ela é desconfortável de propósito, e o resultado dela não é um plano de automação. Não vai funcionar inteiro, e Matt Swulinski diz isso com todas as letras no episódio. O valor do exercício está no que ele expõe no caminho.
Quem tenta responder descobre, em geral nos primeiros 20 minutos, que não sabe quais são as próprias entradas e as próprias saídas. Sabe que a segunda-feira tem uma reunião de resultado, mas não sabe de onde vêm os números que entram nela, quem os produz, em que formato chegam e quantos minutos por semana se gastam convertendo aquele formato em outro. A pessoa conhece a rotina, e desconhece o mecanismo.
Por que ele chama isso de entrevista de engenharia
Não porque o candidato de marketing precise programar, e ele mesmo diz no episódio que não programa. É porque a régua é a mesma que se usa com engenharia: ou você entende o sistema em que está mexendo, ou você está apertando botões e torcendo.
Aplique o exercício em você antes de aplicar em qualquer candidato. Uma pessoa que nunca desenhou o próprio mapa não consegue avaliar o mapa de outra, e vai confundir vocabulário fluente com prática.
O exercício do mapa: 45 minutos, uma folha, antes de abrir qualquer vaga
Faça em você primeiro. O produto não é uma automação, é a descoberta de quantas peças do seu dia você não conseguia nomear.
Passo 1: Liste tudo que entrou na sua mesa nos últimos sete dias
Pedido de outra área, dado de painel, e-mail de fornecedor, aprovação pendente, arquivo de criativo, pergunta de vendas. Sem filtrar por importância.
Deu certo quando: A lista passa de 20 itens e você reconhece coisas que nunca chamou de trabalho.
Erro comum: Listar responsabilidades no lugar de entradas. Cuidar da mídia paga não é uma entrada, o relatório semanal de gasto por campanha é.
Passo 2: Ao lado de cada entrada, escreva de onde ela veio e em que formato
Pessoa, sistema, planilha, mensagem solta. O formato importa mais do que parece.
Deu certo quando: Aparecem três ou quatro origens que produzem o mesmo dado em formatos diferentes.
Erro comum: Escrever do time de vendas. Escreva do Bruno, em mensagem, sem padrão de coluna.
Passo 3: Liste tudo que saiu de você, e para quem
Relatório, aprovação, texto, briefing, resposta, decisão. Se ninguém consome uma saída, marque com um círculo.
Deu certo quando: Você encontra pelo menos uma saída que ninguém lê há meses.
Erro comum: Esquecer as saídas informais, que costumam ser a maior parte do volume.
Passo 4: Ligue as entradas às saídas com uma seta
Toda entrada que não chega a nenhuma saída e toda saída sem entrada clara são defeitos de desenho, e são exatamente onde mora o administrativo chato.
Deu certo quando: O mapa fica feio e cheio de cruzamentos. Feio é o resultado correto.
Erro comum: Desenhar um fluxo bonito e linear. Trabalho real não é linear, e o desenho limpo escondeu o problema.
Passo 5: Marque três coisas no mapa: o administrativo, os relatórios e o julgamento
Administrativo é conversão de formato, cobrança e agendamento. Relatório é o que se monta sempre igual. Julgamento é o que exige você.
Deu certo quando: O julgamento ocupa uma parte pequena do mapa, e isso assusta.
Erro comum: Classificar como julgamento tudo que você gosta de fazer.
Passo 6: Responda o que seria preciso para automatizar isto inteiro
Escreva a resposta mesmo sabendo que ela é impossível. O que interessa são os pontos em que você trava por não saber descrever o que acontece ali.
Deu certo quando: Você consegue apontar dois pontos do mapa em que um agente entraria esta semana.
Erro comum: Parar no primeiro impossível. O exercício termina no fim do mapa.
No fim você tem: Uma folha com o seu papel desenhado como mecanismo, os pontos em que um agente entraria circulados e uma lista curta do que você não soube descrever. Essa última lista é a mais valiosa, e é ela que você vai procurar reproduzir na cabeça do candidato.
