Qual é o número que muda a conta de mídia?
Mídia conquistada responde por 84% de todas as citações que a IA faz quando monta uma resposta, enquanto a mídia paga responde por 0,3%. Esse é o número que reorganiza, sozinho, a maneira como uma empresa deveria pensar em visibilidade em 2026. Ele vem do estudo "What is AI Reading?", conduzido pela Muck Rack na linha Generative Pulse, que analisou mais de 25 milhões de links extraídos pelos modelos em 17 setores, cobrindo ChatGPT, Claude e Gemini.
Quando eu olho para essa distribuição, vejo uma coisa óbvia que quase ninguém no marketing quer admitir. A lógica da IA replica a lógica humana. O leitor confia no jornalista e ignora o banner. O modelo faz exatamente o mesmo. Ele puxa a resposta da matéria, da pesquisa e do dado público, e descarta o anúncio.
Por mídia conquistada, o estudo entende o conjunto de fontes que a marca não compra: jornalismo profissional, pesquisa acadêmica, dados de governo e comunidades. Esse bloco oscilou entre 82% e 89% das citações ao longo de três edições do levantamento desde julho de 2025, ou seja, é um padrão estrutural, não um ruído de uma medição isolada. Só o jornalismo profissional sustenta 27% das citações, estável na faixa de 25% a 27%.
Do outro lado, mídia paga e advertorial somam 0,3%. O conteúdo não pago, no total, representa 99% do que a IA cita. A leitura é direta: para efeito de citação por IA, a mídia comprada está praticamente morta.
Por que o modelo prefere o jornalista ao anúncio?
O modelo prefere o jornalista porque a IA não sabe nada por conta própria. Ela aprende tudo o que sabe a partir do conteúdo que extrai da web, e por isso herda a hierarquia de confiança desse conteúdo. Quem disse isso de forma mais limpa foi a própria Muck Rack.
"A IA puxa essas respostas de algum lugar. Os sistemas de IA não são inerentemente conhecedores; eles aprendem tudo o que sabem a partir do conteúdo que extraem da web." Matt Dzugan, VP of Data & Intelligence da Muck Rack
Essa frase tem uma consequência prática que poucos times de marketing internalizaram. Se a IA é um espelho do que a web considera confiável, então o trabalho de visibilidade deixa de ser produzir o seu próprio conteúdo e passa a ser fazer com que fontes confiáveis falem de você. O jornalista carrega um sinal de credibilidade editorial que o modelo aprendeu a valorizar. O seu anúncio carrega um sinal promocional que o modelo aprendeu a descontar.
O reforço acadêmico fecha o argumento. O trabalho de Chen e colaboradores (arXiv 2509.08919, setembro de 2025) mostrou que a busca por IA tem um viés sistemático a favor da mídia conquistada. No estudo, a earned media pesa de 2,3 a 3,1 vezes mais que o conteúdo próprio da marca. E o conteúdo brand-owned representa apenas 5% a 10% de tudo o que os motores extraem. Não é uma questão de o seu conteúdo ser ruim. É que o seu conteúdo, por definição, ocupa uma fatia pequena do universo de onde a IA puxa, e ainda recebe peso menor dentro dessa fatia.
Há um detalhe que destrói de vez a ilusão de controle via SEO clássico. Apenas cerca de 38% das citações de IA vêm do top-10 orgânico do Google. Ranquear na primeira página deixou de garantir presença na resposta da máquina.
Cada modelo lê de um jeito? Sim, e isso muda a tática
Cada modelo lê de um jeito diferente, e tratar "a IA" como uma entidade única é o erro tático que mais custa caro. O estudo da Muck Rack mostra três comportamentos distintos entre ChatGPT, Gemini e Claude, e cada um deles aponta para um canal de conquista diferente.
O ChatGPT é o mais citador. Ele inclui citações em 96% das respostas, com cerca de 5 citações por resposta, e tem a Wikipedia como domínio mais citado. O Axios aparece no top-3 de fontes em 13 dos 17 setores analisados, o que mostra a preferência do modelo por veículos de negócios de grande alcance. O Gemini cita em 82% das respostas, com cerca de 8 citações cada, e tem o Reddit como domínio mais citado, o que reflete o peso de comunidade no seu mix de fontes.
O Claude é o caso mais interessante. Ele é o mais seletivo, cita em apenas 55% das respostas, mas quando cita usa cerca de 13 fontes. Seu domínio mais citado é o PubMed Central, e ele prefere veículos de nicho e de trade. O top-100 de domínios que o Claude cita tem cerca de 50% menos visitantes únicos mensais que o top-100 do ChatGPT. Ou seja, o Claude vai fundo no especializado em vez de ficar no popular. Ele também tem memória mais longa: sustenta uma citação por cerca de 10 semanas e é aproximadamente 3 vezes mais propenso que o ChatGPT a citar conteúdo de 2 a 4 semanas atrás.
| Modelo | Frequência de citação | Citações por resposta | Domínio mais citado | Perfil de fonte |
|---|---|---|---|---|
| ChatGPT | 96% das respostas | ~5 | Wikipedia | Negócios de grande alcance (Axios no top-3 em 13 de 17 setores) |
| Gemini | 82% das respostas | ~8 | Comunidade e discussão | |
| Claude | 55% das respostas | ~13 quando cita | PubMed Central | Nicho e trade, memória longa (~10 semanas) |
A leitura executiva dessa tabela é simples. Uma única estratégia de mídia não cobre os três motores. Quem quer aparecer no ChatGPT precisa de negócios grandes, quem quer o Gemini precisa de comunidade, e quem quer o Claude precisa de trade especializado e consistência ao longo do tempo.