Como entrevistar, que é a parte mais útil do capítulo
A pergunta central de Matt Swulinski tem duas metades, e a segunda vale mais que a primeira. A primeira é como você usa IA como fluxo de trabalho no seu trabalho. A segunda é como você usa fluxos de IA na sua vida pessoal, e se existe algum sistema seu que te faz uma pessoa melhor fora do expediente.
A segunda metade é melhor porque ninguém se prepara para ela. Todo candidato de marketing em 2026 ensaiou uma resposta sobre IA no trabalho, e essa resposta vem polida. A da vida pessoal vem crua, e quem construiu alguma coisa de verdade tem o que contar imediatamente, com detalhe, porque construiu por vontade própria. Quem não construiu improvisa, e o improviso soa igual em todo mundo.
A resposta ruim mais comum, e por que ela reprova
Tenho um projeto no ChatGPT com contexto sobre com quem eu converso. Ela é factualmente correta, e é assim mesmo que se usa camada de memória e de contexto. O problema está em outro lugar. Conversar com a ferramenta não é um fluxo de trabalho, porque falta o circuito de retorno. Entra pergunta, sai resposta e nada no sistema fica melhor por causa dessa rodada.
Daí saem os dois testes que decidem a entrevista.
Conversa recorrente não é fluxo de trabalho
Um fluxo de trabalho tem uma saída que volta e altera a próxima entrada.
- Sem esse retorno, você tem uma conversa recorrente com boa memória
- Camada de memória e de contexto está certa, e sozinha não fecha o circuito
- O primeiro laço é passar pela dor de dar retorno em vez de refazer sozinho
- O segundo laço é o resultado de uma rodada alimentar a seguinte sem você lembrar
- Correção guardada por escrito vira parte do sistema, no chat ela morre
O teste: Depois de dez rodadas, alguma coisa no arranjo ficou melhor por causa das anteriores?
alexandrecaramaschi.com/educacao/frontends-com-vibecoding
Primeiro teste, o que você faz quando a IA entrega material ruim
A maioria das pessoas responde alguma versão de isto está ruim, refaz. Se frustra, pega o documento e reescreve sozinha. É a resposta honesta e é a resposta que reprova, porque ela descreve exatamente o ponto em que o circuito deveria fechar e não fecha. Dói porque é mais lento na primeira vez, e quase sempre mais lento na segunda. Compensa a partir da quinta, e só quem chegou à quinta sabe disso.
Uma resposta boa aqui tem textura: a pessoa conta o que estava errado na saída, o que ela escreveu de volta, o que mudou na rodada seguinte e o que ela guardou por escrito para não repetir a correção. Guardar por escrito é o sinal mais forte de todos.
Segundo teste, o circuito que melhora sozinho
Aqui a régua sobe muito. Um circuito que melhora sozinho é aquele em que o resultado de cada rodada alimenta a rodada seguinte sem que você precise lembrar de fazer isso. Matt Swulinski diz encontrar esse nível em menos de 1% dos candidatos, e acrescenta que está tudo bem, porque uma pessoa certa com um bom conjunto de agentes substitui um time inteiro. O número é a impressão dele, sem base publicada, e a estrutura da entrevista continua valendo mesmo que na sua amostra a proporção seja outra.
Se a figura ultrapassar a área visível, deslize para os lados. Pelo teclado, foque a figura e use as setas.
Roteiro de entrevista para pensamento sistêmico, 50 minutos
Preencha os três campos e o roteiro sai pronto para a conversa. A ordem das perguntas é a régua: as três primeiras estabelecem se existe mapa, as três do meio testam o circuito de retorno, e a última é o exercício. Não pule a de vida pessoal, que é a que menos se ensaia.
Documento montado
ROTEIRO DE ENTREVISTA, {vaga} na {empresa}
BLOCO 1, EXISTE MAPA (12 minutos)
1. Descreva a sua semana passada pelo que entrou na sua mesa e pelo que saiu de você, não pelas suas responsabilidades.
O que revela: se a pessoa pensa em entradas e saídas ou em cargo. Quem só sabe descrever o cargo nunca desenhou o mapa.
2. Diga qual pedaço dessa semana é administrativo, qual é relatório e qual exige o seu julgamento.
O que revela: se ela separa as três naturezas. Quem chama tudo de estratégia está protegendo o próprio tempo em vez de descrever o trabalho.
3. Aponte a peça do seu trabalho que existe só porque outra peça sai num formato ruim.
O que revela: percepção de inter-relação. Esta pergunta separa quem enxerga o mecanismo de quem enxerga a lista.
BLOCO 2, EXISTE CIRCUITO (20 minutos)
4. Conte como você usa IA como fluxo de trabalho, em vez de consulta avulsa.
O que revela: pouco, e é de propósito. Todo mundo ensaiou. Serve de aquecimento e de linha de base para comparar com a pergunta 5.
5. Conte se, na sua vida pessoal, você tem algum fluxo de IA que te faz uma pessoa melhor fora do trabalho.
O que revela: muito. Ninguém ensaia esta. Quem construiu tem detalhe imediato e específico. Quem não construiu generaliza.
6. Descreva a última vez em que a IA te entregou material ruim e o que exatamente você fez.
O que revela: o primeiro laço. Refez sozinha, ou deu retorno e mediu a rodada seguinte. Peça o texto da correção, se ela guardou.
7. Conte se você já construiu alguma coisa em que o resultado de uma rodada melhora a rodada seguinte sem você lembrar de fazer nada.
O que revela: o segundo laço. Peça o mecanismo, passo a passo, incluindo onde entra a decisão humana e onde ela sai.
BLOCO 3, O EXERCÍCIO AO VIVO (15 minutos)
8. Esta é uma rotina real da nossa casa: {rotina}. Desenhe comigo o que seria preciso para automatizá-la inteira. Sabemos que inteira não dá. Quero ver onde você trava.
O que revela: tudo o que as sete anteriores sugeriram. Quem pensa em sistemas começa perguntando de onde vêm os dados, quem consome a saída e o que acontece quando ela atrasa. Quem não pensa começa propondo uma ferramenta.
9. Fechamento: diga o que você automatizaria primeiro nos seus primeiros 30 dias aqui, e como saberia que funcionou.
O que revela: se a pessoa mede. Uma resposta sem critério de verificação é uma intenção.
CRITÉRIO DE APROVAÇÃO
Aprova quem, na pergunta 6, descreve retorno dado e efeito observado, e quem, na pergunta 8, pede as entradas antes de propor a solução. Reprova quem, na 8, nomeia uma ferramenta nos primeiros dois minutos.O que você digitar fica salvo neste navegador. Nada é enviado para servidor algum.
O que cada resposta revela: pares de resposta fraca e resposta forte
Pergunta 4, uso de IA no trabalho
FRACA: "Tenho um projeto no ChatGPT com todo o contexto da minha área, o tom da marca e os nossos produtos. Uso todo dia." Está certo e é assim que se usa camada de contexto. Falta o retorno: nada nesse arranjo fica melhor por causa das rodadas anteriores. FORTE: "Tenho um pedido escrito, guardado num arquivo, que gera o resumo semanal de campanha. Toda vez que a saída vem errada eu edito o arquivo e anoto por que editei. Ele está na décima quarta versão e as três primeiras eram inúteis." A textura é o sinal: versão, motivo do ajuste e memória de ter fracassado no começo. Quem inventa não lembra de ter fracassado.
Pergunta 5, fluxos de IA na vida pessoal
FRACA: "Uso bastante para pesquisa, para planejar viagem, essas coisas." Genérico e sem mecanismo. Insista uma vez, pedindo a última vez com detalhe. Se o detalhe não aparecer na segunda tentativa, ele não existe. FORTE: "Fotografo a etiqueta de todo vinho que bebo e mando para um assistente que mantém uma lista com o que achei de cada um. Quando entro numa loja, pergunto o que comprar dentro de uma faixa de preço e ele responde com base no que eu disse antes. Levei uns dois meses para ele parar de sugerir coisa que eu já tinha dito que não gostava." Existe entrada, existe saída, existe correção e existe o relato do período em que não funcionava. O assunto é irrelevante, o mecanismo é tudo.