Por que a matéria de tendência vale mais que o release de produto?
A matéria de tendência vale mais porque a IA recorre ao jornalismo com muito mais intensidade quando a pergunta do usuário é sobre o rumo de um setor do que quando é uma instrução prática. O estudo da Muck Rack mostra que perguntas de tendência de setor citam jornalismo a mais que o dobro da taxa de perguntas how-to. Em respostas de tendência, o jornalismo chega a cerca de 46% da composição das fontes.
Esse dado tem uma implicação que muda a pauta de assessoria. Press releases aparecem 3,5 vezes mais em respostas de tendência do que em consultas do tipo "melhores X". Quando o usuário pergunta para a IA quais são os melhores produtos de uma categoria, o release de lançamento praticamente não entra. Quando o usuário pergunta para onde o setor está indo, o material de imprensa ganha relevância.
Eu costumo dizer para os times que isso reposiciona o trabalho de PR. O ativo não é o anúncio do produto novo. O ativo é a participação da marca na conversa sobre o futuro do setor. Uma empresa que aparece consistentemente nas matérias sobre tendências da sua indústria constrói um lastro de citação que o modelo recupera toda vez que alguém pergunta sobre aquele tema. Uma empresa que só emite release de produto fica fora dessa conversa.
Há aqui um desperdício silencioso que precisa ser nomeado. Existe um descompasso grande entre a lista de imprensa padrão da maioria das assessorias e os veículos que a IA de fato cita. Os jornalistas mais pitchados por profissionais de PR e os mais citados pela IA têm sobreposição média de apenas 2%. Em outras palavras, 98% do esforço de pitch da indústria de relações públicas vai para fontes que pouco influenciam a resposta da máquina.
Como conquistar citação por IA em cinco passos?
Conquistar citação por IA exige inverter o fluxo tradicional de assessoria: parte-se da pergunta que o cliente faz ao modelo, e não do release que a empresa quer divulgar. O framework que eu uso na Brasil GEO tem cinco passos, e ele foi desenhado para fechar o gap de 98% entre o pitch padrão e a fonte que a IA realmente lê.
- 1. Mapear a pergunta de tendência do ICP. Comece pela pergunta de tendência de setor que o seu cliente ideal digita no ChatGPT, no Gemini ou no Claude. Não é a dúvida how-to nem a busca por "melhores X". É a pergunta sobre o rumo da indústria, justamente aquela em que o jornalismo chega a 46% da composição das fontes.
- 2. Mapear os veículos e jornalistas que a IA cita de verdade. Levante quais domínios e autores aparecem nas respostas reais dos modelos para aquela pergunta. Esqueça a lista de PR padrão. Lembre que a sobreposição entre o jornalista mais pitchado e o mais citado pela IA é de apenas 2%. A sua lista precisa ser construída a partir da citação observada, não do relacionamento herdado.
- 3. Placear matéria de tendência, não release de produto. Ofereça ao veículo uma contribuição sobre para onde o setor caminha, com dado e ponto de vista, e não o anúncio do seu lançamento. É a matéria de tendência que entra na resposta da IA com mais que o dobro da taxa do how-to.
- 4. Diversificar o canal por LLM. Negócios de grande alcance para alimentar o ChatGPT, comunidade para alimentar o Gemini, trade e nicho para alimentar o Claude. Um único veículo não cobre os três motores, porque cada um lê de um jeito diferente.
- 5. Medir share de citação por LLM, não clipping. O indicador deixa de ser quantos clippings a marca acumulou e passa a ser em qual fatia das respostas de cada modelo a marca é citada para as perguntas que importam. Clipping conta presença na mídia. Share de citação conta presença na resposta da máquina, que é onde a decisão do seu cliente acontece.
A diferença entre os dois últimos pontos é o que separa uma operação de GEO de uma assessoria tradicional rebatizada. Medir clipping é olhar para o canal. Medir share de citação por LLM é olhar para o resultado que o canal produz dentro do modelo.
O que fazer com o orçamento a partir de agora?
A decisão de orçamento, diante desses números, é direta: realocar verba de mídia paga para conquista de earned media de tendência, diversificada por modelo. Quando 99% das citações de IA vêm de conteúdo não pago e a mídia paga responde por 0,3%, manter a maior parte do investimento de visibilidade em banner é financiar um canal que o modelo, por construção, descarta.
Eu não estou dizendo para zerar mídia paga. Performance de conversão e remarketing seguem tendo função no funil. O que eu estou dizendo é que o orçamento dedicado a presença e descoberta, a parte que existe para a marca ser encontrada, precisa migrar para onde a citação realmente acontece. Hoje, esse lugar é a mídia conquistada de tendência, e ela precisa ser distribuída de forma diferente para cada motor.
Quando eu olho para uma operação de marketing em 2026, a pergunta que eu faço primeiro não é quanto a empresa gasta em anúncio. É se a empresa aparece nas matérias de tendência que a IA lê sobre o setor dela. Se a resposta é não, a marca pode estar liderando em share de mídia paga e, ao mesmo tempo, simplesmente não existir para a IA. Esse é o risco que a conta de 84% contra 0,3% expõe.
O próximo passo é concreto e cabe em uma semana. Escolha as cinco perguntas de tendência mais importantes do seu setor, rode cada uma nos três modelos, anote quais veículos e jornalistas aparecem nas respostas e compare essa lista com a sua lista de imprensa atual. A distância entre as duas listas é o tamanho exato da oportunidade de GEO que está na sua frente. É por aí que eu começaria.