Pergunta 6, o que você faz quando o material vem ruim
FRACA: "Falo que está ruim e peço de novo. Se vier ruim outra vez, eu mesma escrevo, sai mais rápido." É a resposta mais comum e é a que reprova, porque descreve com precisão o ponto em que o circuito deveria fechar. A escolha é racional no curto prazo, já que refazer sozinha é mais rápido hoje. Quem dá retorno está pagando adiantado por uma vantagem que só aparece depois. FORTE: "A saída vinha sempre com abertura de anúncio de agência. Escrevi de volta explicando o defeito com dois exemplos do que eu queria e dois do que eu não queria, e colei essa explicação dentro do arquivo do pedido. Nas rodadas seguintes o defeito sumiu." O retorno foi dado, o efeito foi observado e a correção virou parte do sistema em vez de morrer no chat.
Pergunta 7, o circuito que melhora sozinho
FRACA: "Sim, eu vou ajustando o prompt conforme vou usando." Ajustar à mão quando lembra é higiene. Pergunte o gatilho: o que dispara o ajuste, e o que acontece se você ficar duas semanas sem olhar. FORTE: "O sistema guarda o resultado de cada envio e a próxima peça é escrita com o histórico de desempenho junto. Eu entro só na aprovação, e a regra de continuar ou parar com cada parceiro está escrita." É o desenho do sistema de patrocínio de newsletter que Matt Swulinski descreve no episódio: o passo manual termina na aprovação do contrato e o histórico alimenta a peça seguinte. Ele diz encontrar isso em menos de 1% dos candidatos, o que é a impressão dele.
Pergunta 8, o exercício ao vivo
FRACA: nos dois primeiros minutos a pessoa nomeia uma ferramenta e começa a descrever a integração, sem nunca perguntar de onde vêm os dados, quem lê o relatório nem o que acontece quando ele atrasa. É o mesmo defeito da consulta ao ChatGPT com o trabalho manual continuando: a camada de cima antes da camada de baixo. FORTE: a pessoa passa os primeiros cinco minutos perguntando de onde vem cada número, em que formato, quem produz, quem consome o relatório e o que quebra quando ele vem errado. Só então propõe algo, separando o que o agente faz do que exige julgamento humano. Ela pode nunca ter usado a sua ferramenta, e aprende em uma semana. O mapa não se aprende em uma semana.
Cena inventada para a didática. A Canteiro aprovou a segunda contratação de marketing e a Dani entrevistou três finalistas com o roteiro de nove perguntas. Camila tem sete anos de mídia paga, operou orçamentos maiores do que o da Canteiro inteira e, na pergunta 6, disse que refaz sozinha quando a saída vem ruim porque é mais rápido. Téo tem dois anos de experiência, montou um assistente que lê os e-mails de fornecedor da agência onde trabalhava, extrai prazo e valor e devolve uma lista ordenada, e guarda por escrito cada correção que precisou fazer nele. Renan fala de IA o tempo todo, cita seis ferramentas e na pergunta 8 nomeou uma plataforma de automação nos primeiros 90 segundos, sem perguntar de onde vêm os dados do relatório.
A vaga é uma só e a Dani decide nesta semana. Quem ela contrata?
O generalista especializado e o fim do eu só faço criativo
A tese que Matt Swulinski defende no episódio é que os hiperespecialistas estão morrendo devagar, e que o perfil que sobrevive é o do generalista especializado: escolha uma coisa em que você é melhor que os outros, e suje as mãos em tudo o mais.
A parte prática dela, para quem contrata, é uma frase que precisa sumir das entrevistas: eu só faço criativo. Ou eu só faço mídia, ou eu só faço conteúdo. Numa operação em que uma pessoa opera vários canais com um conjunto de agentes, a fronteira entre as funções deixou de ser proteção e virou custo, porque cada fronteira exige alguém no meio convertendo formato.
O ponto de queda é sempre a medição
Ele diz isso com clareza: os líderes de crescimento se perdem justamente na medição, em analytics e em rastreamento de conversão. Sem esses fundamentos, a pessoa não sabe o que faz o sistema funcionar e passa a operar por opinião. Este curso já tratou disso no capítulo 2, e a ligação é direta: quem não sabe descrever as próprias entradas e saídas também não sabe descrever de onde vem cada número do painel.
Na entrevista, isso vira uma pergunta de dois minutos: me explica, do clique até a linha do relatório, por onde passa um evento de conversão na sua operação atual. Quem responde com a passagem completa entendeu o mecanismo. Quem responde citando a ferramenta de painel decorou o nome da caixa.
Times mais enxutos, e a fratura que já está acontecendo
O exemplo que ele dá é fácil de conferir contra a sua realidade. O que hoje é um time de marketing de influência com três a cinco pessoas numa empresa grande, amanhã é uma pessoa muito boa com um conjunto de agentes, capaz de operar um volume de criadores que aquele time nunca operaria, desde que saiba filtrar os dados e saiba em que ponto precisa entrar.
Repare na condição do fim, que costuma ser ignorada: saber onde entrar. O trabalho passa a ser escolher os pontos de intervenção, e escolher pontos de intervenção exige o mapa.
O teste de sair de cena, para enxergar a fratura sem demitir às cegas
Duas pessoas com o mesmo cargo, o mesmo tempo de casa e a mesma avaliação do ano passado produzem volumes de trabalho que não se comparam mais, e o organograma continua tratando as duas como pares.
O teste que ele propõe é elegante: saia de cena e volte. Tire-se do circuito por duas ou três semanas, deixe a operação rodar e olhe o que sobreviveu. Quem construiu sistemas fica evidente, porque o trabalho continuou saindo. Quem dependia de você fica evidente pelo motivo contrário. A frase dele é que os A viram S e os B viram D.
Faça o teste com um cuidado: avise antes, combine o período e deixe claro que é um teste do sistema. Um teste às escondidas mede pânico.
Três afirmações deste capítulo são posições de Matt Swulinski, e você precisa decidir sobre elas em vez de herdá-las. A primeira: menos de 1% dos candidatos chega ao nível de pensamento sistêmico que ele procura. É a impressão dele sobre a própria amostra, sem base publicada, e a sua amostra pode ser muito diferente dependendo do mercado em que você recruta. A segunda: demitir a maior parte do time de marketing que não pensa em sistemas. É recomendação dele, dita como opinião forte no episódio, e ela ignora o custo de recontratar, o conhecimento de contexto que sai pela porta e a possibilidade de ensinar o que falta, que este capítulo mostra ser ensinável com um exercício de 45 minutos. A terceira: a aposta de que em cerca de três anos as empresas serão como um conselho, com 20% de estratégia humana e 80% de execução por agentes. É previsão e não medição, e nenhum dossiê deste curso encontrou base publicada para ela. Use as três como hipóteses de trabalho, e teste cada uma na sua operação antes de decidir com base nela.
A aposta de 80% e o corolário que interessa mais que a aposta
A leitura dele hoje é que 80% do trabalho ainda é manual e 20% passa por agente, e que essa proporção se inverte em algo como três anos. Ele mesmo aponta o quanto isso ainda está longe, e o exemplo é doméstico: editar e enviar um e-mail continua sendo trabalho manual, mesmo com todas as ferramentas existindo. A mudança depende de qualidade e de adoção com retorno real.
Se a previsão vai se cumprir no prazo dele, ninguém sabe, e o dossiê de pesquisa deste curso registra que ela não tem base publicada. O corolário, porém, se sustenta sozinho, independentemente do prazo: sem entender como os sistemas funcionam, você nunca vai conseguir enxergar os seus agentes. Ele vale hoje, com 20% de execução automatizada, e vale mais ainda quando a proporção subir.
A consequência para quem contrata não depende de acreditar na previsão
A pessoa que você contrata agora vai passar a maior parte do tempo dela decidindo o que delegar, verificando o que voltou e corrigindo instrução. Contratar para o trabalho de hoje, medido em horas de execução manual, compra alguém que fica bom exatamente na parte que encolhe.
A última tese dele deste bloco é a que mais muda o desenho da vaga: não existe marketing B2B e marketing B2C, existe marketing, porque no fim da linha há uma pessoa decidindo a compra. O exemplo que ele dá é a Viktor, um produto B2B de custo de aquisição alto, onde se contrata um funcionário de IA e se pagam milhares de dólares, comercializado como um aplicativo de consumo. Na prática de contratação, isso significa parar de descartar currículos de quem veio de comércio eletrônico ou de produto de consumo por não ter feito B2B. Na cena inventada da Canteiro, quem decide assinar o plano Construtora é uma pessoa que instala o aplicativo no celular, testa numa obra e decide se aquilo poupa a tarde dela.
Três erros que derrubam a contratação, com o movimento de saída
Os três aparecem em momentos diferentes do processo, e os três se corrigem com uma providência escrita. Deslize o deck para comparar sintoma, causa e saída de cada um.
Três erros que derrubam a contratação, e a saída de cada um
1 de 3Fluência confundida com prática
- Sintoma: o candidato cita muitas ferramentas e não descreve nenhum mecanismo do começo ao fim
- Causa: o repertório de conteúdo sobre IA é público e barato, e a construção é privada e cara
- Saída: a pergunta 8 do roteiro, o exercício ao vivo sobre uma rotina real da sua casa
Régua nova com anúncio velho
- Sintoma: a vaga pede cinco anos de plataforma, a entrevista testa sistema e o aprovado não entende por que foi escolhido
- Causa: mudar o teste sem mudar o anúncio filtra na entrada exatamente o perfil que você diz querer
- Saída: reescreva o anúncio com as perguntas 3, 6 e 7 em linguagem de vaga, e aceite receber menos currículos
Contratar sem dar espaço de construção
- Sintoma: a pessoa cai numa fila de execução urgente e no mês seis faz o mesmo que qualquer executor
- Causa: a operação prometeu tempo de construção e nunca protegeu esse tempo na agenda
- Saída: escreva na proposta quantas horas semanais são de construção, e trate como reunião que não se remarca
Antes de abrir a vaga e antes de fechar a contratação
Antes de escrever o anúncio
0/4Durante a entrevista
0/5Antes de assinar
0/3De volta ao documento da vaga da Dani
Ela reescreveu o anúncio em uma tarde, e a mudança mais importante foi de subtração. Saíram os cinco anos de mídia paga, que filtravam na entrada justamente quem ela queria testar. Entraram três frases que descrevem o trabalho como mecanismo: você vai mapear as peças móveis desta operação, vai construir os circuitos que hoje não existem e vai passar boa parte do tempo corrigindo instrução em vez de executando tarefa.
O efeito imediato foi receber menos currículos, e ela tratou isso como resultado positivo. O efeito seguinte foi que a entrevista ficou mais difícil de conduzir, porque ler um mapa desenhado ao vivo exige que você saiba desenhar um. Foi por isso que o exercício de 45 minutos veio antes de tudo neste capítulo.
A régua completa cabe em uma escolha entre duas compras: alguém que executa o trabalho de hoje, e alguém que entende o mecanismo e vai redesenhá-lo. As duas compras são legítimas e têm preços diferentes. A que quase ninguém faz de propósito é a segunda, e é a única que fica mais valiosa a cada mês que passa.
Antes de seguir para o capítulo 14, responda por escrito: (1) desenhe o mapa do seu próprio papel, com entradas, saídas e as inter-relações, sem consultar ninguém. (2) Registre a última vez em que você deu retorno a uma saída ruim de IA em vez de refazer sozinho, e o que mudou na rodada seguinte. (3) Nomeie o circuito da sua operação em que o resultado de uma rodada melhora a rodada seguinte sem você lembrar de fazer nada, ou escreva que ele ainda não existe. (4) Compare o que a sua próxima vaga pede no anúncio com o que a sua entrevista vai testar. (5) Diga quais das três posições de Matt Swulinski deste capítulo, o menos de 1%, a demissão de quem não pensa em sistemas e a inversão de 80% em três anos, você aceita como hipótese de trabalho, e qual delas você rejeita.
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